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O que fazer quando a Mulherzinha de Kafka invade nosso caminho desafiadoramente

Como mais um dia de caminhar de casa ao supermercado do peripatético louco do supermercado acabou se transformando num duelo quase mortal com uma mulherzinha que encontrou pelo caminho. 

Mulherzinha sem nenhum sentido pejorativo, apenas um adjetivo para sua pouca altura. Era uma mulher de pouco mais de 1,50 m. Eu a vi à distância, enquanto fazia minha caminhada diária. Ela estava a uns 50 metros de mim e caminhava tranquilamente, como eu. 

Mas algo aconteceu quando nos aproximamos, e é sobre isso que vou contar aqui a vocês, se o assunto lhes despertar o interesse. Porque foi uma situação no mínimo curiosa.

Eu não estava pensando nela, nem nada nela me chamou atenção, a não ser o fato de estar à minha frente no caminho. Como tenho 1,90 m de altura, pernas compridas, rapidamente me aproximei dela, que parecia quase patinar no mesmo caminho à medida em que eu avançava. 

No entanto, ao chegar ao lado dela, algo aconteceu que me fez lembrar o escritor Franz Kafka, autor de um conto genial chamado "Uma mulherzinha", em que ele narra o efeito devastador que a simples presença do narrador causava na tal mulherzinha do título. Ele não sabia por que ela ficava de tal modo perturbada com sua presença. Não havia feito nada a ela. Jamais em sua vida fizera qualquer coisa direta ou indiretamente àquela mulherzinha. No entanto, ela reagia com furor à sua presença. 

No conto ele narra as inúmeras tentativas que fez, conversando com amigos em comum, chegando mesmo a abordá-la certa vez para tentar terminar com aquela situação que ele via como embaraçosa, provocando na ocasião um desmaio nela e a reprovação pública, como se ele a houvesse assediado.

E não foi essa a única vez em que ela chegou a desmaiar à simples presença dele. Ou, pelo menos é disso que me lembro do conto, que não releio há um tempo. 

Kafka é um autor genial, porque nos mostra o absurdo do mundo, como caímos aqui em meio a situações que não dominamos ou, pior, sobre a qual não temos controle algum. O mundo nos é dado e temos de conviver com ele de um jeito ou de outro, por mais que seja difícil viver a vida cotidiana, de ir à padaria, ao supermercado, de falar com outros seres humanos que não conhecemos, de termos de viver e ganhar a vida no mundo em que, como diz um outro escritor, o filósofo Jean Paul Sartre, "o inferno são os outros".

Mas, deixando a mulherzinha de Kafka de lado e voltando à minha — repare como ela já invadiu a minha vida —, passeava eu, quando me aproximei e me desloquei para o lado para ultrapassar a mulherzinha, que não devia ter mais de 1,50 m de altura, como já disse, e eu com minhas passadas longas, de um homem de 1,90 m, julguei que ultrapassá-la seria fácil e rápido como acontece normalmente. 

No entanto, ao fazê-lo, ela me olhou com rancor, ou ao menos me pareceu isso, e começou a acelerar seus micro passinhos de tal modo que eu não conseguia me desvencilhar dela. 

Andávamos emparelhados, como uma dupla de policiais, embora a diferença de comprimento das pernas fosse imensa. Por mais que eu tentasse acelerar ela quase corria ao meu lado e me olhava com fúria, como se o fato de eu ser mais alto que ela e poder ultrapassá-la com facilidade fosse uma afronta a toda sua existência.

Como Kafka no conto, tentei negociar mentalmente a situação, passei a diminuir minha passada para deixá-la me ultrapassar e seguir em frente. Mas isso não pareceu satisfazê-la, pelo contrário, pareceu que minha atitude foi encarada por ela como um desaforo, uma ofensa pessoal de quem a julgava incapaz de chegar à minha frente numa corrida imaginária que só estava na mente dela. 

Acelerou, mas quando viu que eu desacelerei, desacelerou até ficar novamente ao meu lado e bufar com ódio, mas um ódio profundo que vi em seu olhar, sendo que eu jamais a havia visto antes em toda a minha vida, como já disse, e tampouco pretendia disputar com ela alguma coisa, que só ela vislumbrava.

Foi quando surgiu o sinal de trânsito. Ele estava fechado para os dois. Fiquei parado até que ela chegasse novamente ao meu lado. Senti que ali era a hora em que eu deveria dar adeus àquela disputa que já havia ultrapassado os limites do racional. Fosse qual fosse o lado para que ela se encaminhasse, eu andaria para outro. 

Queria um ponto final naquilo, que eu não havia iniciado e não queria de modo algum prosseguir. Sempre dei minha caminhada com outro propósito, diferente das disputas do dia a dia no mundo, até mesmo dos fatos da realidade, mas, como nos filósofos peripatéticos, deixar fluir o pensamento em busca de novas soluções ou fruições. 

Quando o sinal abriu para nós, aguardei o movimento dela. Esperava que ela andasse adiante, eu viraria então à direita e partiria para outro local. No entanto ela permaneceu parada e desafiadora. Decidi ficar também. O sinal voltou a ficar fechado para nós. E ela sorriu, vitoriosa.Havia conseguido interferir na minha vida mesmo contra a minha vontade, aquela criatura quase minúscula.

Foi quando decidi dar um ponto final naquilo. Nem esperei o sinal abrir para nós novamente, me meti entre os carros, atravessei a rua e comecei a correr o mais rápido que podia, alargando ao máximo meus passos, sabendo que ela jamais conseguira me alcançar, e ainda mais: dobrei esquinas, fiz um caminho completamente louco, correndo com fúria de tal modo que ela jamais poderia me alcançar e nem mesmo saber por onde eu andava, enquanto eu corria, e corria cada vez mais, agora sabendo o que deveria fazer: chegar em casa e devolver o problema à personagem de Kafka, que havia invadido minha vida em plena manhã de domingo.

Finalmente em casa, sentado na poltrona, comecei:

 

"É uma mulher pequena; embora esbelta por natureza, anda muito espartilhada; vejo-a sempre com o mesmo vestido, de um tecido cinza amarelado meio cor de madeira e guarnecido de borlas ou pingentes em forma de botões do mesmo tom; está sempre sem chapéu, seu cabelo loiro desbotado é liso e mantém-se muito fofo, mas não desordenado. Apesar do espartilho seus movimentos são ágeis, naturalmente ela exagera essa mobilidade, gosta de conservar as mãos nos quadris e vira a parte superior do corpo para o lado com um arremesso surpreendentemente rápido..."

 



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Uma mulher grita para ser ouvida, mas ninguém a escuta

Há mais de um ano uma mulher grita para ser ouvida, mas ninguém a escuta. Por mais que ela procure jornalistas, escreva em suas redes sociais.

Essa mulher quer contar sua história. Uma história de violência, agressões, ameaças de morte, estupro. 

Ela fala aos quatro ventos. Quando é ouvida, a censuram. 

Ela já contou sua história a uma repórter, mulher como ela. E depois a outra. Ambas a ouviram e publicaram sua história. Mas ambas as matérias estão censuradas.

Então é como se ela tivesse falado, mas não fosse ouvida.

Ela não é ouvida porque seus gritos são fracos. Não, ela grita alto e diariamente em suas redes sociais. Grita alto e diariamente na esperança de ser ouvida.

Mas ninguém a escuta. Ninguém toma uma providência.

Ela já se declarou disposta a ir a qualquer lugar onde queiram ouvir sua história, olhar os documentos que diz ter e que comprovariam tudo o que diz.

As agressões que sofreu e sofre. A corrupção do ex-marido, de que ela diz ter provas.

Ela diz que ele sonegou terras, não declarou fazendas que seriam dele e de que ele dizia ser apenas o arrendatário. Ela diz ter cópias dos contratos de gaveta.

Ela diz que ele a agrediu com palavras, tapas, socos, chutes. Que ele a estuprou e ameaçou matá-la e desaparecer com o corpo, caso ela não negasse todas as agressões em juízo.

Mas ninguém a escuta.

O ex-marido dela é um tipo poderoso. E de maus bofes. Um coronelzinho típico de um Brasil atrasado de coronéis, coisa de há mais de um século, que teima em sobreviver como um espantalho de um Brasil congelado no tempo.

Diferente de Antígona, mas com a mesma determinação dela, que desafiou o rei e os poderosos para enterrar o irmão, ela desafia o Congresso e o STF para, ao contrário, desenterrar sua história que querem ver sepultada.

Ela quer contar sua história e que a ouçam para sepultar de vez o coronelismo ainda vigente em nossa política e que teima nas ações de seu ex-marido, acobertado por outros coronéis latifundiários do STF.

Mas ela grita.

Enquanto isso ela grita.

Uma mulher grita para ser ouvida, mas ninguém a escuta.

Por conveniência. Por medo. Por cumplicidade. Por machismo.

Não importa. Ela grita e vai continuar gritando. 

Porque ninguém para uma mulher quando ela decide enfrentar uma injustiça visceral. 

O nome dela é Antígona, é Jullyene, são as mães de Acari, as mães e avós da Praça de Maio, das favelas e comunidades, que têm seus filhos assassinados pela polícia. 

Elas gritam para serem ouvidas, e o mundo só será justo quando elas não precisarem mais gritar porque são ouvidas. Ou melhor, porque a injustiça que motiva os gritos não existe mais.

Mas enquanto isso, hoje, uma mulher grita para ser ouvida, mas ninguém a escuta.



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Imagem que ajudou a pôr fim a uma guerra pode ajudar a terminar outra

Num 8 de junho, há 52 anos, o fotógrafo vietnamita Nick Ut fez o registro de uma imagem que emocionou o mundo e contribuiu para fazer chegar ao fim a guerra do Vietnã.

A foto da menina nua chorando, desesperada, fugindo dos ataques vindos dos céus, de aviões estadunidenses criminosamente bombardeando napalm sobre civis vietnamitas, deu a Nick Ut os prêmios World Press Photo e Pulitzer. 

A menina, com 9 anos, é Phan Thị Kim Phuc, hoje embaixadora da Boa Vontade da Unesco, com 61 anos, e é dela esta narrativa sobre os acontecimentos que geraram a foto:

"Em 1972, os americanos lançaram uma bomba de napalm em meu povoado, no sul do Vietnã. Um fotógrafo, Nick Ut, tirou uma foto minha fugindo do fogo, a foto que hoje é tão famosa. Eu me lembro que tinha 9 anos, era apenas uma menina. 

Naquela noite, nós do povoado havíamos ouvido que os vietcongues estavam vindo e que eles queriam usar a vila como base. 

Então, quando já era dia, eles vieram e iniciaram os combates no povoado. Nós estávamos muito assustados. Eu me lembro que minha família decidiu procurar abrigo em um templo, porque nós acreditávamos que lá era um lugar sagrado. Nós acreditávamos que, se nos escondêssemos lá, estaríamos a salvo. 

Eu não cheguei a ver a explosão da bomba de napalm; só me lembro que, de repente, eu vi o fogo me cercando. De repente, minhas roupas todas pegaram fogo, e eu sentia as chamas queimando meu corpo, especialmente meu braço. 

Naquele momento, passou pela minha cabeça que eu ficaria feia por causa das queimaduras, que eu não ia mais ser uma criança como as outras. Eu estava apavorada, porque de repente não vi mais ninguém perto de mim, só fogo e fumaça. Eu estava chorando e, milagrosamente, ao correr meus pés não ficaram queimados. Só sei que eu comecei a correr, correr e correr. 

Meus pais não conseguiriam escapar do fogo, então eles decidiram voltar para o templo e continuar abrigados por lá. Minha tia e dois de meus primos morreram. Um deles tinha 3 anos e o outro só 9 meses, eram dois bebês. Então, eu atravessei o fogo."


O desespero no rosto da menina Kim Phuc vemos hoje refletido em várias crianças palestinas, maiores e menores que a pequena vietnamita fugindo do chão em brasa sob seus pés, do fogo que ameaçava devorá-la e queimava seus braços, porque o napalm gruda no corpo e só para de queimar quando o fogo se extingue.

Já são quase 15 mil crianças palestinas barbaramente assassinadas por Israel em sua estratégia genocida. Mais 33 mil crianças feridas. Elas me levam a Kim Phuc, que, mesmo fugindo do fogo do inimigo e da ameaça de morte, não deixou de pensar em seu corpo ferido, que "ficaria feia por causa das queimaduras, que eu não ia mais ser uma criança como as outras". Quantas crianças palestinas não compartilham esse drama?

O absurdo das guerras, desenhadas em salões refrigerados por homens bem remunerados e bem treinados, continua provocando morte, dor e horror nas crianças. Cabe a nós, adultos, fazermos o possível para que o genocídio pare já, que haja um cessar-fogo imediato.

Em homenagem a todas as Kim Phuc que já morreram, as que estão feridas, a todas essas crianças que atravessam correndo desesperadas por nossas telas, num grito apavorado por socorro, que não podemos deixar de prestar.

São quase 50 mil crianças palestinas entre mortas e feridas. Um estádio médio de futebol lotado. 

Que a imagem premiada do fotógrafo Nick Ut seja apenas, como a Itabira de Drummond, uma fotografia na parede ("Mas como dói!"), e que nunca mais haja oportunidade de um fotógrafo captar uma igual.


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O faxineiro cantor que parou de cantar e o cego que passou a enxergar

Não era difícil ouvi-lo cantar ou assoviar nas mais diferentes horas no prédio. O faxineiro cantor era um caso concreto de alegria que se irradiava na música ou no assovio.

Nos cumprimentava também com euforia. Nunca foi apenas um bom dia ou boa tarde, mas eram sequências de exclamações de uma pessoa que bem se poderia dizer que estava de bem com a vida; ou melhor, que a vida estava de bem com ela.

Até que um dia ele chegou ao síndico e pediu empréstimo de uma certa quantia. Há aqui no condomínio uma reserva de caixa que muitas vezes é usada para ajudar os funcionários com empréstimos a custo zero para eles, desde que a justificativa seja ao menos razoável.

Na reunião do Conselho de Contas do Condomínio (sempre em maiúsculas, porque essas reuniões de condomínio têm uma gravidade que deveriam ter reuniões de Comissões no Congresso) ninguém achou estranho que o faxineiro cantor pedisse aquela quantia para fazer uma modificação geral na boca. Queria arrancar os dentes que lhe sobravam e colocar uma dessas maravilhas anunciadas nas redes e programas populares de TV.

Empréstimo concedido, o faxineiro cantor sumiu por uns tempos. Até que voltou, já com a "obra" feita.

Mas aí deu-se o que ninguém esperava. Em vez de sorrir mais abundantemente, cantar mais forte ainda, assoviar como passarinho, o faxineiro cantor emudeceu.

Respondia os "bom dia" e "boa tarde" com parcimônia, quase que apenas por educação ou dever, e sempre de cabeça baixa, como nunca antes.

A alegria havia sumido.

Perguntado se estava com algum problema, respondia modestamente que não. Indagado pelos condôminos preocupados, o síndico disse que chegou a perguntar a ele se tudo ocorrera bem com o trabalho do dentista, o que ele respondeu positivamente.

Então, o que acontecera?

O caso me lembrou de um cego, um deficiente visual completo, que nada enxergava desde o nascimento ou desde muito cedo. Não me recordo com precisão, cito de memória.

O neurologista e escritor britânico Oliver Sacks narra a história em um de seus vários livros de sucesso.

O deficiente visual não enxergava absolutamente nada, mas tinha uma vida normal, adaptado que estava às limitações de sua deficiência.

Informado de uma cirurgia recém desenvolvida que poderia lhe devolver (ou trazer) a visão, topou, mas com alguma relutância.

Depois da cirurgia extremamente bem sucedida, o homem voltou ou passou a enxergar.

Mas foi um desastre. Habituado que estava a se locomover sem enxergar, ele não conseguia avaliar corretamente as distâncias entre objetos e acabava batendo em paredes, chutando pés de cadeiras e de móveis, machucando-se. 

A ponto de muitas vezes ser flagrado fechando os olhos para se locomover melhor. Nessas horas ele voltava a ser diligente, como sempre fora, e não o homem vacilante atrapalhado pelo fardo da visão.

Terá o mesmo acontecido com o faxineiro cantor?  

Nesta nossa crônica os dois se encontram. O ex-deficiente visual, acostumado à nova vida de vidente, cumprimenta o faxineiro cantor pela beleza dos dentes e ele retribui exibindo seu melhor sorriso.

O que fariam a seguir? Seguiriam assoviando e cantando? Imaginemos.


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Crônica do amor fugaz: Ele, muito louco; ela, doida demais

Quando dois desencontrados se encontram

Eles já haviam se encontrado várias vezes. Moram em Ipanema há anos. Vivem se esbarrando pelas ruas, mas o máximo que fazem é uma troca cúmplice de olhares, um cumprimento com o arregalar de olhos, um oi tímido, sem som...

Um dia se viram frente a frente, sentados numa grande mesa de um bar de esquina, com todo mundo tomando cerveja e otras cositas más, em comemoração a alguma coisa que não é importante para nossa história.

Estavam sentados distantes nas mesas — porque eram três, agrupadas pelos garçons —; quase ela no setor norte e ele no sul, e apenas trocavam olhares, de início comuns aos encontros nas ruas, e, aos poucos, cúmplices, chegando mesmo a brindarem com seus copos e corpos à distância.

A bebida era farta e a comemoração (de que mesmo?) seguia noite adentro, a cada momento perdendo convivas, à medida que a noite engolia a madrugada com sua bocarra alcoólica.

Quase 5 da manhã, o dia para raiar, não havia mais ninguém no bar. A não ser o pessoal do balcão, o solitário garçom da mesa e três pessoas: ela, ele e mais um, que se despediu, profético:

— Não vou embaçar mais a vida do casal.

Eles não protestaram, e ele se foi. Enfim sós.

Não trocaram palavras. Começaram a se beijar e a se abraçar desesperadamente, como a água da chuva inunda o chão seco e rachado do sertão.


 

Teriam ficado indefinidamente assim, se o garçom não pedisse pelamordedeus, pois morava longe. Eles se levantaram e, como se fosse a coisa mais corriqueira do mundo, foram para a casa dela. Sem dizer palavra. Abraçados e se beijando apaixonadamente.

Quando chegaram lá, ela pegou uma long neck, mas não chegaram a beber, pois tinham muitos beijos e coisas mais a fazer.

Quando ele acordou já era quase meio-dia de sábado (esqueci de dizer que o encontro foi na sexta), ela já de biquíni, com uma camisa masculina branca de manga comprida por cima como roupa de praia. Jogou um calção para ele e uma long neck geladinha, que ele bebeu de vez.

Como o roteiro de um filme ensaiado, os dois desceram à praia abraçados como siameses, em frente ao Nove, a Barraca do Uruguai, e se encaminharam para a beira, onde ela estendeu a canga e eles voltaram a se agarrar. 

Comeram linguiça aperitivo com molho chimichurri do Uruguai, beberam várias cervejas. E continuaram a se beijar. 

Da praia, após o por do sol, foram até a casa dele. Tomaram banho, ele deu um vestido para ela usar e botou a camisa, o biquíni e as demais roupas de praia para bater na máquina de lavar.

De lá, seguiram caminhando pelo calçadão da Vieira Souto até o Arp e ocuparam uma mesa na calçada. Ali ficaram bebendo gin tônica e beijando loucamente, muito de vez em quando falando sobre a magnífica lua  apenas dizendo "lua" e olhando-a, enquanto bebiam e beijavam mais.

Passaram depois pelo mesmo bar da noite anterior, beberam umas cervejas e pediram outras para levar para a casa dela, onde beberam e transaram até o dia amanhecer. Fecharam a cortina para o sol de domingo e dormiram agarrados.

Acordaram juntos quase às 18h. Decidiram que iriam tomar café da manhã, almoçar e jantar de uma vez no Bar Lagoa. Que já não é mais a mesma coisa, embora aparentemente sim. Como eles também não são a mesma coisa. E às vezes é bom que assim seja; outras vezes não. Com a vida também.

Mas no Lagoa os beijos desapareceram e não foram substituídos por palavras. Escolheram pratos diferentes, tomaram chope e saíram andando lado a lado. Até a esquina em que se separaram: ele para a casa dele; ela para a dela.

Ele tinha que chegar em casa, botar para secar a camisa dele — aquela que estava na casa dela e que ela usara para ir à praia e ele botara na máquina de lavar — para amanhã cedo passá-la e ir trabalhar.

Ela teve que ir para casa, pois teria diarista na segunda e dona Tereza chega cedinho, mesmo vindo de Nova Iguaçu para Ipanema. Como consegue?

Só tornaram a se encontrar alguns dias depois. Sempre em Ipanema. Caminhando em calçadas diferentes, se cruzaram ao acaso. Cumprimentaram-se à distância, como sempre. Apenas um revirar de olhos e um pequeno sorriso no canto da boca.

Sabe-se lá quando outro evento voltará a aproximá-los de novo. E se isso vai acontecer.

Não foi a primeira vez. Pode ou não ter sido a última. Mas é assim com eles.

O amor tem dessas coisas.

A ideia desta crônica me veio das canecas que ilustram a postagem, que encontrei na internet. Dei apenas uma pequena "entortada" nos personagens tão fofinhos das canecas.


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Rolé realista de um domingo chuvoso em Ipanema

"Tio, compra pra me ajudar".
"Não é dinheiro, compra pra mim uma caixa de bombom pra eu vender e...".
"Tio, dá um pão desses ai".
"Senhor, respeitosamente, com todo respeito".
"Moço, compra um paninho pra ajudar".
"Senhor, pelo amor de Deus, eu vim aqui no hospital de Ipanema e eles me mandaram pro Miguel Couto. Eu tô com minha filhinha aqui [bebê no colo]. Não tenho dinheiro".
"Não é dinheiro, senhor".
"Não é pra mim, é pra comprar ração pro cachorrinho".
"Não é dinheiro, é uma sandália. Roubaram a minha de noite".
"Tio, compra pra mim um desodorante".
"Senhor, não é dinheiro, compra um leite em pó".
"Compra um pacote de feijão, eu tô sem nada em casa".
"TÔ COM FOME!".
"Moço, compra um...".
"Senhor, compra uma quentinha ai pra mim".
"Senhor, com todo respeito, não é dinheiro não".
"Compra um pacote de fraldas".
"Moço, não é dinheiro, compra um isopor pra eu poder vender umas...".
"Senhor, eu tô com fome".
"O senhor me desculpe, eu nunca fiz isso, mas é que eu vim ver um emprego, eu moro em Magé".
"Tio, paga um hambúrguer com uma Coca pra mim".
"Senhor, eu preciso comprar esse remédio".
"Falta só um real".
"Senhor, qualquer dinheiro serve, uma moedinha...".
"Deus vai ajudar o senhor".
"Em nome de Jesus...".
"Compra uma lata de óleo".
"Eu não como nada desde ontem, pelo amor de Deus".
"Moço, compra uma caixa de Kit-Kat pra eu poder trabalhar".
"Não é dinheiro, paga uma quentinha daquela ali".
"Senhor, desculpa incomodar, não é dinheiro".
"O senhor compra um pacote de fralda?".
"Falta só cinco reais pra completar".
"Um sabonete".
"Compra um bombom pra ajudar, por favor".
"Não é dinheiro não”.
“EU TÔ COM FOME!".


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Crônica íntima da dor de corno — esta pantera

Num Brasil ideal todo mundo conheceria pelo menos os Versos Íntimos de nosso exótico e genial poeta Augusto dos Anjos.

Nele há dois versos que dizem "Somente a ingratidão — esta pantera — / foi tua companheira inseparável".

Daí para o título desta postagem foi um pulo. Porque, para o chifrudo, o corneado, o chifre é antes de tudo uma ingratidão.

Sim, porque ele a amava taaaanto... Como foi fazer isso com ele?

E isso me veio à cabeça (sem os chifres)  ao passar pelo Largo do Machado e ver um sujeito sentado, tendo ao lado uma caixa de som de onde saíam sons dos CDs que ele vendia, ao preço de 15 pilas.

Não foi a primeira vez que o vi ali. Me parece uma figura envelhecida de alguém que sei que fez sucesso em certa época do passado, mas de quem não me recordo o nome nem os sucessos (outro dia paro pra falar com ele e conto a vocês, mas não hoje).

O que me chamou a atenção foi o refrão da música que tocava enquanto eu passava:

"Tu casaste na igreja
Onde um dia confessou
Que era meu, somente meu
O seu amor"

E aí me veio à cabeça (como um chifre de raciocínio) que não é das grandes causas, dos grandes questionamentos filosóficos, que vêm as nossas grandes dores.

Mas de uma topada com o pé, uma dor de dente, um torcicolo... Uma briga entre irmãos, uma palavra mal falada por um amigo, ou até o chefe, ou colega de trabalho...

Incomodam demais um ascensorista de cara emburrada, um garçom que nos trata como um cliente "inferior", o porteiro que não responde ao nosso Bom Dia.

E também aquela malvada que se casa com outro na igreja onde nos jurou amor eterno.

E eu, separado, me sinto de repente num verso de outro poeta, Fernando Pessoa, "E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído"...

Este mundinho miúdo do cotidiano é enfim aquilo que nos faz partícipes do mesmo mundo, onde a ingratidão (sim, porque sempre achamos que o mundo não nos retribui à altura do que doamos), onde a ingratidão, dizia, é nossa companheira inseparável.

Sofremos por motivos que outros acham ridículos. Mas assim é a vida.

Afinal, cada Napoleão tem sua Waterloo particular.



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A paixão da princesa pelo bobo da corte

Era uma vez um reino com um rei, uma princesa, um bobo da corte, a corte... e o povo, que pagava por tudo aquilo. Ou seja, um reino comum.

Só não era comum ali o Bobo. Era o mais incrível bobo da corte de todos os reinos. Ele cumpria sua função como poucos, pois sabia de todos os podres do reino e os jogava na cara do rei com humor e leveza, a tal ponto que o rei ria toda vez que era chamado de tirano, de explorador do povo.

— Hahaha! Esse Bobo é terrível! — divertia-se o Rei.

Todos — por motivos diferentes, é claro — admiravam o Bobo. Quer dizer, todos menos um, ou melhor, uma — a Princesa.

Única filha do rei, ela estava proibida de assistir às apresentações do Bobo, enquanto fosse menor de idade. Assim, por 17 anos e 364 dias, ela só conhecia o Bobo de ouvir falar. E de imaginá-lo.

A expectativa da chegada do "grande dia" em que poderia enfim assistir ao Bobo que enchia sua cabeça de fantasias era grande.

No dia do aniversário de 18 anos da Princesa houve uma festa formidável no Palácio. Príncipes de países estrangeiros foram convidados, na expectativa real (com duplo sentido) de um futuro casamento de acordo com os interesses do reino — o que significa, na prática, os interesses do rei.

Na hora do Bobo, o Rei fez questão de frisar que ele deveria caprichar, pois aquela era a primeira apresentação para a Princesa.

E o Bobo caprichou. Falou cobras e lagartos e outros répteis do Rei e do reino, principalmente da exploração real (com duplo sentido) da população.

A cada verdade que lhe era lançada na fuça real, o Rei dava gargalhadas.

A princesa não. Ela ouvia coisas que nunca lhe haviam passado pela cabeça. E não via graça nenhuma naquilo. Graça mesmo ela só via no Bobo, como era corajoso, tinha uma voz maravilhosa e além do mais era lindo.

Mais do que tudo, a apresentação do Bobo lhe fez cosquinha num lugar onde ela jamais havia sentido antes. Uma cosquinha gostosa, que crescia quanto mais o Bobo falava e que chegou ao ápice quando ele se ajoelhou à frente dela e disse:

— A Princesa aceita o Bobo em casamento?

Gargalhada geral no Palácio. O Rei chegou a cair do trono de tanto rir e teve de ser levantado pelos puxa-sacos reais, que sempre gravitavam no entorno para recolher algumas migalhas à espera de favores maiores.

A gargalhada foi tão grande que quase ninguém percebeu o êxtase que tomou conta da Princesa, que ela vocalizou em gemidos profundos, cada vez mais intensos, até que desmaiou.

Depois disso, o Rei chegou a pensar em proibir a Princesa de assistir às apresentações do Bobo. Mas ela reagiu com veemência e o Rei cedeu, porque qual pai não cede ao apelo de sua única filha? 

A Princesa não apenas assistia a todas as apresentações do Bobo, como chegou a pedir ao Rei que a deixasse ter encontros particulares com ele.

O Rei chamou então os dois e deu sua autorização real assim:

— Vocês podem conversar sobre tudo, mas nunca esquecendo que a função do bobo da corte é divertir. O Bobo pode tudo, menos falar sério.

No quarto da Princesa, com uma criada supervisionando, o Bobo percebeu que a Princesa estava encantada por ele. E que o efeito que suas palavras de críticas em relação ao reino e às injustiças com a população ("Um reino rico com um povo pobre") pareciam calar fundo no coração da Princesa.

Mas ela só sentia cosquinha naquele lugar que a deixava sem defesas diante do Bobo.

Quando ele passou a fazer mágicas e com elas tocar o corpo da Princesa, para tirar  moedas de seu ouvido, fazer aparecer e desaparecer objetos de suas mãozinhas de princesa, as cosquinhas aumentaram de tal forma que certa vez a Princesa não resistiu e beijou o Bobo.

Os encontros entre a Princesa e o Bobo ficaram cada vez mais calientes. A Criada era colocada de costas no quarto da Princesa, porque assim ela pediu, argumentando que se visse algo teria de contar ao Rei.

Um dia, a porta do quarto se abriu violentamente e entraram o Rei e sua guarda pessoal. A Criada havia confessado o que ouvia ao Rei e este resolveu verificar.

A entrada do Rei pegou o Bobo e a Princesa no meio do ato, com a Princesa cavalgando o Bobo para aumentar e descarregar sua cosquinha.

Com a entrada do Rei com sua guarda houve um silêncio sepulcral após a pergunta real:

— Mas o que é que está acontecendo aqui?!

Era difícil explicar a Princesa cavalgando sobre o Bobo em cima da cama. Tensão.

O Bobo se lembrou do aviso do Rei de que o Bobo pode tudo, menos falar sério, foi rápido e sussurrou para a Princesa uma ordem: "Ria! Ria! Ria!".

E a Princesa começou a rir, rir, rir, e a gargalhar, gargalhar, gargalhar, ainda pulando sobre o Bobo, aumentando a cosquinha, e ria, ria, com tal força que o Rei começou a rir também e com ele a guarda real, todos numa imensa gargalhada.

Assim se passarem os dias que se transformaram em meses, com os encontros entre a Princesa e o Bobo numa paixão avassaladora. 

No reino, a história da paixão da Princesa pelo Bobo era o assunto principal da rádio fofoca, a mais poderosa de todos os reinos.

Quando o Rei soube da notícia, não resistiu, teve um ataque cardíaco e morreu.

A Princesa agora era a Rainha.  

O Bobo ficou feliz. Enfim poderiam se casar e transformar a vida do reino. 

O Bobo disse a ela de todos os planos que tinha para o reino e que tanto a encantavam nos encontros que tinham: a criação de escolas e postos de saúde para a população, uma reforma agrária, uma escuta real (com duplo sentido) dos anseios do povo.

Mas aquilo que encantava a Princesa ofendeu a agora Rainha.

No dia seguinte o Bobo perdeu a cabeça na guilhotina, por haver cometido o único pecado não permitido ao Bobo: o de falar sério. 

Palavras da Rainha.

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Uma história de amor numa garrafa, entre Cortázar e Borges

Não sei por quê, mas a história que vou contar a seguir me lembrou a princípio um conto de Cortázar. Nele, um jovem sai da Argentina e vem para o Brasil, acho que para Pernambuco, trabalhar como engenheiro, se bem me lembro.

A mãe morria de saudades do filho e eles trocavam cartas, ansiosamente esperadas por ela.

Até que o filho morreu, subitamente. A família não sabia como dar a notícia à mãe, muito doente. Resolvem esconder a morte do filho e passam a escrever cartas por ele, que liam para a mãe emocionada e doente.

Isso durou um bom tempo. Até que a mãe veio a morrer também e os outros filhos ficaram sem saber como dariam a notícia ao irmão no Brasil...

Esse conto me veio à cabeça ao ouvir a história de um casal de amigos, na mesa ao lado da minha num restaurante no Centro, enquanto aguardava uma canja de galinha que havia pedido. Eu me recuperava de uma Covid, e estar na rua, num restaurante, sem precisar usar máscara já era uma alegria para mim. Mas, confesso, minha cabeça estava um tanto confusa — talvez reflexo da Covid.

O casal na mesa ao lado conversava sobre uma terceira pessoa, um jovem que seria muito amigo do casal — repito, de amigos.

A jovem contava a seu par que o amigo lhe entregara "este papel" (que ela colocou em cima da mesa), dizendo que o havia encontrado dentro de uma garrafa numa praia de Búzios, onde passara o final de semana.

Era uma história meio inverossímil, quem encontra garrafa com mensagem em praia nos dias de hoje? E quem ainda mandaria mensagem numa garrafa?

Curioso, fiquei acompanhando a história. Segundo comentava a jovem, a mensagem havia sido escrita por um jovem que estava a bordo de um navio de cruzeiro. Nela, ele narrava o drama que vivia. Um drama de amor. Ou melhor, um dilema.

Ela passou a ler a carta e o outro a acompanhava — curioso, como eu.

Em resumo, o autor da mensagem conta que vivia num dilema, pois era apaixonado por sua amiga, que era apaixonada por seu melhor amigo, num estranho triângulo amoroso. Com a diferença que o amigo não sabia da paixão deles. 

O dilema do autor era estar no navio com os dois e ter que tomar uma decisão. Porque o amigo objeto da paixão da amiga havia terminado um relacionamento recentemente. A amiga achava que aquela era oportunidade de se declarar a ele e pedia a opinião do amigo.

Parece confuso, como são confusos os triângulos amorosos.

Vou dar nome aos personagens então. A jovem da mensagem se chamava, vamos supor, Maria; o autor, Pedro; e o objeto da paixão, João.

Maria queria a ajuda de Pedro. Que ele informasse a João do interesse dela, ao menos para sondar.

O caso é que Pedro não poderia fazer essa pergunta a João, pois sabia a resposta. João também gostava de Maria, mas não se declarava porque sabia da paixão de Pedro por ela.

Mas Pedro não poderia ficar assim indefinidamente. E resolveu que tomaria uma decisão: contaria a João da paixão de Maria por ele. Ou contaria a Maria de sua paixão por ela.

O dilema era esse. Ele "sabia" da paixão de Maria por João. Então, por que se confessaria a ela, em que isso ajudaria no caso?

Mas, também, como aproximar os dois e assim  fechar para sempre as portas de Maria para ele, já que uniria o casal?

Escreveu sobre sua angústia e colocou-a dentro de uma garrafa vazia de limoncello (que ele esvaziara) e a lançou ao mar, na esperança de que algum dia ela daria numa praia onde alguém leria sua mensagem, o que lhe trazia um certo conforto.

Estava tão desesperado que anotou: "Quem estiver lendo esta mensagem viverá num tempo em que tudo isso já terá passado, inclusive minha angústia. E isso me basta.".

A jovem da mesa ao lado perguntou então ao jovem à sua frente o que ele achava daquilo tudo? Por que o amigo comum deles lhe entregou aquele papel com aquela estranha mensagem, que teria vindo de uma garrafa lançada ao mar?

Nesse instante chegou a minha canja. O garçom se postou entre mim e o casal e começou a falar, impedindo que eu os visse ou escutasse o que diziam.

Pedi ao garçom que deixasse a travessa, pois eu mesmo me serviria, e resolvi interromper o casal — antes pedindo licença pela intromissão.

— Acho que foi a maneira que o amigo de vocês encontrou — rocambolesca, hiperbólica — para dizer aos dois o que deveria ter dito de Maria a João: o amor de um pelo outro.

Foi quando me dei conta de que realmente a Covid trouxe um tanto de confusão a minha cabeça: a história estava mais para Borges do que para Cortázar.


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'Perdoai, Senhor, mas eu vou cheirar — ô, ô — o teu Suvaco até o dia clarear'

Há quem já nasça folião. Se pudesse andar ou mesmo engatinhar, sairia da maternidade de fralda e tudo e se encaixaria no primeiro bloco que passasse. 

Tem gente que não. Sou desses. Nos últimos anos meu Carnaval se resume a postar a imagem que ilustra esta crônica nas redes sociais.

Mas nem sempre fui assim. Embora, usando de "subterfúgios", participei de muitos carnavais, criado até sambas para grandes blocos aqui do Rio.

Como por exemplo o Bloco de Segunda, que desfilou com um samba em que eu era um do autores, há muitos anos, e que tratava de ecologia, um samba cheio de duplo sentido, cantado como se fosse por um gringo:

"Ecologia é O moda, minha tia,

O gringalhada quer acabar nossO nação,

eu tinha um paca umA tatu e um cotia,

comeram O paca, mas o meu Cotia não!".

Fiz um também para o Suvaco do Cristo (com U mesmo o sovaco), nos anos Sarney, quando perdemos na final para um ótimo samba do Lenine que dizia "Se não melhorar eu vou vender goma de mascar numa esquina de Moscou".

O meu (com outros parceiros) denunciava a situação do país sob o sufocante "pacote do Sarney", tinha uma levada de samba-enredo tradicional:

"Nesse cenário tropical — tropical

Numa epopeia triunfal

O Suvaco do Cristo vem contar

a batalha do Bem contra o Mal — contra o Mal

Desde tempos imemoriais

Através de Judas e Satanás — Satanás

O Mal sempre se fez representar

pelos piores tipos de que foi capaz

Mas não houve na História

Nos compêndios não há memória

nunca existiu  Nunca se viu

canalha igual a essa gente 

que naufraga o Brasil — que os pariu!

Matam Chico Mendes na Amazônia,

queimam matas, secam rios

e poluem nosso ar

Presos num pacote sufocante

só o ar do teu Suvaco é possível respirar — ô, ô, ô, ô

Presos num pacote sufocante

só o ar do teu Suvaco é possível respirar

Perdoai, Senhor, mas eu vou cheirar — ô, ô

O teu Suvaco até o dia clarear!

Perdoai, Senhor, mas eu vou cheirar — Eu vou

O teu Suvaco até o dia clarear!"

Essa era a minha fantasia: a de que eu adorava Carnaval, era um tremendo folião.

Tímido, enchia a cara e pulava desengonçado no meio do salão, desfilando minha magreza e timidez embriagada.

Na minha adolescência, ainda havia os bailes de clubes. Viviam lotados. Cinco bailes noturnos, de sexta a terça, e duas matinês, aos domingos e terças. Eu ia a todos. Com fantasias de pareô, sarongue, ou sei lá que nome tinha aquilo, pois ficava tão doidão que me esquecia de lembrar.

Mas tudo aquilo era fantasia, não era amor pelo Carnaval. Na verdade o que eu queria era beijar na boca aquela pirata , aquela havaiana, aquela odalisca, aquela baianinha, aquela fantasia...

Nesses bailes valia de tudo para virar folião: álcool, bolas, drogas, lança-perfume, cheirinho da Loló (que porra seria isso que a gente cheirava e ficava completamente doidão, a ponto de às vezes embicar no salão?)...

A doideira era tanta, que uma vez todo o Carnaval não foi o bastante. Houve um ano em que eu e um grupo de amigos resolvemos sair do baile de terça-feira, na madrugada de quarta, diretamente para a casa de um amigo em Muriqui, cidade litorânea perto do Rio.

Devia ter 13, talvez 14 anos. Pegamos o trem até a estação de Deodoro e depois a litorina (um tipo de trem mais sofisticado que já não existe mais) para Mangaratiba e que nos deixaria umas estações antes, em Muriqui.

Chegamos já dia claro. Mas não havia ninguém na casa, batemos com a cara na porta. Havíamos feito a loucura de viajar sem ao menos nos informar se o amigo estaria ou não em Muriqui. Coisa de adolescente.

Aquele talvez tenha sido o mais longo dos dias. Uma quarta-feira de cinzas de ressaca, com um sol de rachar, na areia da praia de Muriqui, sem grana, tendo que esperar dar 18 horas para pegar o trem de volta .

Isso tudo só valeu a pena e me vem sempre à memória graças a uma imagem felliniana. Um grupo de freiras, havia certamente mais de 20 delas, com seus trajes completos, tomava banho na praia e mergulhava com aquelas roupas e véus .

Ficou marcado para sempre na minha memória. E hoje, penso, seriam mesmo freiras ou um grupo de pessoas fantasiadas de freiras? Nunca vou saber. Coisas de Carnaval . Quando tudo pode acontecer.

Tenho um conhecido, um sujeito sério, que não bebe uma gota de álcool, um copo de cerveja, uma taça de vinho ou champanhe — nem para comemorar um bom negócio ou uma data festiva.

Mas no Carnaval ele se transforma em outra pessoa. Veste-se de mulher, enche a cara na sexta à noite e vai assim de bloco em bloco, de bar em bar, de rua em rua,  só voltando pra casa na quarta-feira de Cinzas, trêbado, quando aí tira a fantasia e volta a ser o sujeito normal, que vai se comportar direitinho até o próximo Carnaval.

Talvez esteja aí o grande barato, o segredo do verdadeiro espírito carnavalesco: a maior fantasia de carnaval é a de Folião. 

Bom Carnaval!

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Aquele velho amor do passado... outra vez

Há tempos não se viam. Para ser preciso, vinte anos, dois meses, dezoito dias e — caso usasse relógio ou olhasse o celular — três horas e doze minutos, desde aquele dia em que ela chorou desesperadamente, lágrimas saltando,  — e ele, não — e pôs um ponto final na história deles para sempre.

Ficaram anos juntos — anos da passagem da adolescência para a vida adulta — e aquela separação 0 colocou de frente com uma nova realidade.

Nunca fora "apaixonado" por ela; achava mesmo que nem gostava muito dela. Era um namoro de circunstância, provocado por ela, que o parou na praia, se apresentou, e desde aquele dia em diante, até o do fim, ficaram juntos.

Mas aquela separação de surpresa trouxe a ele uma revelação surpreendente: era louco por ela. Louco mesmo. Como nunca havia percebido isso?

Mas isso tudo já não importava. Agora, tanto tempo depois, ela o reconheceu, encontrou em algum lugar dele aquele amor dela de há mais de vinte anos (dois meses, dezoito dias e três horas e agora quinze minutos).

Ela estava muito feliz, o abraçou com força, como fazia antigamente, e a sensação que ele teve foi de que o tempo não havia passado. Eram dois rolos de um filme que foram unidos na mesa de montagem, e a vida seguia como se nunca houvesse a separação. Era assim que sentia.

Ela falava e sorria, com um sorriso tão especial dela, e ele a ouvia, mas, ao mesmo tempo, contabilizava os mortos no tempo passado.

Quando ela disse "vamos a algum lugar?", ele pensou que quase todos os lugares que frequentavam não existiam mais. O Rick, onde comiam crepe. O Helsingor, de comida dinamarquesa, onde ele comia tartar com cebola frita. O Salsichão Alemão, do chili com carne. O Luna's Bar, onde tomavam chopes — melhor, ele tomava, grande parte do tempo em que namoraram ela era menor de idade. 

Não existem mais também o Chaika, o cinema Miramar. Tanta coisa que fazia parte da história dos dois e que passaram pela cabeça dele, enquanto pensava numa resposta para a pergunta dela.

Estava assim tão atônito que, quando percebeu, se viu sentado no banco do carona, com ela ao volante, exatamente como era. Ele sempre admirou a destreza dela ao volante. Andava a toda velocidade, descobria atalhos no trânsito, e apertava firme o acelerador com seus pés mínimos — calçava 34, e logo veio à cabeça dele o dia em que estavam num barzinho que já não existe mais nem em sua memória, com as paredes feitas de cascos de garrafas, em que ela, com ciúme de uma amiga que o cumprimentou à mesa, lhe deu um chute forte na canela com uma botinha que ele lhe dera.

Estavam na festa de aniversário de uma amiga. "Não, não é festa, é só uma reuniãozinha, dou um beijo nela e a gente sai", quando ele não estava ligando para nada daquilo, feliz com aquele encontro e com o que estava acontecendo, como não se sentira nunca antes.

De repente, um grupo se dirige a eles, que estavam um pouco à parte na festa. Um dos jovens traz dois pedaços de torta. Oferece um a ela e o outro coloca em suas mãos, impondo não só a fatia de torta como sua presença. 

Eles não se conhecem e ele não simpatiza com o jovem de cara. Logo, chegam outros atrás dele, falam alto, riem mais alto ainda. E ele sente que andaram fazendo uma brincadeira em algum lugar... Todos são jovens, como ele e era foram.

Até que o jovem que ofereceu a torta pede que ele feche os olhos.

Ele olha pra ela. Ela também ri, como quem diz: participa, assim eles vão logo embora. 

Ele entra no jogo. Por ela. Fecha os olhos. Escuta-o dizer: conta até dez. 

Ele vai contando, enquanto pensa no que farão. Não vê a hora de ficar sozinho com ela novamente. Mas, antes precisa passar por essa prova. E pensa: o que farão?

Vão tirar a torta? O que colocarão no lugar? O quanto será feito de idiota, apenas para poder ficar novamente a sós com ela?

Até que diz "dez", e abre os olhos. Se quiserem pegar a torta, que peguem.

Mas não foi só a torta que o jovem pegou. Foi a festa toda. Inclusive ela.

Estava sozinho em casa. Há vinte anos, dois meses, dezoito dias e... 

Pra que contar?

O amor tem dessas coisas.


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Ele, ela e Justin Bieber. O Amor Tem Dessas Coisas

Tudo poderia ter acabado ali, na primeira frase. No máximo na segunda. A primeira:

— Já vi que eu tenho alguma chance — ele disse, com um leve sorriso, entre cínico e simpático — ela que escolhesse.

Mas ela não entendeu e ele precisou repetir:

— Já vi que tenho chance...

— ?

— O cachorro... feio pra c@r@lh* seu cachorro... 

Ela ficou desconcertada. Não sabia se ficava ofendida, em resposta ao risinho debochado e à fala depreciativa dele sobre seu cachorro, ou se, no fundo, concordava com ele. O cãozinho que era tão lindo no começo, quando filhotinho, cresceu e ficou assim com essa cara desconcertante, focinho e crânio numa mesma linha.

Aliás, esse era seu sentimento também em relação ao antigo namorado, Evandro, uma gracinha no início, mas depois e sempre imaturo, sem querer se responsabilizar por nada, uma eterna criança. Namoraram dois anos, até que ela se encheu. Ficou o cachorro.

Lembra que eu disse lá em cima que tudo poderia ter acabado na primeira frase, ou na segunda? Prepare-se para a segunda. Primeiro a preparatória:

— Como é o nome?

— Marcela.

A segunda:

— É fêmea?!...

— Ah, você perguntou do cachorro... Não, é macho. Justin Bieber.

— Que gracinha! Amigão!

E ele se pôs a fazer carinho no Justin Bieber, que sempre foi de poucos amigos, mas com ele, estranhamente, rebolava, abanava o rabo.

—Sempre o vejo com seu namorado...

— Não é namorado... nem marido...

— Irmão?

— Passeador... O Justin é muito ativo, precisa de exercício, e eu não tenho tempo e...

Ele interrompe:

— Se quiser eu passeio com ele. Tenho tempo livre. Gosto de andar, correr, me exercitar...

Ela estava desconcertada com aquele cara à sua frente, que não parava:

— Aonde você estava indo? Só passeando?

— Não, eu ia comprar ração pra ele na Pet.

— Posso ir com você? Me deixa levar o Amigão na coleira?

Ela, num gesto automático, passou a guia da coleira para ele e observou os dois irem à sua frente, como se fossem dois antigos e grandes amigos, saltitantes e alegres.

Mais uma vez Marcela não sabia como agir, nem mesmo como estava se sentindo. Era um misto quente de desconcerto e alegria. O cara era estranho — era, e muito —, mas parecia boa gente, e gostava do Justin, se comprometeu a passear com ele... Será que falava sério?

Na saída da loja, com o pacote da ração na mão, ele a convidou para comerem um sanduíche no barzinho da esquina, pet friendly. Finalmente ela conseguiu saber seu nome: Pedro.

O namoro dos dois começou nesse dia e a expressão pet friendly era uma das mais usadas por ele. Só aceitava ir a lugares em que o Amigão (sempre chamava Justin Bieber assim) pudesse ir junto.

Aliás, quase tiveram uma primeira briga naquele barzinho, no primeiro dia, quando ele partiu um pedaço do filé de seu sanduíche e lançou para Justin, que o traçou em segundos e queria mais.

Ela reagiu, pediu que não fizesse aquilo, que Justin só comia ração, mas ele insistiu, deu mais um pedaço de carne para o Amigão, "para isso eles têm os caninos, rasgar a carne, eles não servem de nada com as rações".

Iam à praia, e ele só queria ir à praia do Diabo ("é pet friendly"), onde ficava arremessando longe uma bolinha de borracha para o Amigão correr e trazer satisfeito da vida. Ela nunca vira Justin Bieber tão feliz. Só faltava cantar...

Mas ele não tratava bem apenas ao cachorro. Trazia sempre presentes para ela, era carinhoso, gentil, atencioso. Especialmente nas horas em que o cachorro estava dormindo.

Tão diferente de Evandro, que lhe dera Justin Bieber, um eterno adolescente, que só queria saber de surfar, não pensava em responsabilidades ou futuro, porque não precisava — o pai era banqueiro. 

Estavam separados há dois anos, mesmo tempo que haviam namorado. No entanto, parecia que havia séculos... Até que...

Um dia ela ouviu uma voz conhecida chamar seu nome. Olhou para trás e confirmou: era Evandro. Mas ele estava de terno, todo alinhado. Foram tomar um café.

Difícil foi contar a Pedro no outro dia. Como dizer a ele que Justin Bieber, seu Amigão, estava agora num novo lar: o sítio de Evandro em Saquarema? Passaram o dia juntos, depois do café. Evandro lhe contou como estava sua vida, agora que trabalhava no banco ("Mas você não deveria estar lá?", ela. "São as vantagens de ser filho do presidente", ele).

Ela o achou mais maduro, mas ainda com o espírito alegre de antes, que sempre a encantara. Numa hora ele perguntou pelo cão. Quando ela disse que ele estava bem, embora o apartamento fosse pequeno, se ela morasse numa casa, "cachorro precisa de espaço"...

Foi quando ele falou do sítio, se ela não queria conhecer... As coisas foram acontecendo e, quando ela viu, estavam os três chegando ao sítio em Saquarema, poucas horas após terem se reencontrado depois de dois anos separados.

Pedro deveria ter entendido logo de cara que havia ou poderia haver algo mais ali, além do "roubo" (ele sentiu assim) do Amigão. Mas estava tão abalado com a perda do amigo que engoliu em seco e seguiu a vida.

Mas o namoro com Marcela não era mais a mesma coisa. Ele sentia que os três formavam uma família. Que já não havia mais.

Um mês depois, num sábado pela manhã, após não terem se encontrado na noite anterior, Pedro recebeu uma ligação de Marcela.

Em resumo, ela lhe disse que o Amigão estava causando problemas no sítio, brigava com os outros cachorros, não havia se adaptado. 

— Não quer ficar com ele pra você? É só pegar no sitio.

— Claro! Claro que eu quero! Vamos lá?

— Eu já estou aqui — ela disse. 

Ele compreendeu tudo.

Pedro parou o carro diante do sítio de Evandro em Saquarema, deixou a porta aberta e o motor ligado. Não pretendia demorar. E gritou:

— Amigão! Amigão!

Latidos, ganidos, e de repente o Amigão vem correndo, pula sobre ele, rebolando e abanando o rabo de felicidade, e já salta para dentro do carro, como gostava de fazer, indo para seu lugar no banco de trás.

Marcela apareceu com Evandro.

— Não quer entrar?

Pedro sorriu:

— Não, aí não é pet friendly pro Amigão.

Ela sorriu. Sempre o achou assim meio desconcertante, desde o dia em que se conheceram.

O amor tem dessas coisas.


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