Dr. Drauzio. Por que quem presta pequenos serviços ao tráfico é criminoso e quem comanda instituições financeiras que recebem o dinheiro do tráfico não?

Cadeia lotada

Em artigo publicado no domingo na Folha, o doutor Drauzio Varella levanta alguns questionamentos sobre o tráfico de drogas, a guerra para combatê-lo, seus efeitos e a hipocrisia da sociedade, que trata como criminosos os que prestam pequenos serviços ao tráfico e como cidadãos de bem os administradores das instituições financeiras que movimentam os bilhões do tráfico.

Seu artigo é uma excelente reflexão sobre a validade dessa guerra ao tráfico de drogas, quem lucra com ela e os benefícios (se os há) para a sociedade.

Drauzio Varella: O tráfico 

A guerra às drogas entregou o monopólio da comercialização nas mãos do crime organizado.

Em nosso caso, o controle foi assumido por facções que se aproveitaram da superpopulação das prisões para arregimentar comparsas, tomar conta das ruas, disputar o mercado nacional à bala e criar raízes nos países vizinhos.

Os especialistas calculam que a venda de drogas ilícitas no Brasil movimente de R$ 15 bilhões a R$ 20 bilhões por ano. A ONU calcula que no mundo inteiro esse valor anual chegue a US$ 540 bilhões.

É engano, no entanto, imaginar que apenas criminosos de carreira estejam ligados à compra e venda ilegal. A cadeia de interesses econômicos que vai do plantio ao consumidor final, envolve centenas de milhares de pessoas sem ligação direta com o crime.

É bandido o pequeno agricultor dos Andes que planta coca para sustentar a família, porque rende mais do que a lavoura de milho ou de batata?

São marginais os donos de casas, pousadas, restaurantes e táxis nas cidades da fronteira pelas quais passa a mercadoria que chega aos centros urbanos? Ou as senhoras da comunidade que vendem quentinhas para os que trabalham nas biqueiras?

Embora sejam os primeiros a ir para a cadeia, é questionável rotular de criminosos os prestadores de pequenos serviços aos traficantes, como os que pesam e embalam droga para a venda no varejo, em troco do salário mínimo.

Em contrapartida, são cidadãos socialmente respeitados os que comandam as instituições financeiras nas quais serão depositados os bilhões arrecadados. Ou você, leitor, acredita que esse volume astronômico de dinheiro vivo fica escondido em espécie numa casa de favela?

Para guardar R$ 100 milhões em notas de R$ 50, a pilha tem que ter 2 metros de largura por 2 metros de comprimento e 1,92 metro de altura.

Não sejamos ingênuos: por caminhos misteriosos, esse dinheiro vai parar nas instituições financeiras. Um dos grandes bancos internacionais, com inúmeras agências no Brasil, foi condenado a pagar multa bilionária por aceitar depósitos de traficantes mexicanos feitos sem a menor cerimônia, na “boca do caixa”.

O desemprego que aflige 13 milhões de brasileiros é desigual. Na faixa etária dos 18 aos 24 anos, mais de 26% estão desempregados.

Isolamos na pobreza das periferias milhões de jovens sem atividade formal, a conviver com a violência, a biqueira na esquina, as agruras da família que se desfez ou nem chegou a se formar, a ignorância e a fartura de maus exemplos.

Nesse ambiente adverso, ter parentes e amigos de infância na cadeia faz parte do cotidiano; da mesma forma, tias, mães e avós que engravidaram aos 14 anos. Na Penitenciária Feminina de São Paulo atendi uma menina de 28 anos feliz com o nascimento da primeira neta; outra, com 40 anos, já teve três bisnetos. Hoje, atendo filhas e netas de ex-presidiários que tratei no antigo Carandiru.

Em tais circunstâncias, sem chance de emprego digno nem perspectiva de futuro, a alternativa de trabalhar para o tráfico se torna a possibilidade mais concreta para melhorar de vida; muitas vezes, a única. Para meninas e meninos de 18 anos, a tentação de ganhar R$ 800 por semana para levar um pacote de um canto para outro do bairro pode valer o risco de prisão.

O acesso ao salário decente e à oportunidade de uma carreira no submundo, confere a sensação de poder que encanta os jovens mais ousados e traz a ilusão de que nunca mais lhes faltará dinheiro. Não seriam essas as aspirações dos que vão fazer pós-graduação em Harvard?

A lógica é simples: se um dia ninguém mais tomar café, será o fim das lavouras, da distribuição e da venda nas padarias, consequências inatingíveis enquanto estivermos dispostos a pagar pelo prazer que o cafezinho nos dá. Da mesma forma, enquanto houver brasileiros interessados em comprar maconha ou cocaína, ninguém acabará com o tráfico.

A guerra às drogas é talvez a política pública mais fracassada da história ocidental. Os Estados Unidos —país que a concebeu— são hoje os maiores consumidores mundiais.

Gastamos bilhões com a repressão policial e as cadeias para conseguir o quê? Números crescentes de usuários e presidiários, corrupção da sociedade, violência urbana, 51 mil homicídios no ano passado, maconha e cocaína distribuídas pelo país inteiro e o pior: cada vez mais baratas.

Vai ficar assim para sempre? Não temos nada menos estúpido para propor?



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