terça-feira, 8 de dezembro de 2020

A qualquer momento: 'Vibra uma trepidação no solo; e a boiada estoura' - Euclides de Cunha


Muita gente acha que a aglomeração em festas e praias e compras para o Natal pelo Brasil afora é sinal da irresponsabilidade e alienação do nosso povo. 
 
Pode ser. Mas também pode ser apenas o canal primeiro que o povo está encontrando para expressar sua insatisfação com o momento louco que estamos vivendo, com a pandemia voltando a crescer, e um governo errático e criminoso, sem ação, e quando ela há é contrária ao que determina a ciência.
 
A forma primeira de extravasar a energia represada, um "ligar o foda-se", dar um louco diante do excesso de más notícias: além da pandemia, que já matou mais de 170 mil brasileiros, há queimadas, fim do auxílio emergencial, desemprego recorde, inflação, com subida de preços especialmente de ítens básicos.
 
Mas nem as festas, as praias ou as compras vão resolver os problemas. Sempre haverá segunda-feira e Quarta-feira de Cinzas lembrando que os problemas continuam aí. E piores a cada dia.
 
Num dia, alguma coisa pode dar o sinal, como aconteceu com os famosos 20 centavos, e o estouro da boiada pode acontecer. Essa boiada que somos todos nós, não apenas os bolsomínions; todos nós que assistimos, uns reclamando e denunciando, outros não, o governo genocida destruindo nosso país sem tirá-lo de lá.
 
Euclides da Cunha descreveu assim o estouro de uma boiada. Que pode estar vindo aí.
Segue a boiada vagarosamente, à cadência daquele canto triste e preguiçoso. Escanchado, desgraciosamente, na sela, o vaqueiro, que a revê unida e acrescida de novas crias, rumina os lucros prováveis: o que toca ao patrão e o que lhe toca a ele, pelo trato feito. Vai dali mesmo contando as peças destinadas à feira: considera, aqui, um velho boi que ele conhece há dez anos e nunca levou à feira, mercê de uma amizade antiga; além, um mumbica claudicante, em cujo flanco se enterra estrepe agudo, que é preciso arrancar; mais longe, mascarado, cabeça alta e desafiadora, seguindo apenas guiado pela compressão dos outros, o garrote bravo, que subjugou, pegando-o, de saia, e derrubando-o, na caatinga; acolá, soberbo, caminhando folgado porque os demais o respeitam, abrindo-lhe em roda um claro, largo pescoço, envergadura de búfalo, o touro vigoroso, inveja de toda a redondeza, cujas armas rígidas e curtas relembram, estaladas, rombas e cheias de terra, guampaços formidáveis, em luta com os rivais possantes, nos logradouros; além, para toda a banda, outras peças, conhecidas todas, revivendo-lhes todas, uma a uma, um incidente, um pormenor qualquer de sua existência primitiva e simples.

E prosseguem, em ordem, lentos, ao toar merencório da cantiga, que parece acalentá-los, embalando-os com o refrão monótono:

Ê cou mansão
Ê cou…ê cão!

ecoando saudoso nos descampados mudos…

De súbito, porém, ondula um frêmito sulcando, num estremeção repentino, aqueles centenares de dorsos luzidios. Há uma parada instantânea. Entrebatem-se, enredam-se, trançam-se e alteiam-se fisgando vivamente o espaço, e inclinam-se, e embaralham-se milhares de chifres. Vibra uma trepidação no solo; e a boiada estoura…

A boiada arranca.

Nada explica, às vezes, o acontecimento, aliás vulgar, que é o desespero dos campeiros.

Origina-o o incidente mais trivial – o súbito vôo rasteiro de uma araquã ou a corrida de um mocó esquivo. Uma rês se espanta e o contágio, uma descarga nervosa subitânea, transfunde o espanto sobre o rebanho inteiro. É um solavanco único, assombroso, atirando, de pancada, por diante, revoltos, misturando-se embolados, em vertiginosos disparos, aqueles maciços corpos tão normalmente tardos e morosos.

E lá se vão: não há mais contê-los ou alcançá-los. Acamam-se as caatingas, árvores dobradas, partidas, estalando em lascas e gravetos; desbordam de repente as baixadas num marulho de chifres; espreitam, britando e esfarelando as pedras, torrentes de cascos pelos tombadores; rola surdamente pelos tabuleiros ruído soturno e longo de trovão longínquo…

Destroem-se em minutos, feito monte de leivas, antigas roças penosamente cultivadas; extinguem-se, em lameiros revolvidos, as ipueiras rasas; abatem-se, apisoados, os pousos; ou esvaziam-se, deixando-os os habitantes espavoridos, fugindo para os lados, evitando o rumo retilíneo em que se despenha a “arribada”, — milhares de corpos que são um corpo único, monstruoso, informe, indescritível, de animal fantástico, precipitado na carreira douda.
 
Trecho extraído de: 
A vaquejada e a arribada. In: CUNHA, Euclides da. Os Sertões: campanha de Canudos. O Homem, III. 2. ed. ed. crítica por Walnice Nogueira Galvão. São Paulo: Ática, 2001. xiv, 737 p. il. Apud ANDRADE, Juan C. P. de (org.). EUCLIDESITE. Artigos. Disponível em: https://euclidesite.com.br/artigos
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