Escolas Cívico-Militares: Pior erro não é trocar "S" por "Ç", é trocar educação por "ordem unida"

Viralizou o vídeo [publicado ao final] em que um militar de uma Escola Cívico-militar de São Paulo do governador Tarcísio de Freitas cometeu dois erros de ortografia em sala de aula. O problema mais grave é que ele havia escrito apenas quatro palavras e errou duas. 

Bem, sempre vai haver alguém que defenda essa aberração imposta pela extrema direita a algumas cidades e estados brasileiros que dirá que ele não foi tão mal, afinal acertou 50%...

O mais grave ali não está nos erros de ortografia — quem não os comete? —, que são graves por serem cometidos num ambiente educacional.  Mas a ideia de militares ensinando alunos a baterem continência (eles devem ensinar que o certo é "prestar continência"), coisa que os jovens terão oportunidade de aprender aos 18 anos, quando servirem obrigatoriamente às Forças Armadas, onde aprenderão a prestar continência, obedecer à "ordem unida" — o que estava sendo ensinado em classe —, e até  pintar meios-fios, caiar árvores e cuidar dos jardins dos oficiais superiores.

Os militares, além de atropelarem a gramática, descumpriram o Art. 11 do regulamento das ECIM, que diz:

A Dimensão cívico-militar deve atuar na difusão de valores humanos e cívicos para estimular o desenvolvimento de bons comportamentos e atitudes do aluno e a sua formação integral como cidadão, em ambiente escolar externo à sala de aula.

Se aquele ambiente com carteiras, alunos, mesa de professor, um quadro onde foram cometidos os erros não é uma sala de aula, o que é então?

Professores são oficiais da PM de São Paulo

Que tipo de ensinamento é prestado a esses alunos por oficiais de uma polícia que vem batendo ano a ano recordes de letalidade policial?

A série histórica mostra uma escalada nos últimos anos. Em 2022, foram 421 registros. Em 2023 — primeiro ano do governo Tarcísio —, o número subiu para 504, alta de 19,7%. Já em 2024, houve um salto para 813 casos, aumento de 61,3% em relação ao ano anterior. Em 2025, foram 834 casos, novamente mais de dois por dia.

O modelo de cidadão das Escolas Cívico-Militares é o ex-secretário de Segurança "Capitão Derrite", como gosta de ser chamado, um policial que foi expulso da Rota por excesso de letalidade? Derrite que afirmou que: 

 “Porque pro camarada trabalhar cinco anos na rua e não ter ma… três ocorrências, na minha opinião, é vergonhoso, né. Mas é a minha opinião, né”

É isso, ou o militar modelo é o atual presidiário chorão da Papudinha, o ex-presidente Bolsonaro, condenado a 27 anos e três meses de prisão por tentativa de golpe de Estado, entre outros crimes?

Ou seriam os generais quatro estrelas Braga Netto, Heleno e Paulo Sergio e o almirante Garnier, condenados pelos mesmos crimes, inclusive o de formação de quadrilha?

Ou ainda o general Pazuello, que quando ministro da Saúde do governo Bolsonaro não encomendou as vacinas oferecidas pela Pfizer, que teriam evitado centenas de milhares de mortes, com a seguinte e cínica justificativa:

"Senhores, é simples assim: Um [Bolsonaro] manda, o outro [ele] obedece".

O mesmo Pazuello, especialista em Logística (sic) do Exército, que enviou oxigênio para o Amapá em vez de Amazonas, causando a morte de várias pessoas por falta de oxigênio na pandemia.

É melhor seguir os ensinamentos de um brasileiro que é um dos três teóricos mais citados no mundo, o educador Paulo Freire:

“Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser opressor.”
Educação é para a liberdade, com liberdade, e que não combina com a formação militar rígida, hierarquizada e defensora do status quo.

Educação é Galileu Galilei, que foi forçado pela Inquisição Romana em 1633 a renegar a teoria heliocêntrica (de que a Terra se move ao redor do Sol) para escapar da condenação à morte
.
No entanto, logo após assinar a sua abjuração, Galileu teria murmurado a célebre frase:

    "Eppur si muove"
    (E, no entanto, ela se move)
   

O vídeo:



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Um comentário:

  1. Perfeito! Escola não é quartel!
    Levantando uma bola aqui... Existe uma ideia de que escola tem que ser disciplinadora - e é por aí que as pessoas, de uma maneira geral, 'aprovam' a ECM. A população se sente tranquila, acreditando que os filhos estão em um lugar seguro e recebendo uma educação disciplinadora. Acreditam que os filhos ficarão menos rebeldes, menos respondões, que irão obedecer sem questionamentos. E, para grande parte das famílias, os filhos serem 'bem comportados", é muito mais importante que aprenderem a utilizar s ou ç em diferentes palavras. Veja bem: socialização é fundamental na formação escolar. Aprender a conviver em sociedade é um dos pilares da Educação. Trazer o conhecimento universalmente construído para compartilhar com os alunos é outro pilar. Não são excludentes. Essa é uma conversa necessária que a comunidade escolar tem que aprofundar com a população.
    Regredimos tanto nos últimos anos, que acredito que tenhamos que fazer campanhas para explicar para que serve uma escola, assim como estamos retomando a divulgação em massa sobre a necessidade de vacinar as pessoas.
    Dito isso, o mais grave dessa história é a tentativa de subverter a ordem de 'formar cidadãos para serem pessoas dignas e transformadoras' em 'formar cidadãos desinformados e submissos".
    A Educação pública, principalmente, tem compromisso com a formação do povo. Escolhas são feitas em função do que se quer realizar, que tipo de pessoas pretendemos formar, para agir diretamente em qual país. É a busca da utopia de uma sociedade íntegra e soberana.
    Os governos que investem nas Escolas Cívico-Militares estão apostando num país de ditadura de extrema direita para um futuro próximo, onde as imbecilidades viram rotina e a obediência é cultivada no medo.

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