sábado, 8 de agosto de 2020

'Nossa maior contribuição para a ciência da pandemia está sendo mostrar ao mundo o preço da omissão diante de uma crise sanitária'


Coluna de Natalia Pasternak, microbiologista, presidente do Instituto Questão de Ciência, pesquisadora do Instituto de Ciências Biomédicas da USP e autora do livro "Ciência no Cotidiano" (ed. Contexto). Hoje em O Globo.
Brasil, cobaia do planeta
Quando fazemos um teste clínico controlado e randomizado, o padrão ouro para determinar se um tratamento ou medicamento funciona, sempre usamos grupos de comparação. Um grupo recebe o tratamento que queremos mesmo testar, e outro recebe um placebo — uma imitação de tratamento — e às vezes usa-se um “controle negativo”, um grupo que não recebe nada.
Esse tipo de teste vem sendo usado não só para testar medicamentos, mas também em intervenções sociais e de políticas públicas. O time agraciado pelo Prêmio Nobel de Economia de 2019 foi justamente responsável por gerar grande parte do conhecimento nessa área, mostrando que grupos randomizados, ou seja, distribuídos de forma aleatória, são um bom modo de avaliar intervenções sociais. Os nobelistas registraram casos em que a lógica da randomização e uso de controles permitiu decidir qual a melhor forma de resolver problemas em áreas como educação e saúde pública.
Para saber quais intervenções funcionam melhor contra uma pandemia, teoricamente testes randomizados seriam uma ótima solução. O problema é bastante prático: não é ético selecionar povos inteiros ao acaso, decidir que estes serão grupos de intervenção, que devem implantar medidas de segurança, e estes outros serão grupos controles, e devem deixar o vírus correr solto. No entanto, quando grupos controle se formam por acaso — ou por incompetência — temos o que alguns teóricos chamam de “experimento natural”. Considerando que as medidas a serem testadas são as quarentenárias de prevenção — uso de máscaras, higiene, distanciamento físico e social, isolamento dos doentes e rastreamento de contatos —, podemos comparar países que as implementaram, a outros que não. Sabemos que os países que tiveram sucesso no combate à pandemia foram justamente os que implantaram essas medidas cedo, com lideranças transparentes e honestas em sua comunicação. Assim foi o caso da Alemanha, Coreia do Sul e Nova Zelândia, que agora podem reabrir com segurança.
No grande experimento natural da pandemia, o Brasil chega a 100 mil mortos como um dos grupos de controle. Não um controle perfeito, porque parte da população e algumas administrações locais tentam fazer um bom trabalho. Mas a esfera federal fez, e faz, tudo o que pode para que sejamos a melhor combinação de controles placebo e negativo já vista. O Imperial College de Londres, tão criticado em certos círculos por ser, diziam, “alarmista”, tentou modelar os números da pandemia de acordo com o comportamento de governos e populações. Previu que, adotando todas as medidas recomendáveis, o Brasil poderia terminar a pandemia com 44 mil mortes. Com placebos como cloroquina, ivermectina e, agora, ozônio, já mais que “dobramos a meta”.
Nossa maior contribuição para a ciência da pandemia está sendo mostrar ao mundo o preço da omissão diante de uma crise sanitária. Somos, por graça de Jair Bolsonaro, as cobaias do planeta.




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