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Fascismo: 'É preciso identificar o momento do perigo e este momento é agora'

Em palestra sobre o fascismo, o jurista, filósofo e professor da USP Alysson Leandro Mascaro alerta que o Brasil está vivendo hoje um momento mais grave do que o de 1964, em que houve o golpe. 

Vale ouvir este trecho de sua palestra, que serve como alerta: [Há uma transcrição logo após o vídeo]

 

"...contra o satanás, contra o aborto, em favor da família cristã, que é a família tal e qual e etc, e matar comunista etc e tal, beira metade do Brasil já, sem precisar de um chicote de alguém dizendo fale! Sai do coração, esse é o limiar, essa é uma cabeça do cavalo pro lado de lá, não está o corpo inteiro ainda, não estão as quatro patas. Mas, observem, é pior do que 64. 64 tinha um chicote. Hoje, continua o chicote chicoteando os pobres, negras e negros da periferia, LGBTQIA+. O chicote é igual, só que agora tem gente dizendo "Tem que chicotear". E disse o Poulantzas: "O fascismo é quando toda essa estrutura do horror passa a ser produzida pelas massas". Porque foram as massas italianas que produziram o horror do qual Mussolini era o regente. Foram as massas alemãs que iam de vontade própria na esquina para a SS, a Gestapo qualquer da vida, e dizia, "meu vizinho é judeu". Foi o homem do povo. Não foi o cadastro geral do CNPJ ou do CPF ou do RG da Alemanha. Foi o vizinho, o colega.

"Pensar o fascismo com um século de estudos científicos é ver toda uma construção espetacular na qual os dois quadrantes mais altos são estes. O capitalismo é o fascismo, o fascismo é um fenômeno do capitalismo, mas não todo momento do capitalismo é sempre fascista. Então eu preciso identificar o momento do perigo e, pasmem, este momento é o momento de perigo. Mussolini e Hitler não foi o exército que os fez, pelo contrário. As milícias das massas destruíram os exércitos. Esse fenômeno todo mundo esquece, eu fiz questão de lembrar aqui no livro ["Crítica do fascismo", de Alysson Leandro Mascaro, da Boitempo] e explicar. O Mussolini não foi a glória do exército italiano. O Mussolini foi a decadência do exército italiano e o surgimento da milícia fascista italiana. De massas! 

"Quem matará o negro pobre e miserável a partir de algum momento é o povo mesmo, não é mais a polícia."


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'Quem conhece a história do fascismo italiano sabe a quantidade inumerável de vezes que Mussolini foi dado como politicamente morto'


Artigo de Vladimir Safatle, no El País.
O golpe começou
 
Quem conhece a história do fascismo italiano sabe a quantidade inumerável de vezes que Mussolini, em sua ascensão ao poder, foi dado como politicamente morto, isolado, acuado, fragilizado. No entanto, apesar das finas análises de comentaristas da vida política italiana, apesar das sutis leituras que pareciam ser capazes de pegar as mais inusitadas nuances, Mussolini, o bronco Mussolini chegou onde queria chegar. Isso ao menos deveria servir para lembrarmos da existência de três erros que levam qualquer um a perder uma guerra, a saber, subestimar a dedicação de seu oponente, subestimar sua força e, por fim, sua capacidade de pensar estrategicamente.

O mínimo que se pode dizer é que a oposição brasileira é exímia em praticar os três erros contra Bolsonaro e seus adeptos. Ela parece animada pela capacidade de tomar seus desejos por realidade, de justificar sua paralisia como se fosse a mais madura de todas as astúcias. Agora, a isso ela acrescentou uma patologia que, nos antigos manuais de psiquiatria, chamava-se “escotomização”, ou seja, a capacidade de simplesmente não ver um fenômeno que ocorre na sua frente. Mesmo tendo 600.000 mortes nas costas por negligencia de seu governo em relação à pandemia, Bolsonaro conseguiu um 7 de setembro para chamar de seu, com mais de 100.000 pessoas na Paulista e quantidade semelhante na Esplanada dos Ministérios.

Ele se colocou como o líder inconteste de uma singular sublevação do governo contra o estado, afirmando que não reconhece mais a autoridade do STF. Ou seja, ele assumiu para o mundo que está em rota de colisão com o que restou da institucionalidade da vida política brasileira. Seus apoiadores saíram desse dia com sua identificação reforçada e compreendendo-se como protagonistas de uma insurreição popular que de fato está a ocorrer, mesmo que com sinais trocados. Uma insurreição que mostra a força do fascismo brasileiro.

De nada adianta falar que essa manifestação “flopou”, que estavam presentes apenas 6% do esperado. Uma insurreição nunca precisou da maioria da população para impor sua vontade. Ela precisa de uma minoria substantiva, aguerrida, unificada e intimidadora, pois potencialmente armada. Bolsonaro tem as quatro condições, além do apoio inconteste das Polícias Militares e das Forças Armadas, que por nada nesse mundo, mas absolutamente nada irá deixar um governo que lhe promete salários de até 126.000 reais.

Aqueles que se comprazem acreditando que o verdadeiro apoio de Bolsonaro é 12% são os que normalmente fazem de tudo para que nós não façamos nada. Mas para quem quiser de fato encarar o que está a ocorrer no Brasil, não há nada mais a dizer do que “o golpe começou”. A manifestação do 7 de setembro marcou uma clara ruptura no interior do governo Bolsonaro. De fato, acerta quem diz que o governo acabou. Mas isso significa apenas que Bolsonaro pode agora abandonar a máscara de governo e assumir a céu aberto o que esse “governo” sempre foi, desde seu primeiro dia, a saber, um movimento, uma dinâmica de ruptura que se serve da estrutura do governo para ampliar-se e ganhar força.

Assim, ele pode fortalecer seu núcleo duro, transformar eleitores em fieis seguidores sem precisar ter entregue nada que um governo normalmente entregaria, sequer a proteção contra a morte violenta produzida por uma pandemia descontrolada. Nunca um presidente falou ao povo, em seu momento de maior tensão, que partilhava abertamente o desejo de romper e ignorar uma institucionalidade que é simplesmente a representação dos clássicos interesses oligárquicos das elites brasileiras.

Infelizmente, que o “povo” em questão era a massa dos que sonham com intervenções militares, que amam torturadores, que abraçam a bandeira nacional para esconder sua história infame de racismos e genocídios, isso era algo que poucos poderiam imaginar. Por outro lado, por mais que certos setores do empresariado nacional simulem desconforto com sua presença, o que realmente conta é que Bolsonaro entrega a eles tudo o que promete, sabe preservar seus ganhos como ninguém, luta por aprofundar a espoliação da classe trabalhadora sem temer o que quer que seja.

Não por outra razão, seu 7 de setembro foi precedido por manifestos de empresários defendendo a “liberdade”: nova senha para o “direito” de intimidação e de ameaça. Enquanto isso, a oposição brasileira acha que ainda estamos no terreno dos embates políticos. Ela prepara-se para eleições, finge sonhar com frentes amplas esquecendo que, desde o fim da ditadura, sempre fomos governados por frentes amplas e vejam onde chegamos. Todos os governos eram alianças “da esquerda à direita”. Não foi por falta de frente ampla que estamos nessa situação. O cálculo simplesmente não é este. A esquerda precisa entender de uma vez por todas a natureza do embate, ouvir aqueles mais dispostos ao confronto, esses que não tiveram medo de ir para a rua hoje, e assumir uma lógica de polarização. Isso implica que ela precisa mobilizar a partir da sua própria noção de ruptura, em alto e bom som. Uma ruptura contra outra. Não há mais nada a salvar ou a preservar nesse país. Ele acabou. Um país cuja data de sua independência é comemorada dessa forma simplesmente acabou. Se for para lutar, que não seja para salvá-lo, mas para criar outro.





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'Estamos diante de um sistema político obsoleto, que promove a perpetuação de oligarquias no poder e facilita os mecanismos de corrupção em todos os níveis', Iara Pietricovsky

Iara Pietricovsky

Para a antropóloga e cientista política existe uma dificuldade inequívoca de nos pensarmos como uma nação justa, democrática e diversa


Em artigo publicado na Folha, Iara Pietricovsky faz uma radiografia do estado atual do Brasil. Leia com atenção, porque vale a pena.
Iara Pietricovsky: Brasil, um país suicida? 
A mentalidade colonial, que se perpetua no Brasil por meio de um Estado patrimonialista, promíscuo e autoritário, escancara uma sociedade com extrema desigualdade de classe, raça, gênero e etnia. Ainda que tenha sido possível experimentar momentos de melhora no período recente, esse passado nos mancha de forma indelével —e, se não for enfrentado, vai continuar ampliando o ciclo vicioso da injustiça social.

Por que digo isso? Vamos aos fatos do Brasil de hoje. Segundo o Relatório Luz, elaborado por ONGs articuladas em torno da Agenda 2030, o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) número 10, que trata da redução da desigualdade dentro dos países e entre eles, caminha para trás. Foi esse mesmo relatório que nos trouxe a triste notícia de que o Brasil retornou ao Mapa da Fome da ONU, do qual saíra em 2014.

Pela primeira vez desde 2010, o Brasil manteve a mesma nota e a mesma posição entre as 188 nações pesquisadas no ranking de desenvolvimento humano das Nações Unidas. Estamos estagnados no 79º lugar.

Em decorrência da emenda constitucional 95, políticas públicas que melhoraram indicadores da saúde e da educação estão sendo desmanteladas. O fim do Mais Médicos, os cortes orçamentários em áreas estratégicas do conhecimento científico, e uma política deliberada de privatização dos sistemas públicos, em especial na educação, são alguns dos exemplos mais recentes.

A desigualdade de renda entre homens e mulheres aumentou nos últimos dois anos. De acordo com dados da Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua Trimestral), as mulheres ganhavam 72% do que recebiam os homens em 2016. Um ano depois, ganhavam 70%. Esse índice segue piorando. Recuou também a equiparação de renda entre negros e brancos —isso é especialmente problemático quando temos a maioria da população de mulheres e negros.

Não por coincidência, as mulheres negras são as que mais pagam impostos proporcionalmente à sua renda no Brasil. Nosso sistema tributário regressivo é um instrumento de manutenção das distâncias sociais e, somado ao corte dos gastos públicos e outras medidas de austeridade fiscal, vem castigando a população mais vulnerável.

Essa desigualdade também se expressa no campo da representação política. Homens brancos são maioria em todos os espaços públicos, em especial no Congresso e no Executivo. Cresce também a violência e a discriminação contra a mulher, principalmente se for negra.

Estamos diante de um sistema político obsoleto, que promove a perpetuação de oligarquias no poder e facilita os mecanismos de corrupção em todos os níveis. A criminalização das ONGs e movimentos sociais, a perseguição à imprensa e aos setores que expressam discordâncias e visões críticas nos levam ao retrocesso democrático rumo a um autoritarismo que namora o fascismo.

As novas gerações já começam a pagar a conta: a mortalidade infantil aumentou, o desemprego assusta e a proposta de reforma da Previdência, em discussão no Congresso, já acaba com o sonho de uma aposentadoria digna. É verdade que existe uma necessidade de reforma, mas passa muito mais por acabar com privilégios e por uma tributação progressiva do 1% mais rico.

O desmantelamento das políticas de proteção ambiental e o retrocesso no combate ao aquecimento do clima também coloca em xeque o futuro das próximas gerações.

A conclusão é que existe uma dificuldade inequívoca de nos pensarmos como uma nação justa, democrática e diversa. O obscurantismo doentio das elites, que se espalha também nos setores alienados, é suicida. Senão, como justificar nosso rumo atual? Aos que acreditam que outro país é possível, o que fazer?

Continuar nossa luta e nossas mobilizações pelo direito a existir em nossa diversidade. Educarmo-nos. Acreditar na ciência e no conhecimento como forma de mudar a realidade em benefício de um mundo melhor e plural, mais bonito, mais ético. E acreditar que existe, sim, uma democracia participativa possível num mundo onde a solidariedade, a igualdade e a liberdade sejam compatíveis e complementares, simplesmente porque não há outra saída —nem outro planeta.

 



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Origem de Bolsonaro, Moro e outros imbecis no poder, por Nilson Lage

Bolsonaro Moro tv velha

A responsabilidade do título é minha. O professor Nilson Lage fez uma postagem no Facebook originalmente sem título, que reproduzo a seguir, sem desnecessárias explicações, porque é autoexplicativo.
De onde vêm Bolsonaro, Moro, esses juízes do tribunal do Sul, os generais tacanhos?
Está na cara, nos sobrenomes e nos preconceitos.

São doentes de vírus da Europa -- fascismo, nazismo, franquismo, salazarismo -- aqui transplantados, e que prosperaram à falta de soros e vacinas. Agarram-se à Opus Dei e à Teologia da Prosperidade; ao império doente, de cujas dores padecem.

Sujeitos brancos, da variedade boçal e impermeável, que sempre olharam, da planície e da beira da praia, com medo e desprezo, nosso povo, nossa cultura; os morros e subúrbios do Rio, as periferias paulistas, o Nordeste; os caboclos, os mulatos, os pobres; o carnaval, o samba, o choro, boi-de-mamão, o são-joão, caprichoso e garantido,

Gente soturna, que cultiva papoulas de ódio, e se embriaga. Passa armada e de carro pelo meio da rua, teme as calçadas e as vielas.

A esses junta-se a malta de marinhos e chatôs, os fernandos e outros mestiços disfarçados com cremes e pó-de-arroz..

Têm a fúria dos hunos, a ambição destrutiva de Pizarro, e Hernán Cortés, tão cruéis e gananciosos quanto eles -- homens que, certamente se envergonhariam se, na velhice, após carreira protegida e honras prestadas, o Estado lhes desse, líquidos, de aposentadoria, cinco mil dólares mensais, livres de impostos.

Senhores da pobreza de espírito.

Fecha o pano.


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