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A 'guerra às drogas' é uma guerra aos pobres e pretos para confiná-los em guetos criminalizados

A justificativa para a guerra à drogas, de que seria um embate entre o Bem (as polícias —as PMs, meodels!) e o Mal (maconha, cocaína, heroína, ecstasy etc) em defesa da juventude, principalmente, é simplesmente hipócrita. 
 
Se não houvesse nenhuma dessas "drogas do Mal", o jovem poderia simplesmente (como o faz) encher a cara no bar da esquina ou consumir o verdadeiro caminhão de "drogas do Bem", as legais, que se consegue com receitas de tarja preta ou em farmácias, que existem em todos os bairros sem serem importunadas pela polícia, que cobram apenas um sobrepreço por elas ao não exigirem receita. 

O humorista Gregorio Duvivier expõe com ironia e coragem (afinal ele se expõe a uma dura só para que digam que está errado) a hipocrisia de que falei, em artigo que peguei no perfil da Rede Canábica no Facebook (esta droga muito mais nefasta e também liberada para o consumo).
 
A verdade é que o principal objetivo da guerra às drogas é o controle social dos pobres e pretos, que são encurralados e isolados em guetos, como pessoas perigosas, a quem o estado "tem o direito" de negar assistência, escolas, lazer, cultura, emprego.
 
O texto do Duvivier: 

"Na luta pela descriminalização, postei uma selfie com um baseado apagado. Assim que postei, os amigos ficaram com medo que eu tomasse processos por apologia ou que eu tivesse a casa invadida pela polícia à procura do flagrante (infelizmente, só iam encontrar uma ponta) –afinal de contas, confessei um crime. Nada. Nem polícia, nem processo. O único esculacho que tomei foi em relação ao beque mal apertado, qualificado como pastel. "Faltou só o caldo de cana", disseram.
A verdade é que a proibição nunca chegou aqui em casa. Por ser homem, branco, cisgênero e de classe média alta, a polícia sempre me tratou com o maior respeito. Quer dizer, já tomei uma bela tapa de um sargento (A tapa no feminino difere DO tapa pela intensidade), mas quem mora no Rio sabe que uma tapa é um carinho quando se trata da PMERJ. Fosse eu negro, pobre ou travesti, teria conhecido o famoso esculacho –um mimo da PM que muitas vezes acaba em morte. A guerra às drogas é uma guerra aos pobres –e a prova disso é que não conheço nenhum rico preso por tráfico.
Sendo assim: por que postar uma selfie pedindo a descriminalização se posso fumar um prensado tranquilo? Ou ainda: por que lutar por educação pública se posso pagar por educação privada? Ou: por que lutar por saúde pública se tenho plano de saúde? Por que lutar pelo aborto se não posso engravidar? Contra o racismo se eu sou branco? Contra a redução se eu sou maior de idade? Por que pedir o casamento gay se eu não quero casar gay?
Deleuze diz que o que difere a direita da esquerda é a forma que cada uma pensa o endereço postal. A direita diz: Gilles Deleuze. 12. Rue de Bizerte. Paris. França. Mundo. A esquerda diz: Mundo. França. Paris. Rue de Bizerte. 12. Gilles Deleuze. Ser de esquerda é perceber que os problemas do mundo vêm antes dos problemas do bairro que vêm antes dos meus problemas pessoais. Ali, Simba, tudo o que seus olhos podem ver, tudo isso é problema seu.
O Brasil tem 140 mil encarcerados por tráfico –negros e pobres, em sua imensa maioria. Sei que não vou ser preso por uma selfie, nem pelo flagrante e, na real, sei que não vou preso nem se eu for dono de um helicóptero com meia tonelada de pasta base de cocaína (ou talvez, nesse caso, precise ser deputado). Postar uma foto com baseado é problematizar: por que não vou preso? Cadê a polícia aqui na porta? Cadê meu esculacho?
Quando você sair do armário, vai ver que a maconha já está descriminalizada há muito tempo. O que continua criminalizada é a pobreza."

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Fotos de O Globo contradizem Gilmar Mendes

Na sabatina da Folha, o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, afirmou que não sabia de alguma desobediência à súmula das algemas. E que se orgulha muito dela. Como, na mesma sabatina, ele disse que acorda cedo, lê e responde a e-mails, e lê jornais, fica uma pergunta: O ministro não lê O Globo?

Pois na página 11 da edição de hoje do jornalão dos Marinho (com quem Gilmar teria almoçado ontem) temos estas duas fotos a seguir, que mostram claramente que a súmula das algemas só está valendo para os de sempre, os ricos. Os pobres continuam tratados assim, algemados, cabeça para baixo, e até com a botina do milico sobre a cabeça, como na foto maior.

PMs do Rio algemam e pisam na cabeça de presos

As fotos são de André Teixeira e Domingos Peixoto

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Ninguém ama a classe média

Os ricos não precisam de programas de transferência de renda. Ela é feita automaticamente.

Os ricos não precisam de rede de proteção. Ela também é feita automaticamente. A única proteção de que precisam lhes é assegurada por uma segurança bem treinada, fortemente armada. Os custos são pendurados na empresa e abatidos do imposto de renda.

Os pobres também contam com programas de transferência de renda. Especialmente no governo Lula, eles estão sendo atendidos como nunca.

Há programas governamentais – o Bolsa Família é o mais conhecido deles – atendendo atualmente a milhões e milhões de famílias.

Também especialmente agora com o governo Lula, há redes de proteção social para proteger os mais pobres.

Mas a ajuda não é só federal. Há programas municipais e estaduais direcionados a eles. Sem contar as infindáveis ONGs que oferecem oficinas e cursos os mais diversos – informática, línguas, esportes, circo, teatro – além de bolsas de estudo.

Ontem, li na revista de O Globo que há até uma escolinha de golfe – é, golfe mesmo, você não leu errado, aquele esporte exclusivíssimo e caríssimo – para crianças pobres.

Enquanto isso, ninguém ama a classe média. Ela paga impostos diretos e indiretos e ainda tem que pagar por todos os serviços de que necessita. Mesmo os que, em tese, lhes estão assegurados pela Constituição.

Escola particular, cursos de línguas, informática, planos de saúde. Tudo isso é pago por ela. Uniforme e material escolar também. Se quiser uma aula de futebol, de dança ou teatro, idem. Golfe, nem pensar. Não se tem notícia de uma única ONG sequer em apoio à classe média.

Por isso a classe média está tão ressentida. Nas cartas dos leitores dos jornais, nos comentários e e-mails que os blogueiros recebemos, esse pote até aqui de mágoa é despejado sem dó nem piedade.

A fúria da classe média se dirige ao(s) governo(s) e agora também aos mais pobres. Assim como em países da Europa crescem discriminação, preconceito e ressentimento contra os estrangeiros, a classe média brasileira está começando a bater seus tambores contra os mais pobres, vistos como folgados, vagabundos, ou mesmo marginais sem recuperação.

Mas é apenas ressentimento. Porque ninguém ama a classe média. Ela só é chamada para dividir a conta. Como os pobres não podem pagar. Como os ricos não querem pagar (e se utilizam de mil artifícios contábeis para isso), o grosso da conta vem morder o bolso da classe média.

Que tal os governos pensarem num pacote de bondades também para ela? Ou será que a classe média vai precisar ficar pobre para ser atendida?