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O dia em que minha Madame Bovary vai ao consultório de um massagista esotérico-sexual, e por quê

A seguir, mais um capítulo de meu romance Madame Flaubert, publicado pela Publisher em 2013, há exatos dez anos.

O romance narra a tentativa de um aspirante a autor de fazer um romance tão importante quanto o de Flaubert para a Literatura. Para isso ele transplanta Emma Bovary para a Tijuca, bairro de classe média da Zona Norte do Rio de Janeiro, no período entre o anúncio da vitória e o impeachment de Fernando Collor de Mello.

20.
Lauro F. é químico, e trabalhou unicamente, desde que saiu da faculdade, na estatal Upabrás. Tem 52 anos, dois filhos, esposa, e uma vergonha enorme da vida que viveu até cinco anos atrás, quando se aposentou. Nesse dia, avisou à mulher que o marido, o cidadão exemplar e certinho, aposentava-se junto com o químico. Correria atrás de seus sonhos, fossem eles quais fossem - até isso era preciso descobrir, tantas concessões havia feito. Matriculou-se em todos os tipos de cursos: fotografia, gastronomia, teatro, magia, acrobacia, desenho, astrologia, teledramaturgia - onde conheceu o grupo de “roteiristas”. Procurou-se em várias terapias, muitas ao mesmo tempo: bioenergética, neuro-linguística, psicanálise individual e de grupo. Visitou templos. Fez viagens e teve experiências esotéricas. Acabou, ao fim de tudo, montando em segredo - ninguém, nem sua mulher sabe disso - um pequeno consultório, numa pequena sala, num centro médico em Botafogo, onde se transformou em Ananda, por ele mesmo definido como um "massagista esotérico-sexual, que transforma as potencialidades erótico-religiosas em ação". Sua clientela é, em sua maioria, formada por mulheres de classe média, média alta e alta, casadas, idade entre 35 e 50 anos.
    Madame B. é uma delas. E esta noite ela está particularmente tensa, necessitando da massagem de Ananda. Deveria ter ligado para Marina - ali-ás, o marido tem certeza de que ela já o fez. Mas, e a coragem? Como falar com Marina sem se sentir humilhada, apequenada? Precisa dessa massagem. Amanhã pela manhã, sim, já completamente refeita pelas mãos mágicas de Ananda, pegará o telefone e ligará para a casa dela.  
    Com esses pensamentos, Ema entra no pequeno consultório de Anan-da, decorado com aqueles objetos comumente encontrados em lojas de artigos indianos: imagens de Buda, Krishna, incensórios, cristais... Após tirar toda a roupa, cobrir-se com uma toalha branca e deitar-se de bruços sobre uma maca coberta por uma colcha com motivos orientais, ela busca relaxar, enquanto aguarda a entrada do massagista. Conta que, hoje, como das vezes anteriores, a massagem lhe devolva a tranquilidade e a firmeza necessárias para continuar suportando tudo. Tem uma confiança, mais que isso, fé, em Ananda. Que ele seja Lauro F. e faça parte daquele "grupo de bêbados e desocupados, que você chama de roteiristas" - na análise cruel que várias vezes externou ao marido -, madame B. não sabe ou suspeita - no que, aliás, não está sozinha. Nem à própria esposa Lauro F. informou sobre a existência de Ananda.
    Uma música suave, o som de uma cítara, inunda o ambiente. Ananda entra, concentradíssimo, as mãos postas junto ao peito nu. A melhor maneira de descrever sua indumentária é associá-la a uma outra: veste-se, unicamente, com um fraldão de neném, com a estranha peculiaridade de um rubi - ou a imitação de um -, do tamanho de uma noz achatada, com aproximadamente cinco centímetros de diâmetro, encravado bem no fim da coluna cervical, um pouco abaixo, exatamente sobre aquele lugar em que você está pensando. Ele aproxima-se de Ema e começa a emitir uns sons indecifráveis, como os de um mantra oriundo de outro planeta, enquanto retira a toalha branca, admira aquele corpo nu à sua frente e passa a massageá-lo.
    - Ah, Ananda, sua massagem é divina! - madame B., sem ao menos se virar para certificar-se de que era o próprio. Se um estranho entrasse na sala e começasse a manuseá-la, ela provavelmente não notaria.
    Ananda começa a massagear a bunda ainda rija de madame B.
    - Quando eu passo as minhas mãos por essas suas duas montanhas, Ema, me sinto como um esquiador... um esquiador ferido que descesse suas montanhas de neve... Você tem o corpo tão frio!... E eu estou ferido e excitado, descendo suas encostas... e com meu sangue, que escorre do ferimento, vou esquentando seu corpo... lentamente... Lentamente a neve começa a se derreter... e o esquiador vai caminhando por suas costas... até o pescoço... e volta novamente aqui ao Muladhara Chakra, no fim da coluna cervical, para estimular a sua Kundaline, a energia feminina que distribui energia para todos os outros chakras... Por isso eu uso esse rubi aqui atrás... o rubi e o dourado são as cores da energia desse chakra...
    - Você acha mesmo o meu corpo frio? - ela, sem se virar, nunca olhando para ele, como se aquela voz e aquelas mãos fossem parte de sua fantasia.
    - O Muladhara Chakra se relaciona à vida sexual e à vida material... você se preocupa muito com um aspecto e abandona o outro... O meu trabalho é estimular esse aspecto abandonado, por isso o esquiador dá seu sangue para Kundaline... e a neve se derrete... e o corpo fica quente...


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Todo dia de manhã quando acordo e vou ao banheiro tem um velho olhando pra mim no espelho

Todo dia de manhã quando acordo e vou ao banheiro tem um velho olhando pra mim no espelho. Não falta um. Às vezes mais velho, cansado; raramente sorridente, animado; sempre olhando pra mim nos meus olhos, como se me quisesse dizer um segredo ou arrancar um de mim.

Às vezes, penso em confrontá-lo. Por que me olha todas as manhãs, o que pretende se ainda nem acordei direito, não escovei os dentes? Por que invade minha intimidade com seu olhar inquisidor — sim, muitas vezes inquisidor?

Outras vezes observo seu rosto com cuidado. Algo ali me lembra de mim, só que bem mais velho. Meus cabelos cheios, castanhos e ondulados, nele são ralos, lisos e grisalhos, quase brancos.

Os olhos também, com duas bolsas pendentes. O nariz parece maior, a testa cheia de rugas.

O que será que o preocupou (preocupa?) tanto na vida? E o que em mim parece procurar resposta todas as manhãs?

Tem o hábito de me fazer sombra. Tudo o que faço imita. Mexo a cabeça para o lado, ele acompanha. Tento enganá-lo, fingir que vou virar para um lado e virar para o outro, mas ele não cai nessa. Nunca. É bom nisso, tenho que reconhecer.

Pelo menos essa mania dele me ajuda a fazer a barba. Mais ainda: me incentiva a fazê-la. Quando o vejo com a barba crescida, a aparência de mais velho ainda, um ar de cansaço, decido que não quero isso pra mim e busco a espuma de barbear e o aparelho.

Aí também ele me ajuda. Faço a barba e ele repete meus movimentos com precisão. Assim, consigo enxergar onde ainda pode ser melhorado, o que faço também com ajuda das mãos. Passo a mão no rosto na direção oposta à dos fios e sinto o quanto ainda devo melhorar para que o rosto fique liso, imberbe, como já tive. 

Me lembro até da época em que não tinha barba alguma e usava o aparelho do meu pai, daqueles antigos com uma lâmina de barbear mesmo, porque diziam que isso incentivava o crescimento dos pelos.

Se soubesse que fazer barba iria ser tão chato, jamais teria perdido meu tempo tentando fazê-la crescer. E o homem do espelho parece concordar comigo, já que invariavelmente está com a barba por fazer, como eu.

Dou um sorriso cúmplice para ele, que corresponde. Sim, amigo, achamos chatas as mesmas coisas, mas me preocupa vê-lo sempre assim pela manhã me olhando meticulosamente, como Nietzsche para o abismo.

Um dia minha filha entrou no banheiro e me cumprimentou com um beijo no rosto. O velho sorriu, feliz, como eu. Mas uma coisa eu estranhei: minha filha também tinha uma pessoa no espelho, só que a dela era uma cópia dela e o meu é tão mais velho que eu... Por quê? 

Aquilo me intrigou. Desde esse dia tento com ele uma resposta a essa pergunta. Mas ele apenas me olha, não diz nada.

Pergunto a ele o que quer. Ele me devolve com o olhar a pergunta. 

Me habituei de tal modo com sua presença que já me peguei imaginando o que aconteceria se um dia eu chegasse e não o encontrasse no espelho.

O velho.


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