Ele já foi o sonho de superação da humanidade. O mais distante, mais alto, mais difícil, o topo do mundo. O pico do Everest, de 8.849 metros, na Cordilheira do Himalaia, na fronteira do Tibete com o Nepal, era o inalcançável, que forçava o homem a ir além dos seus limites. Até que deixou de ser.
Em 1953, o sherpa Tenzing Norgay e o neozelandês Edmund Hillary fizeram a primeira subida oficial do Everest usando a rota sudeste. A equipe de montanhismo chinesa de Wang Fuzhou, Gonpo e Qu Yinhua fez a primeira ascensão relatada do pico pelo lado norte em 25 de maio de 1960.
De lá para cá, engolida pelo capitalismo e alimentada por coaches, escalar o Everest passou a ser um negócio como outro qualquer, ainda que cercado de mistérios e enigmas e mortes (em torno de 200 corpos estão para sempre em suas entranhas geladas), mas à disposição de quem tiver cerca de 70 mil euros para pagar uma das expedições que anualmente buscam o pico, especialmente nos meses de abril e maio.
Este ano houve um recorde de 274 alpinistas chegando ao topo ao mesmo tempo, provocando um surreal engarrafamento de homens vestidos como astronautas, com máscaras e tubos de oxigênio, no ponto mais alto do planeta, a chamada zona da morte, acima dos 8 mil metros, entre eles um brasileiro:
O mineiro Leonardo Pena, de 51 anos, fez parte do número recorde de 274 alpinistas que fizeram uma longa fila para chegar ao cume do Monte Everest na quarta-feira (20).De Viçosa, na Zona da Mata mineira, e atualmente morador de Belo Horizonte, ele integrou uma equipe formada por brasileiros e outros escaladores. [G1]
O site Resist.es publicou em seu perfil no Instagram uma crítica à apropriação capitalista da escalada do Everest:
Disseram-nos que o Everest era o topo do mundo. Um símbolo de superação da adversidade e da grandeza humana. Mas tudo era mentira.
Uma narrativa capitalista transformou o Everest num lixão de luxo. Cilindros de oxigênio abandonados, barracas rasgadas, plástico, lixo congelado por toda parte e filas quilométricas para chegar ao cume. Como uma liquidação, só que a 8.000 metros de altitude.
E... quem transformou a montanha mais alta do planeta num destino turístico de massa e num depósito de lixo? Certamente não os povos indígenas da região, nem os sherpas que arriscam suas vidas limpando o que outros deixam para trás. Foram os ricos do mundo. Pessoas com dinheiro suficiente para pagar 70.000 euros por uma foto no topo do planeta.
Mas incapazes de assumir a responsabilidade pela sujeira que deixam para trás. Porque o planeta importa para eles tanto quanto o que eles deixam para trás. Tudo o que lhes importa é a foto.
Poder dizer que suas vidas valem a pena porque completaram um dos desafios mais populares. Eles querem impressionar e dar sentido à sua triste existência. E farão isso a qualquer custo.
O Monte Everest não é exceção. É um microcosmo do mundo. E se não conseguirmos impor limites ao dinheiro, nem mesmo no topo do planeta, não conseguiremos em lugar nenhum.
Nunca. Comam os ricos.
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