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Cônsul da China no Rio critica EUA e UK: Violadores de direitos humanos, ignorantes e preconceituosos em relação à China


Artigo de Li Yang, Cônsul-Geral da China no Rio de Janeiro, critica Estados Unidos e Reino Unido por seus ataques à política chinesa em Hong Kong.

O título diz bem do espírito altivo com que a China se posta diante dos dois países: "Como os violadores de direitos humanos têm qualificação para acusar a situação dos direitos humanos na China?".

A seguir, publico o artigo na íntegra seguido de um documentário de 25' Lakota: Os Últimos índios Americanos, da rede russa RT.
Recentemente, os EUA, o Reino Unido e alguns outros países cheios de ignorância e preconceito em relação à China, vêm aproveitando-se das questões de Hong Kong e da Covid-19 para acusar a situação dos direitos humanos na China. Sendo os mais brutais violadores de direitos humanos na história, aqueles países não possuem nenhuma qualificação para falar dos direitos humanos da China.

A não muito longa história dos EUA desde a sua fundação começou com a pilhagem, expulsão e matança dos índios. Segundo as estatísticas, após séculos de massacres cruéis, a população dos índios nativos no território norte-americano caiu de 5 milhões em 1492 para 250.000 hoje em dia! Como disse o ex-presidente Jimmy Carter, os EUA são o país mais beligerante do mundo.

Nos seus mais de 240 anos de história, apenas 16 deles foram vividos sem guerra. A maioria dessas guerras foi iniciada pelos EUA. Nos últimos anos, nas guerras e operações militares lançadas pelos EUA contra o Afeganistão, a Iugoslávia, o Iraque, a Líbia e a Síria, um grande número de civis morreu ou foi ferido. Somente a Guerra no Iraque em 2003 matou 655.000 iraquianos.

Os direitos humanos estadunidenses são constantemente ridicularizados pelas ocorrências frequentes de tiroteio. Segundo as estatísticas oficiais dos EUA, 100.000 pessoas são vítimas de armas de fogo no país a cada ano, dentre as quais 30.000 são levadas a óbito. No último Dia da Independência, ocorreram nos EUA centenas de casos de tiroteios, matando mais de 120 pessoas.

Existe séria desigualdade e discriminação racial nos EUA. Nos últimos anos, mais de 50% dos mortos pela polícia norte-americana eram afro-americanos ou hispânicos. Apesar de representarem 37% da população total, os americanos de cor correspondem a 67% dos encarcerados. O assassinato do afro-americano George Floyd pela polícia desencadeou novos protestos em larga escala. Todos estes fatos expõem manifestamente a discriminação racial sistêmica nos EUA, na qual as minorias “não conseguem respirar”.

De acordo com as estatísticas, nos EUA, mais de 567.000 pessoas estavam desabrigadas em 2019. Até 2018, a taxa da população sem proteção do sistema de saúde subiu para 13,7% e cerca de 7 milhões de pessoas perderam o plano de saúde. Os EUA são o único país desenvolvido com milhões de pessoas passando fome. No mesmo ano de 2018, havia 39,7 milhões de pessoas pobres no país, incluindo 12,8 milhões de crianças. O tratamento de imigrantes tornou-se cada vez mais desumano. Entre julho de 2017 e o final de 2018, o Serviço de Imigração e Naturalização dos EUA forçou a separação de mais de 5.400 crianças dos seus pais na fronteira.

O disfarce dos direitos humanos dos Estados Unidos foi desmascarado pelo seu catastrófico desempenho no combate à Covid-19. Os políticos norte-americanos colocam considerações econômicas, interesses partidários e políticas eleitorais acima da segurança e saúde do seu povo. Até agora, mais de 3,1 milhões de casos foram confirmados e 130.000 pessoas morreram de COVID-19, o que corresponde a, aproximadamente, 387 mortes por milhão de pessoas, respectivamente 36, 27 e 129 vezes os números da China. Além disso, acontecem lá tragédias tais como a recusa de tratamento médico a muitos idosos infectados e a muitas pessoas sem cobertura de plano de saúde! Os EUA até exportam o novo coronavírus através da repatriação de imigrantes ilegais!

O Reino Unido é outro defensor hipócrita dos direitos humanos. Quantos povos indígenas das Américas, Austrália, África e Ásia foram massacrados pelos britânicos durante toda a era colonial? Receio que eles mesmos nem consigam contar! Foi o Reino Unido que iniciou em meados do século XVI o criminoso tráfego de escravos que durou por séculos. Hoje é difícil calcular quantos africanos foram vendidos como escravos para o mundo inteiro e quantos morreram a bordo de navios negreiros!

Desde a segunda metade do século XIX, foi o Reino Unido que lançou duas guerras do ópio contra a China, ocupou Hong Kong e forçou o comércio de ópio na China, envenenando o povo chinês. Em 1842, depois de conquistar a Cidade de Zhenjiang, as forças armadas britânicas massacraram sangrentamente os cidadãos locais! Durante os 99 anos da ocupação britânica de Hong Kong, em vez de serem tratados igualmente, os residentes de Hong Kong sofriam insultos e opressão dos ocupantes! Em 1900, os exércitos invasores de oito países, incluindo o Reino Unido e os EUA, cometeram assassinatos em massa em Pequim e em outros lugares na China!

O Comitê das Nações Unidas para a Eliminação da Discriminação Racial relatou um aumento significativo na discriminação racial e nos crimes racistas no Reino Unido nos últimos anos, com uma discriminação racial sistêmica altamente visível contra pessoas de descendência africana e asiática. Em 2015, o número de pessoas morando nas ruas do Reino Unido atingiu a marca de 7.500, e tem aumentado nos últimos anos. De acordo com o relatório de uma missão de investigação da ONU realizada por especialistas em direitos humanos no final de 2018, um quinto da população do Reino Unido, ou seja, 14 milhões de pessoas, vive na pobreza.

No atual combate contra a Covid-19, o desempenho britânico não foi muito impressionante. Com políticas de saúde pouco planejadas, os números de casos de infecção e mortes confirmados são assustadoramente altos. Não é capaz de proteger efetivamente a segurança da vida e a saúde do seu povo.

Os países como os EUA e o Reino Unido realmente se importam com os direitos humanos na China? Absolutamente não. Como é que países que não respeitam os direitos humanos dos seus próprios cidadãos irão preocupar-se verdadeiramente com os de outros? Eles estão fazendo nada mais que procurar pretextos para alcançar os seus objetivos políticos ocultos.

Eles querem difamar a imagem chinesa para transferir conflitos domésticos. Houve um forte contraste entre a boa governança na China e o “caos” em seus países. Os políticos destes países não têm coragem e nem honestidade para aceitar este fato, sem mencionar a falta de vontade ou capacidade para resolver os próprios problemas. A única habilidade deles é fazer do outro um bode expiatório. Mas eles esquecem de uma coisa: os seus países não fazem parte da China e seus negócios não estão sob jurisdição chinesa!

Eles querem instigar o povo chinês contra o Partido Comunista da China, a fim de produzir caos no país. Mas o que eles não sabem é que o povo chinês está mais feliz e mais unido do que nunca. A China alcançará este ano a meta de erradicação da pobreza, e já criou o sistema nacional de saúde que cobre toda a população. No combate à Covid-19, todos os pacientes, desde recém-nascidos a idosos, sendo o mais velho com 108 anos, receberam tratamentos adequados na China. O número de infectados e mortes confirmados é muito mais baixo do que nos EUA e no Reino Unido. Indiscutivelmente, como o Partido Comunista da China acredita e sempre coloca os interesses da população acima de tudo, o povo chinês amará, confiará e apoiará esse grande partido político ainda mais a cada dia que passa.

Eles querem instigar e apoiar as forças separatistas anti-China em Hong Kong, a fim de tornar Hong Kong uma cabeça-de-ponte para uma “revolução colorida” contra a China. É uma ilusão total deles. A Lei de Segurança Nacional de Hong Kong (LSNHK) é aplicada para combater um número muito restrito de criminosos que prejudicam gravemente a segurança nacional, bem como para proteger os direitos e liberdades legítimos dos residentes de Hong Kong, das empresas estrangeiras e expatriados que lá vivem e observam as leis locais. A promulgação e a implementação desta lei foram bem-vindas por todos dentro e fora da China, enquanto as forças anti-China que causavam caos em Hong Kong entraram imediatamente em colapso com medo das consequências em afrontar a LSNHK. Hong Kong é Hong Kong da China, e a ninguém é permitido ter qualquer ilusão ou tentativa irrealista sobre Hong Kong!




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Ao escrever sobre herança maldita do franquismo na Espanha, jornalista parece falar da ditadura brasileira


Grito de guerra dos fascistas chefiados por Franco.


Olga Rodríguez é uma jornalista especializada em informação internacional. Depois de cobrir as revoluções árabes em 2011, acaba de publicar o livro "Yo muero hoy", Las revueltas en el mundo árabe" (Debate).

Em sua coluna no espanhol El Diario do dia 24 último, Rodríguez escreveu sobre os problemas que ainda hoje atormentam a vida espanhola, herança do franquismo.

Vou selecionar alguns trechos (com alguns comentários meus entre chaves e destaques em negrito) para mostrar que em grande parte esses problemas vividos na Espanha são iguaizinhos aos nossos com nossa herança maldita da ditadura.

Cuando, al hablar de los crímenes del franquismo [da ditadura brasileira - BdoM], se dice que aquello fue una guerra -”y en una guerra ya se sabe...”-, se está contando tan solo una pequeña parte de la historia más reciente de nuestro país. Cuando se recurre a la equidistancia con el argumento de que “en ambos bandos se cometieron atrocidades” se oculta que la guerra civil tuvo un claro responsable que dio un golpe de Estado contra un gobierno democrático y que impulsó un plan sistemático destinado a acabar con un grupo ideológico o político. 
 


 (...) Luego vino la Transición, construida sobre el olvido de nuestros desaparecidos, de los muertos, de los represaliados, de los encarcelados, de los torturados. Un pueblo que da la espalda a su historia es un pueblo indefenso. “Una sociedad sin memoria no puede crear un civismo sano”, ha dicho en alguna ocasión el poeta Juan Gelman, que sufrió durante la dictadura argentina el desgarro que provoca el fascismo.



La impunidad del franquismo ha continuado hasta nuestros días y sobre ella se ha construido esta maltrecha democracia, que sigue excluyendo de los libros de texto de escuelas, institutos y universidades buena parte de los crímenes de la dictadura. Solo quienes eligen dentro de la carrera de Historia la especialización en esa época abordan el estudio de lo ocurrido. Todo un símbolo.



No hay en el empeño por rescatar la memoria ningún deseo de revancha, sino una reivindicación de justicia y una defensa de los derechos humanos, imprescindible para evitar que la historia se repita. Esa es una de las finalidades de la justicia: tener carácter ejemplarizante.



Mientras los crímenes franquistas [da ditadura brasileira - BdoM] continúen impunes se estará transmitiendo un mensaje enormemente peligroso y dañino para todos: que los regímenes totalitarios pueden campar a sus anchas, matar, cometer genocidios o crímenes de lesa humanidad e irse de rositas. Una premisa tan sumamente grave es capaz de extenderse por todos los recovecos de una sociedad, como un virus invasivo. Y de hecho este país se caracteriza por una cultura de la impunidad que facilita la corrupción, el enchufismo, la injusticia. 



Existen los mecanismos legales necesarios para abordar los crímenes del franquismo. Lo que falta es voluntad. Como me decía recientemente Carlos Slepoy, uno de los abogados impulsores de la querella argentina, “un juez español que se atreviera podría establecer que la Ley de Amnistía de 1977 es inaplicable según el derecho internacional. No hay obstáculo judicial. El obstáculo es absolutamente político.” Además, estamos hablando de crímenes que nunca prescriben, por mucho que la Fiscalía española haya dicho lo contrario.[Fonte, onde se encontra a íntegra do artigo, que recomendo]
Brasil e Espanha devem seguir o caminho da Argentina, que passa ainda hoje sua história a limpo, levando aos tribunais assassinos e torturadores, para que ela nunca mais se repita. Que eles recebam um julgamento justo, com amplo direito a defesa, o que nunca permitiram enquanto estiveram no poder.


Madame Flaubert, de Antonio Mello

Pessoas portadoras de deficiência. Inclusive de atenção

Conceição Oliveira é uma historiadora premiada com dois Jabutis. Além disso, é uma ativista dos direitos humanos, que divulga em seus blogs e no twitter (onde é ativíssima) as lutas e reivindicações de todos os que lutam por um mundo mais justo.

Mas estou escrevendo para recomendar a você a leitura de uma postagem no blog dela, onde fala do irmão cadeirante e do drama que vivencia toda pessoa portadora de deficiência (e a família), num país que não oferece quase nenhuma oportunidade, especialmente aos mais pobres.

É um depoimento que você não deve perder. Clique aqui e leia.

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Fazer gracinha com tortura é coisa de Agripino, Bolsonaro e Estadão

Não me canso de repetir aqui: a tortura é um crime hediondo, uma ignomínia. Ainda mais quando praticada por agente do Estado, como ocorreu durante a ditadura militar. E como continua a ocorrer nas delegacias de polícia pelo país afora.

O pior é que ainda há gente como o deputado Bolsonaro e o senador Agripino, que pensam em fazer gracinha com episódios de tortura, e quando um jornal tradicional, como o Estadão, publica a carta de um leitor também nesse sentido.

Posto diante da torpeza de publicar a tal gracinha, o editor da seção de cartas do jornalão saiu-se com a conversa mole de que estava defendendo a liberdade de expressão...

O Rovai, do Blog do Rovai, publicou um artigo sobre o tema no Observatório da Imprensa, que merece a sua leitura.

Leia e comente.

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Confissões de um torturador: - Sim. Todos os depoimentos de presos que me acusam de tortura são verdadeiros.

Entrevista feita em 9 de dezembro de 1998 com Marcelo Paixão de Araújo, que, em 1968, servia como tenente no 12º Regimento de Infantaria do Exército em Belo Horizonte, um dos três centros mais conhecidos de tortura da capital mineira durante a ditadura militar. Ali, permaneceu até 1971.

Revista Durante a ditadura, em depoimentos na Justiça Militar, 22 presos políticos acusam o senhor de tortura. É verdade?
Araújo
— Quem lhe disse isso?

Revista Vi nos processos na Justiça Militar. E, pela quantidade de presos que o citaram, o senhor é o agente da repressão que mais praticou torturas. É verdade?
Araújo
— Sim. Todos os depoimentos de presos que me acusam de tortura são verdadeiros.

Revista O senhor fez isso cumprindo ordens ou achava que deveria fazê-lo?
Araújo
— Eu poderia alegar questões de consciência e não participar. Fiz porque achava que era necessário. É evidente que eu cumpria ordens. Mas aceitei as ordens. Não quero passar a idéia de que era um bitolado. Recebi ordens, diretrizes, mas eu estava pronto para aceitá-las e cumpri-las. Não pense que eu fui forçado ou envolvido. Nada disso. Se deixássemos VPR, Polop (organizações terroristas) ou o que fosse tomar o poder ou entregá-lo a alguém, quem se aproveitaria disso seriam os comunistas. Não queríamos que o Brasil virasse o Chile de Salvador Allende. Nessa época, eu tinha 21 anos, mas não era nenhum menino ingênuo (risos). O pau comia mesmo. Quem falar que não havia tortura é um idiota.

Revista Como o senhor aprendeu a torturar?
Araújo
— Vendo.

Revista O que o senhor fazia?
Araújo
— A primeira coisa era jogar o sujeito no meio de uma sala, tirar a roupa dele e começar a gritar para ele entregar o ponto (lugar marcado para encontros), os militantes do grupo. Era o primeiro estágio. Se ele resistisse, tinha um segundo estágio, que era, vamos dizer assim, mais porrada. Um dava tapa na cara. Outro, soco na boca do estômago. Um terceiro, soco no rim. Tudo para ver se ele falava. Se não falava, tinha dois caminhos. Dependia muito de quem aplicava a tortura. Eu gostava muito de aplicar a palmatória. É muito doloroso, mas faz o sujeito falar. Eu era muito bom na palmatória.

Revista Como funciona a palmatória?
Araújo
Você manda o sujeito abrir a mão. O pior é que, de tão desmoralizado, ele abre. Aí se aplicam dez, quinze bolos na mão dele com força. A mão fica roxa. Ele fala. A etapa seguinte era o famoso telefone das Forças Armadas. Tinha gente que dizia que no telefone vinha inscrito US Army (indicando que era produto das Forças Armadas americanas). Balela. Era 100% brasileiro. O método foi muito usado nos Estados Unidos e na Inglaterra, mas o nosso equipamento era brasileiro.

Revista E o que é o telefone?
Araújo
— É uma corrente de baixa amperagem e alta voltagem.

Revista De quanto?
Araújo
— Posso pegar o manual para informar com certeza. Mas não tem perigo de fazer mal. Eu gostava muito de ligar nas duas pontas dos dedos. Pode ligar numa mão e na orelha, mas sempre do mesmo lado do corpo. O sujeito fica arrasado. O que não se pode fazer é deixar a corrente passar pelo coração. Aí mata.

Revista Qual era o estágio seguinte quando o preso não falava?
Araújo
— O último estágio em que cheguei foi o pau-de-arara com choque. Isso era para o queixo-duro, o cara que não abria nas etapas anteriores. Mas pau-de-arara é um negócio meio complicado. No Rio e em São Paulo gostavam mais de usar o pau-de-arara do que em Minas Gerais. Mas a gente usava, sim. O pau-de-arara não é vantagem. Primeiro, porque deixa marca. Depois, porque é trabalhoso. Tem de montar a estrutura. Em terceiro, é necessário tomar conta do indivíduo porque ele pode passar mal. Também tinha o afogamento. Você mete o preso dentro da água e tira. Quando ele vai respirar, coloca dentro de novo, e vai por aí afora. É como um caldo, como se faz na piscina. Era eficiente. Mas eu não gostava. Achava que o risco era muito alto. Afogamento não era a minha praia (risos). A geladeira, uma câmara fria em que se coloca o preso, não funcionava em Belo Horizonte. Era muito caro. O que tinha era o trivial caseiro. O menu mineiro.

Revista O que mais tinha no menu mineiro?
Araújo
— A dança da lata eu praticava muito.

Revista Como era?
Araújo
— Eu pegava duas latinhas de ervilha e abria. Depois, colocava o cara de pé, em cima.

Revista Sangrava?
Araújo
— Não. Ele falava antes disso (gargalhadas). Mas quem era mais leve agüentava mais tempo.

Revista E quem não tinha o que dizer?
Araújo
— Ia para a lata igual. Mas é muito fácil identificar quem tinha e quem não tinha o que falar.

Revista Como?
Araújo
— Militante é diferente. Jornalista é diferente de militar, que é diferente de empresário, que é diferente de militante. Ele se deixa trair por uma série de coisas. O linguajar, para começar, é diferente. Então, inocente só era torturado quando o agente era muito cru, sem conhecimento algum da práxis marxista, ou quando era um sádico. É muito fácil identificar uma pessoa que não é de esquerda. Vou dar um exemplo. Há algum tempo fui comprar dólares no Banespa, no câmbio turismo. Como até hoje tenho minha carteira militar, apresentei-a no lugar da identidade. O atendente viu a carteira, olhou para mim e perguntou:

— O senhor serviu no colégio militar?
— Tive uma época lá. Por quê? Você foi aluno lá?
— Não.
— Você foi soldado?
— Não.
— Escuta, eu te prendi?
— Não foi bem assim. Fui preso e o senhor foi o único que acreditou em mim. Apanhei com palmatória antes de o senhor chegar e me liberar.
— Sorte, hein? Já pensou se fosse o contrário? (risos).

Revista O senhor já reencontrou alguma pessoa que torturou?
Araújo
— Sim. Eventualmente, eu encontro ex-presos meus, inclusive os que apanharam. E o relacionamento não é muito ruim, não. Não é aquele negócio de dar beijinhos e abraços. Mas é um relacionamento de respeito. Há pouco tempo, aqui em Belo Horizonte, encontrei o Lamartine Sacramento Filho, que é professor em uma faculdade local. Segurei ele no ombro e disse: 'Você não me conhece, não?' Ele levou um susto. Aí eu disse: 'Você tá bom?' Ele disse que sim e não quis mais conversa. Mas também não passa batido, não (risos). Não deixo passar batido (sério).

Revista Por quê?
Araújo
— É o meu esquema. Não deixo passar batido. Não vai passar batido. Não passa batido. Vou lá, coloco a mão no ombro dele e digo: Não me esqueci de você, não. Você lembra de mim? Estamos aí. A vida continua.

Revista Quantas pessoas o senhor já torturou?
Araújo
— Não tenho idéia. Não sou igual a matador que faz talho na coronha do revólver para cada um que mata. Mas você quer um número aproximado?

Revista Sim.
Araújo
— Uns trinta.

Revista O senhor matou alguém em sessões de tortura?
Araújo
— Não. Já atirei, mas não matei.

Revista Mas morreu gente onde o senhor servia.
Araújo
— Pouca gente. O João Lucas Alves, que era um ex-sargento da FAB, foi um deles. Ele morreu na tortura.

Revista O senhor participou?
Araújo
— Não. Isso foi alguns dias antes de eu ser convocado. Depois que eu saí, se morreu alguém eu não sei.

Revista O que é besteira e o que é verdade no que já se escreveu sobre tortura no Brasil?
Araújo
— Há algumas pequenas inverdades. Mas a maioria dos fatos é correta. Há pouca besteira e muita verdade. As pessoas que participaram desse período até hoje não falaram abertamente. As altas autoridades do país foram as primeiras a tirar o seu da reta. Morri de rir ao ler o livro sobre o Geisel (refere-se ao livro que reúne as memórias do ex-presidente Ernesto Geisel, publicado no ano passado pela Fundação Getúlio Vargas). Segundo o depoimento de Geisel, ele não sabia de nada, mandava apurar tudo, era um inocente. É uma gracinha isso tudo. Todos os agentes do governo que escreveram sobre a época do regime militar foram muito comedidos. Farisaicos, até. Não sabiam de nada, eram santos, achavam a tortura um absurdo. Quem assinou o AI-5? Não fui eu. Ao suspender garantias constitucionais, permitiu-se tudo o que aconteceu nos porões. É claro que havia diversas pessoas envolvidas nisso. Mas eu não vou citar o nome de ninguém. Falo apenas de mim.

Bom, pra mim, chega de tortura. Confesso que me enoja e entristece saber que um sujeito como esse está solto e impune. A tortura é um crime hediondo, uma ignomínia, ainda mais quando aplicada por um agente do Estado, que existe, teoricamente, para nos proteger.

Mas, quem quiser prosseguir lendo a entrevista, depoimentos de presos que foram torturados por Paixão, e também os de outros torturadores, clique aqui e leia a reportagem de Alexandre Oltramari para a Veja, na época em que ainda valia a pena ler a revista.

Leia também:

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» Músicas que os americanos usam para torturar prisioneiros

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Zuenir Ventura e Henry Sobel

Aproveitando o fato de que estamos em plena comemoração da Semana Santa cristã, publico este trecho do artigo de hoje do jornalista Zuenir Ventura, de O Globo, sobre o rabino Henry Sobel, que vem sendo achincalhado por muitos.

Não sou judeu, mas nesse caso de Sobel, sim, sou judeu – se é que me entendem.

Há 35 anos à frente da Congregação Israelita Paulista, Sobel teve algumas atitudes cívicas cujas dimensões transcenderam a comunidade judaica. Ao desobedecer os militares e se recusar corajosamente a sepultar como suicida o jornalista Vladimir Herzog, torturado e assassinado nas dependências do II Exército em 1975, ele ajudou a apressar o fim da ditadura. Pela tradição judaica, o suicídio é crime, e quem o comete deve ser enterrado fora do cemitério.

Pois ele não só tomou a decisão de sepultá-lo numa área nobre do cemitério israelita, como presidiu a solenidade. A denúncia era indireta, mas o país entendeu o que ele queria dizer com o gesto - que a versão oficial era mentirosa, que o governo torturava e matava em seus quartéis.

Sete dias depois, uma cerimônia ecumênica em memória de Vlado, celebrada conjuntamente pelo cardeal de São Paulo, D. Paulo Evaristo Arns, por D. Hélder Câmara, pelo pastor James Wright e por Henry Sobel, transformou-se num poderoso protesto contra a ditadura. A partir de então, o rabino promoveu importantes ações que aproximaram as religiões, incluindo a muçulmana. A democracia e o ecumenismo muito devem a ele.

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