— Eu não admito vitupérios!!!
Foi assim, cheio de exclamações e com ar aterrorizante, que o chefe encerrou a reunião e saiu batendo a porta com força e mais exclamações ainda.
Todos se entreolharam, preocupados. "Não admitir" todo mundo sabia o que era. Mas, e vitupérios?
Hoje é fácil. É só dar um Google ou recorrer a uma das dezenas de IAs. Mas na época não. O usual era apelar a um dicionário. Só que lá não havia um à mão. Só restava perguntar aos mais antigos, supostamente mais sábios, alfabetizados em época em que a educação era mais rígida, quando se aprendia inclusive latim e grego nas escolas. Mas ninguém sabia exatamente o que seriam os tais vitupérios que não seriam admitidos.
— Coisa boa não é — disse um.
— Acho que é roubalheira — disse outro, apelando à razão, já que não há chefe que admita roubalheira, a não ser chefe de quadrilha.
As especulações espoucavam, num show de polissílabas (mais esta) para tentar explicar a polissílaba da advertência (outra) do chefe.
Foi quando alguém captou o sentido geral e disse, filosofando: "ser uma polissílaba já é preocupante", usando outra polissílaba.
Alguns precisaram de socorro para entender o que era a tal polissílaba que estaria ligada aos vitupérios. Quando souberam do que se tratava, de palavras de mais de quatro sílabas (alguns chegaram a perguntar também o que eram sílabas) as preocupações (outra polissílaba) se avolumaram (mais uma).
— Ser uma polissílaba já é preocupante — repetiu o autor da frase. Doenças são quase sempre polissílabas. E citou inúmeras, como tuberculose, pneumonia, carcinoma, amidalite, apendicite...
— Gente, não vamos esquentar a cabeça, já, já o chefe vai dar um esporro em "alguém" (este "alguém" ele apontou com os olhos enquanto falava) e a gente fica sabendo o que é...
Todos riram. Menos, é claro, o "alguém" do olhar.
— Não vejo graça. Além do mais porque eu sei o que significa.
Deu uma pausa e completou:
— Mas não vou falar.
Não foi um decepção geral porque todos sabiam que ele não sabia, não o levavam mesmo a sério, e seguiram pensando numa solução para o problema. Até que alguém veio com ela:
—Vamos ligar para o programa do Haroldo.
Era o programa de rádio mais famoso da época. Ligaram, sintonizaram. Muitos não acreditavam que o Haroldo fosse dar a resposta, mas ela veio:
— Um ouvinte que não quis se identificar perguntou: Haroldo, o que significa a palavra "vitupério". Consultamos o nosso expert em língua portuguesa, o professor Damásio, e ele nos disse o seguinte...
(Antes da definição do professor Damásio, uma curiosidade: Além de "expert" em língua portuguesa, ele também é a astróloga Laura Sorinaia, o Professor Ladislau, especialista em previsão do tempo, e a Dra Dora Amarante, consultora sentimental).
— Vitupério significa uma ofensa grave, um insulto ou uma afronta que diminui a honra de alguém, sendo também usado para descrever uma vergonha pública ou uma repreensão muito dura.
Todos se tranquilizaram (outra polissílaba), porque o conhecimento é uma dádiva. Mas a tranquilidade não durou muito.
O chefe abriu a porta novamente, ainda furibundo (outra), como se houvesse esquecido algo, e disse, aos gritos:
— E nem conspurcação!! —e voltou a bater a porta com mais exclamações ainda.
Todos se entreolharam (outra).
—Alguém sabe?
Ia começar tudo de novo. Não é de hoje a dificuldade de comunicação (e não apenas dela) entre chefes e subordinados.
https://whatsapp.com/channel/0029VbBsQ5SLI8YSFXsdg92o
Apoie


Nenhum comentário:
Postar um comentário
Gostou? Comente. Encontrou algum erro? Aponte.
E considere apoiar o blog, um dos poucos sem popups de anúncios, que vive apenas do trabalho do blogueiro e da contribuição dos leitores.
Colabore via PIX pela chave: blogdomello@gmail.com
Obrigado.