segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Software consegue descobrir quem é homossexual ou não usando apenas fotos e inteligência artificial. Pra quê?


Pesquisa publicada no "Journal of Personality and Social Psychology" pelos cientistas Michal Kosinski e Yilun Wang, da Universidade Stanford, informa que ambos desenvolveram um software que consegue identificar quem é homossexual ou não utilizando para isso cinco fotos do indivíduo, com uma precisão de até 90% entre os homens e 80% entre as mulheres.

Qual a utilidade de uma tranqueira dessas? Por que a sexualidade do outro tem que vir a público independentemente de sua vontade? A sexualidade é uma das facetas (importantíssima, é claro) do comportamento humano, mas ela não diz mais nada sobre a pessoa além disso: Fulano é ou não é.

E daí? Outro dia o cantor Nei Matogrosso, quando questionado sobre sexo, deu uma declaração definitiva, que provocou polêmica: sou um ser humano. O comportamento, a orientação sexual dele diz respeito a ele e com quem mais ele quiser compartilhá-la.

Pois os cientistas conseguiram verba de alguma instituição para fazer um estudo sobre o assunto, usando imagens do aplicativo Tinder e as declarações dos usuários sobre suas orientações sexuais.

Após analisar milhares de fotos em sites de relacionamento, o sistema chegou a detectar quem era homossexual e quem era hétero, ao comparar duas fotos de indivíduos diferentes, com precisão de até 90% para homens e de até 80% em mulheres. Para comparação, o nível de acerto usando apenas o olhar humano fica entre 55% e 60%.
"Confesso que a primeira impressão que tive antes de ler foi de realmente ser um estudo muito perigoso, quase impublicável", diz Marco Antonio Correa Varella, que faz pós-doutorado em genética comportamental no Instituto de Psicologia da USP.
No entanto, Varella ressalta o "cuidado metodológico" da pesquisa e o fato de que o próprio trabalho aponta "para uma vulnerabilidade real da invasão da privacidade, a ser considerada e regulada".
"Para mim, o estudo foi muito bem feito, e os autores pensaram bastante sobre os abusos possíveis", diz Jaroslava Valentova, professora do Instituto de Psicologia da USP. Um dos trabalhos dela é citado pelos cientistas de Stanford por mostrar possíveis diferenças sutis de formato entre os rostos de gays e héteros.
"Nenhum dos resultados é completamente novo", diz. "Já sabemos que indivíduos com diferentes orientações sexuais tendem a ter outras diferenças morfológicas, comportamentais, psicológicas, que geralmente são pequenas, e que a inteligência artificial consegue realizar várias tarefas com maior sucesso do que os humanos. O que pode parecer problemático é a mistura dessas duas linhas."

OK. Conseguiram desvendar que o indivíduo é ou não homossexual. E daí? Para que serve o resultado da pesquisa num mundo ainda homofóbico e violento? Para que interessa saber a orientação sexual de uma pessoa se não estou interessado nela nem ela em mim?

E a lista de senões da pesquisa é imensa:

[Kosinski] diz que também teve dúvidas a respeito da publicação do estudo, mas decidiu que era mais responsável alertar as pessoas sobre a viabilidade da tecnologia e os riscos dela. Afirmou também que não disponibilizará o sistema –até porque ele foi montado com ferramentas disponíveis para qualquer programador.
"É balela", diz Maria Emilia Yamamoto, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. "Certamente haverá acesso e reprodução de forma não autorizada, ou até mesmo a replicação da construção do algoritmo usando os parâmetros citados no artigo."
Embora concorde com o valor científico do estudo, ela defende que ele deveria suscitar discussões mais profundas sobre o papel social da pesquisa e suas implicações no mundo fora dos laboratórios.
Os pesquisadores também destacam que os resultados podem, ainda que de forma involuntária, transmitir uma visão estereotipada da homossexualidade.
Os autores dizem que o computador pôde traçar uma distinção entre gays e héteros porque, de modo geral, as diferenças hormonais produzem homens com feições ligeiramente mais femininas (no caso dos gays) e mulheres com rosto um pouco mais masculinos (no caso de lésbicas).
"Isso pode fazer a gente cair num essencialismo simplista", diz Varella.
Em seu site, Kosinski afirma que será difícil, se não impossível, regular as redes sociais de maneira a evitar que imagens ou vozes postadas sejam analisadas por esse tipo de ferramenta. "A única proteção para os homossexuais é trabalharmos em favor de uma sociedade plural, radicalmente intolerante diante da intolerância", escreve ele.

Então, senhor Kosinski, a pergunta que fica é: Em que seu software vai contribuir para "uma sociedade plural, radicalmente intolerante diante da intolerância"?

As informações e a imagem que ilustra a postagem são de reportagem da Folha, que você acessa aqui, onde vai encontrar mais informações.

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