sábado, 22 de agosto de 2020

Novamente militares puxam brasa para sua sardinha. Quase quebraram Brasil na ditadura. Agora querem completar o serviço


Na linha do governo Bolsonaro, que já afirmou que antes de construir o que ele pretende é desconstruir o Brasil, os militares estão no poder para auxiliá-lo em seu projeto.

Novamente no poder (como anunciei aqui, com 15 dias de governo Bolsonaro: Bolsonaro dá um autogolpe e militares voltam ao poder 55 anos depois de golpe de 64 ), militares avançam gulosamente sobre o Orçamento do Brasil e, no ano que vem, já conseguiram mais do que o reservado para o Ministério da Educação.
O governo de Jair Bolsonaro prevê reservar R$ 5,8 bilhões a mais no Orçamento do ano que vem para despesas com militares do que com a educação no País. A proposta com a divisão dos recursos entre os ministérios está nas mãos da equipe do ministro da Economia, Paulo Guedes, e deve ser encaminhada até o fim deste mês ao Congresso. Caso confirmada, será a primeira vez em dez anos que o Ministério da Defesa terá um valor superior ao da pasta da Educação.  [Estadão]
Atualmente, para combater invasões de terra, incêndio e desmatamento na Amazônia, os militares abocanharam a maior parte do Orçamento, administrado pelo vice Mourão, em detrimento do Ibama. O resultado é o que o mundo está vendo: incêndio recorde, mineração e garimpagem comendo solta e os punidos são fiscais e diretores do Ibama.

Deram ainda ao sinistro Ricardo Salles (que tem como sua qualificação para ser ministro do Meio Ambiente o fato de ter sido condenado por desrespeitá-lo) um álibi: sempre que perguntado sobre a Amazônia responde: pergunta ao Exército.

Artigo publicado na Folha hoje pelo professor da New York University Shanghai (China) e da Fundação Dom Cabral, e doutor em economia pela UFRJ, Rodrigo Zeidan, historia em poucas palavras a desastrosa (para os civis, mas lucrativa para eles) administração militar no país: 92% dos gastos militares do Brasil não são em equipamentos ou estudos, mas em soldos e pensões para os militares da ativa e da reserva.

O mito dos gestores militares

Treinados para a guerra, os militares vão conseguir derrotar seus inimigos na batalha pelo Orçamento: a população brasileira.
Hoje, o capitão está para continuar nossa grande tradição de ignorar os problemas reais e inventar inimigos imaginários, propondo um orçamento para a Defesa maior que para a educação.
Em 2018, o orçamento para a Defesa totalizou R$ 77 bilhões, dos quais R$ 67 bilhões foram executados. O governo de extrema direita não se fez de rogado, e, em 2019, com a economia crescendo 1% e a inflação baixíssima, o orçamento saltou para R$ 85 bilhões, dos quais R$ 75 bilhões foram executados, aumento de mais de 10%.
Pior: gastamos em tecnologia, manutenção e pesquisa? Não, 92% dos gastos são com pessoal da ativa e da reserva.
Tanto na época do golpe quanto no governo do capitão não há preocupação com a melhoria da economia ou real defesa do país, mas simplesmente uma busca por maiores soldos.
Durante as três primeiras décadas do século passado, as Forças Armadas representavam 22% das despesas públicas. Obviamente, esse percentual aumentou durante a Segunda Guerra Mundial, com pico de 37% em 1942.
Em 1963, sem inimigos externos (a não ser imaginários), gastávamos 16% do orçamento dos ministérios com defesa nacional. Mas a ditadura avançou sobre os cofres públicos. Em 1965, os gastos com as Forças Armadas já tinham saltado para 22% do Orçamento total. Oito anos depois, no auge da megalonamia do “milagre econômico”, as Forças Armadas recebiam 44% do total despendido pelo governo federal; o Ministério da Educação ficava com 10%.
Infelizmente, como os militares saíram pela porta da frente e parte do governo coincidiu com o ciclo natural do processo de industrialização, inventou-se por essas bandas a ideia de um “milagre econômico”, de 1968-1973, no qual a economia brasileira teria crescido a 11% ao ano. Cresceu mesmo, mas no contexto do maior crescimento da história do sistema capitalista no mundo (8% ao ano) e através da formação da dívida externa, que afundaria o país por quase 20 anos.
Os militares nunca foram bons gestores da economia. Surfaram a onda do crescimento mundial, enquanto gastavam como bem entediam. E isso sem nenhuma preocupação com pobreza ou desigualdade social.
A dívida externa começou a crescer a 20% ao ano já em 1964. Pegaram um país com dívida de US$ 3 bilhões (14% do PIB e dois anos de exportações) e entregaram algo impagável (mais de US$ 100 bilhões, 45% do PIB e quatro anos de exportações). O golpe de mestre foi culpar a crise externa e o FMI (Fundo Monetário Internacional), empurrando a conta para os governos seguintes.
Mas a realidade é que os militares lideraram processo de crescimento baseado em pirâmide financeira —pegavam novas dívidas para pagar os juros das anteriores, até que, em 1980, o choque Volcker acabou com a farra.
Paul Volcker, chefe do Fed, decidiu, numa tacada, acabar com a inflação americana jogando os juros nas alturas (a taxa básica chegou a 20%). O Brasil foi pego com as calças arriadas. Sem crédito, não tinha como pagar os juros da dívida. Logo vieram o calote e a hiperinflação.
Infelizmente, não aprendemos com a história. Encher de militares, mesmo que da reserva, o governo e validar o aumento do orçamento das Forças Armadas vai acabar mal, de novo.
É hora de abandonar o mito: os generais não conduziram bem a economia no passado e nem hoje saberiam fazê-lo.



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