sábado, 23 de abril de 2016

Bolsonaro e Jean Wyllys se encontram na reportagem 'Sou militar e sou gay'




Há 20 anos, a falecida revista Manchete publicava em sua capa reproduzida aqui chamada para a reportagem de Marques Casara sobre homossexualidade nas Forças Armadas, um tema que parece apavorar alguns militares, mesmo quando eles despem a farda e põem o terno de deputado.

Mas a realidade é teimosa, insiste, e o ex-militar Bolsonaro tem que conviver na Câmara com o deputado Jean Wyllys, assumidamente gay, o que parece lhe trazer recordações dos tempos da caverna (ops), caserna... Curiosamente, conta a história de um militar conhecido por sua implacável perseguição contra militares “suspeitos” de serem gays, que foi preso após ser flagrado fazendo sexo oral em outro homem...

Leia a reportagem do Marques Casara:

Sou militar e sou gay

Em outubro de 1996, oficiais do Exército a bordo de um jipe militar foram me buscar no prédio da Bloch Editores, no bairro da Glória, no Rio, onde funcionava a redação da revista Manchete. Eu estava em apuros por causa de uma matéria que levava o título: “Sou militar e sou gay”. Tratava-se de uma extensa apuração sobre a perseguição do Exército contra militares homossexuais.
A matéria fora inspirada em uma curiosa ocorrência: a prisão do comandante do tradicional Regimento Sampaio de Infantaria, Tenente-Coronel Sérgio Carlos Zani Maia, conhecido por sua implacável perseguição contra militares “suspeitos” de serem gays.
O coronel não fora preso por causa de sua perseguição aos colegas de farda. Foi preso após ser flagrado fazendo sexo oral em outro homem, dentro do carro, em uma rua escura atrás dos trilhos de trem que cortam o bairro do Méier.

Pobre coronel. Pobre Exército Brasileiro. Acabaram com a vida do cara. Maia foi fuzilado em vida, afastado do comando do regimento, execrado, humilhado, afastado da atividade de instrutor da Escola de Comando e Estado Maior do Exército. Alguns meses depois de seu afastamento, foi espancado quase até à morte por “desconhecidos”. A autoria do crime nunca foi identificada.
Uma tragédia, quando era para ser o contrário. Deveria receber uma medalha um coronel que decide, por vontade própria, fazer sexo oral em quem quer que seja. É bom para o a Pátria que um coronel possa chupar quem bem entender, sempre que tiver vontade. A livre orientação sexual é um direito humano e deveria ser respeitada pelo comando do Exército.
Mas infelizmente não foi isso o que aconteceu. O coronel pagou caro pelo seu “crime” e o Exército perdeu uma grande oportunidade de liberar o sexo entre seus homens, enfrentar a pavorosa homofobia que grassa em suas fileiras.

Quando servi em um batalhão de engenharia, tive colegas expulsos pelo “crime” de amar outro homem.  “Expulsão a bem do serviço público”. Sensacional. A bem do serviço público.
Quando estive no Exército, ao mesmo tempo em que via toda a perseguição contra amigos gays, eu e meus colegas de farda éramos sistematicamente assediados por oficiais do próprio batalhão. Um deles era o tenente “kiko”, que adorava levar recrutas para o seu apartamento, dar banho, passar creminho e fazer sexo. De noite era uma lady, uma dama. De dia, um implacável perseguidor de homossexuais.
Esse tipo de comportamento é muito comum no Exército, muito comum. Por isso, o ex-militar Bolsonaro não é exceção. O que mais tem no Exército é gente como ele. Comportamento típico de quem não aceita a própria condição. Bolsonaro é tão homofóbico, mas tão homofóbico, que usa isso para negar a si mesmo. Uma negação comum, corriqueira e típica nas fileiras do Exército.
Tratou disso a reportagem que levou o Exército mandar me buscar na Bloch: a implacável perseguição do Exército contra militares homossexuais, o assédio, a violência moral, o crime de homofobia que ainda hoje infesta os quartéis e que transforma militares e ex-militares, como Jair Bolsonaro, em terríveis algozes de pessoas que são tolhidas do seu direito de ser o que são.
O diretor de redação na época da Manchete, Tão Gomes Pinto, foi à recepção receber os militares que tinham ido me buscar.
- Se é para levar alguém, levem a mim mesmo. Ou prendam a redação inteira. O repórter não sai da redação com vocês, nem hoje nem nunca.
Durante a ditadura militar, enquanto eu ainda usava fraldas, Tão era jornalista em importantes veículos de comunicação, convivia de perto com uma repressão pesada e mortal. Não seria em um regime democrático que iria se dobrar. Os oficiais meteram o rabo entre as pernas e voltaram pro quartel. Mas o meu martírio estava apenas começando. Não voltaram mais para me levar, mas fui processado na Justiça Militar, seguido, tive minha casa vigiada por agentes do serviço reservado do Exército (como se esses caras não tivessem coisa mais importante pra fazer).
Queriam, a todo custo, identificar minhas fontes, saber quem abriu o jogo e contou as perseguições que ocorrem na caserna. Durante todo o processo, apesar de estar protegido pelo sigilo de fonte, fui sistematicamente assediado a revelar quem eram as fontes, o que obviamente não fiz.
Certo dia, em uma sala de interrogatório no Comando Militar do Leste, um coronel me perguntou:
- O que você tem contra o Exército?
- Coronel, não tenho nada contra o Exército, muito pelo contrário: eu servi como voluntário. Eu estava na fila dos dispensados quando pedi pra ficar. Por não ter nada contra, escrevi essa reportagem.
Já o Bolsonaro, esse nunca honrou a farda que trajou. Assim como não honra, hoje, o mandato de deputado. Não honra as mulheres, as minorias, os indígenas, os negros, os perseguidos e assassinados pela ditadura da qual fez parte. Bolsonaro é um covarde, não honra nem suas próprias bolas. Sejam essas bolas hetero, homo, ou bi, pois isso é problema exclusivamente dele.  Vai cuidar da cabeça, deputado.

Clique aqui para ler a reportagem no site do jornalista.

5 comentários:

  1. Matéria excelente, já estou compartilhando no facebook.

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  2. Servi em 95/96 no estado de SC , Eu era completamente inocente e quando entrei ,os primeiros dias foram difíceis . Depois de ter se acostumado um cabo que eu não vira antes chegou no nosso pelotão ,com o tempo se aproximou e fizemos amizade . Eu fizera amizade mas era tipo que os outros soldados passavam a mão , levava na brincadeira e em conflito com minha sexualidade não era abertamente gay . O cabo que se aproximara e agora era meu amigo , também começou com as brincadeiras e elas foram se transformando , sutilmente ele me tocava e quando estávamos a sós ele tinha ereções , e em uma dessas tirou e me mostrou seu pênis , eu negava suas investidas ,. Quando estava no banho ele mandava outro soldado me avisar pra que eu pegasse seu aparelho de barbear e levar pra ele no banho só pra eu velo, nu me mandava trancar a porta , então ele tinha as ereções . Ele falando se eu achava grande , se eu queria pegar ou coloca-lo na boca , . Ele não desistia , uma vez ele perdeu sua carteira no forte , quando me chamou pra ajuda-lo na contagem de peças no pavilhão dos caminhões , quando me pediu sexo oral , quando negue ele disse que me acusaria de ter roubando sua carteira , ele exigia que eu o servisse ate ele atingir o orgasmo e que eu teria que ingerir seu fluido , tive que fazer e quando ele terminou , me levantou pelos braços e me deu uma nota de 5 reais .
    Mas em outra ocasião , alguém mexera na escala e eu tive que ficar no forte de plantão , a noite o cabo me chamou de volta ao pavilhão dos veículos , quando aconteceu o coito anal , paralisado eu nunca sabia o que fazer , virou uma rotina pelo menos um vez por semana, ele me pedia pra fazer a higiene , me dava a chave do que a gente chamava de burca , um quarto com 4 beliches com e chuveiro e mangueira de chuveirinho . Tinha a escala , e o serviço era sempre com ele , tinha que seguir codgos pra não sermos descobertos . Sempre avia o coito desagradável e dolorido e quando ele terminava dentro de mim, sempre a mesma história a carteira , e os 5 reais . Algumas denuncias e boatos de soldados fazendo programas surgiu , algumas provas evidentes surgiram quando no banho alguns tinham manchas pelo corpo E o exercito exigiu exames de doenças venéreas , como desculpas que esses seriam os citados . pelotão por pelotão , mais de 200 homes fazendo exames levou cerca de 3 meses ao resultado total . O exercito tinha todos ali , quando foi chamado a ter uma conversa , quando eles me informaram que eu tinha sífilis, uma doença que eu nem sabia que existia , eu era um total caipira vindo do interior de Brusque . Me chamaram de viado , falando que eu e alguns estávamos fazendo programas e envergonhando o exercito, cheguei a chorar e eles me mandaram voltar pra copa almoçar , quando meus amigos me falaram que alguns soldado cerca de 3 deles tinham sidos expulsos por má conduta , 2 dias depois me chamaram que eu também, estava fora . Ao buscar alguns documentos semanas depois , vi o cabo ajudando com um novos soldados , não falei com ele , só nós encaramos , mas na saída no corredor ele fez um gesto agarrando sua virilha , falando que eu sentiria falta da quilo . Uma raiva me veio , quando eu o respondi que ele teria que procurar na rua onde pegou sua doença para se aliviar .Mas ele fez um gesto com a cabeça pro grupo de novatos dizendo tem sempre carne nova chegado . Pensei em denuncia-lo , mas com vergonha de se expor desisti . Hoje moro Em Curitiba , sou casado com um militar que conheci no RS. Mas novo e corajoso ele sofreu com a Homofobia e hipocrisia por ter se assumido na época , mas acredito que as coisas estão mudando .

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  3. Onde encontro a revista com a reportagem da época ?

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    Respostas
    1. No acervo digital da Revista Manchete: http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=004120&pagfis=296204
      Grato pelo seu corajoso depoimento

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