ELA, história de uma assassina quando criança

A primeira pessoa que eu matei foi meu pai – ou pelo menos o homem que minha mãe dizia ser meu pai, mas que eu não achava que fosse. A segunda pessoa foi minha mãe. Depois matei um tio. Só depois é que passei a ser uma criminosa – segundo os padrões e regras da sociedade capitalista.

Meu pai eu matei meio que sem querer. Ele e minha mãe estavam em mais uma das costumeiras brigas dos dois, com uma diferença. Minha mãe pegou uma arma. Disse que iria matá-lo. Eles começaram a brigar. A arma caiu no chão, pertinho de mim. Eu a peguei. Meu pai (repito, o homem que minha mãe dizia ser meu pai, mas que eu não achava que fosse) veio furioso para cima de mim pegar a arma. Em pânico, puxei o gatilho. A bala atingiu o meio da testa dele. Morreu na hora.

Aí foi a vez da minha mãe. Ela começou a chorar a morte do homem que eu havia matado e a me dizer coisas horríveis de que nem me lembro, ou forcei para esquecer, e veio para cima de mim também, acho que para me agredir.

Se atirei para me defender, se foi sem querer ou de propósito, eu não sei. Só sei que novamente o tiro foi no meio da testa e a velha morreu na hora.

Sozinha, sem ninguém, no casebre miserável onde morávamos, corri para a casa de um tio, que não ficava muito distante.

Claro que menti para ele. Disse que foram bandidos. Ele acreditou. Não passava pela cabeça de ninguém que uma menina de pouco mais de sete anos cometesse tais crimes.

A polícia fez seu trabalho de sempre. Prendeu um inocente. Por coincidência, era o homem que eu achava ser meu pai. Deixei que ele ficasse preso, quando poderia ter dito que não o reconhecia como o assassino. Também não o acusei. Disse apenas que não me lembrava. Todo mundo entendeu o trauma da menininha.

O que sei é que o homem que eu julgava ser meu pai, enfim assumiu sua responsabilidade sobre mim, ainda que de forma indireta e sem saber que o fazia.

Não matei meu tio em seguida. Demorou um pouco. Alguns anos. Foi só quando eu comecei a botar peitinho que ele começou a me olhar esquisito, daquele jeito que homem olha para a mulher com desejo.

Durante muito tempo ele não tentou nada, pedia apenas que eu sentasse no colo dele e fingia que brincava comigo para lá e para cá, embora eu sentisse o volume sob sua calça, uma coisa dura que ele esfregava no meu corpo.

Mas um dia, quando eu já tinha os peitinhos crescidinhos e uma pequena penugem em torno da vagina, ele resolveu me agarrar e tirar minha roupa a força. Consegui fugir e corri o mais que pude.

Mas, o que eu iria fazer? Era uma menina sem estudo num lugar miserável, cercada de miseráveis por todos os lados. Ninguém me ajudaria a troco de nada.

Deixei passar um dia e voltei. Ele me recebeu muito bem. Parecia mesmo preocupado comigo e eu relevei. Afinal, ele havia bebido muito naquele dia.

Os dias voltaram ao normal, eu ajudando na cozinha e no tomar conta da casinha miserável, e ele na dele.
Mas um dia ele tentou de novo. Estava bêbado e pediu para eu abrir a blusa, que ele queria ver meus peitinhos.

Disse a ele que não, que era feio. Ele disse que era besteira, que cansou de me ver nua quando eu era menorzinha.

E começou a ser mais agressivo, tentando abrir a blusa na marra.

Eu tinha uma bolsa pequenininha, que tinha sido da minha mãe. Lá dentro eu guardava o revólver, aquele que matou o homem que minha mãe dizia ser meu pai e minha mãe.

Peguei o revólver. Ele a princípio se assustou. Mas achou que eu não atiraria, ou pensou que fosse de brinquedo, e veio para cima de mim dizendo que eu não teria coragem de atirar no titio.

Viu que eu tinha, não sei se coragem ou medo, sei lá. Só sei que o efeito foi o mesmo: um tiro no centro da testa do titio, que caiu mortinho na hora. E me deixou sozinha no mundo.

*Esta pequena história faria parte de um livro que eu pretendia escrever, que contaria a história da personagem principal de meu livro ELA, da infância até o momento do livro. Só que mudei de ideia e, em vez de voltar ao passado, resolvi partir para o futuro: o que aconteceu a partir do ponto final do ELA. Estou escrevendo e se chama "ELA em branco" (no ano que vem você vai saber por quê).



Assine e apoie o blog que resiste há 18 anos.