segunda-feira, 15 de agosto de 2022

A Carta com mais de um milhão de assinaturas aumentou o preço do golpe

Coluna do sociólogo Celso Rocha de Barros na Folha:

A "Carta às Brasileiras e aos Brasileiros em defesa do Estado Democrático de Direito" aumentou o preço do golpe. Se houver um golpe, ele já começa contrariando setores importantes da sociedade brasileira, inclusive nomes de peso da elite econômica e política. Em 1964, por contraste, os golpistas tinham vários desses setores do seu lado.

Talvez os bolsonaristas sejam tão fanáticos que topem pagar esse preço: mas ele subiu.

Após três anos de notas de repúdio, entendo quem suspeitava que a carta seria só mais um pedaço de papel. Essa suspeita não se confirmou: um pedaço de papel com 1 milhão de assinaturas não é qualquer pedaço de papel.

Se entre essas assinaturas houver gente da Fiesp e da Febraban, assim como de inúmeros populares, como se pode ver pelos dados de "ocupação" dos signatários, estamos falando de um pedaço de papel muito particular.

Há duas coisas que Jair Bolsonaro nunca fez na vida: trabalhar e entrar em briga do lado mais fraco. Que Bolsonaro não trabalha, já demonstramos na coluna de 24 de julho. Mas também é verdade que nunca entrou em briga contra gente poderosa: na ditadura, entrou no Exército, na democracia, entrou no centrão, na Barra da Tijuca, apoiou as milícias. Sempre apoia os mais fortes contra os mais fracos, e nada disso é por preconceito ou por ideologia, é por medo de levar porrada.

Por isso, inclusive, Jair não decide direito se é católico ou evangélico, porque ainda não sabe que lado vai ser capaz de oprimir o outro.

Por isso seu ídolo militar é um torturador: o torturador só entra em cena quando o inimigo já foi preso, desarmado, amarrado e não tem mais qualquer chance de se defender. É só nesse tipo de briga que Jair Bolsonaro tem coragem de entrar.

Por isso o presidente da República foi chorar no chuveiro quando viu na carta pela democracia as assinaturas da Febraban, da Fiesp, de ex-presidentes de diferentes colorações políticas, enfim, de gente que tem mais poder do que o coitado do morador de Jacarepaguá, na zona oeste do Rio de Janeiro, que tem que pagar taxa de gás para as milícias.

As adesões empresariais à carta são, enfim, uma notícia excelente. Ficou mais difícil para Jair Bolsonaro mentir que seu golpe de Estado será contra o comunismo, ou contra a venezuelização do Brasil. Os bancos viraram comunistas? A Fiesp virou comunista?

Do dia da leitura da carta para cá, ouvi gente razoável com medo de que, enquanto a esquerda e o centro democrático discursam sobre democracia, Bolsonaro ganhe a eleição com o auxílio emergencial.

Entendo o argumento, mas discordo. O risco de Bolsonaro ganhar eleição com o auxílio existiria com ou sem carta, e ninguém, espero, parou de fazer campanha junto aos pobres para assinar documento.

Mas é mais do que isso.

O auxílio, criado na última hora quando Bolsonaro teve medo de perder para Lula, prova o quanto os pobres dependem da democracia. Foi só porque teve medo de ser julgado pela imensa maioria de eleitores pobres que Bolsonaro inventou uma política social faltando três meses para a eleição.

Talvez valha a pena dizer para os brasileiros que o plano de Bolsonaro é dar um golpe para nunca mais precisar pensar em pobre, como não pensava antes de ter medo de perder para Lula.



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