sábado, 19 de março de 2022

Ao se autoconferir medalha Bolsonaro debocha do povo indígena que pediu sua condenação por genocídio em Haia

A jornalista Cristina Serra (que é candidata à presidência da ABI, tendo como vice a jornalista Helena Chagas) vai ao ponto em sua coluna de hoje na Folha ao não apenas condenar a entrega da medalha do mérito indigenista a um sujeito acusado pelos próprios índios de genocídio, como ao alertar que se trata de manobra diversionista de Bolsonaro para desviar o foco de seu péssimo e fracassado governo e também para se comunicar com seu fiel eleitorado —aquele que faz arminha, que debocha dos direitos LGBTQI+, que acha que indígenas e quilombolas têm muitas terras e direitos etc.

Sempre foi assim, porque Bolsonaro não é apenas mau, ele é sádico e dá mostras disso ao longo de sua vida, quando, por exemplo, ironizou a busca de ossos de desaparecidos políticos pela ditadura militar em Perus com um cartaz em que dizia que quem gosta de osso é cachorro. Ou quando zombou de mortos por falta de oxigênio em Manaus fingindo sufocamento.

Só espero que dessa vez, ao tirá-lo da presidência no voto, o Brasil passe sua história a limpo colocando-o no banco dos réus e não com anistias e deixa-isso-pra-lá, e Bolsonaro apodreça na cadeia, que é o que merece.

A coluna de Cristina Serra:

Com a campanha eleitoral na porta, Bolsonaro vai empregar, cada vez mais, estratégias da guerra de comunicação que ele sabe manejar como poucos, é preciso admitir. Deve-se a isso a medalha do mérito indigenista que ele e alguns puxa-sacos receberam. Sendo o presidente o maior inimigo dos povos indígenas, dar a ele essa honraria equivale a premiá-lo pela excelência no combate à pandemia no Brasil.

Esse tipo de provocação captura a agenda do debate público, dispersa o foco, ocupa as instituições, que precisam responder aos seguidos abusos. É forçoso manifestar nossa indignação contra o escárnio, como bem fez o indigenista Sidney Possuelo, que devolveu a mesma medalha, por ele recebida há 35 anos.

Possuelo é um desses brasileiros gigantes, descendente direto da linhagem que começa com o marechal Rondon, passa pelos irmãos Villas-Bôas e chega ao médico Erik Jennings. Ex-presidente da Funai, ao tempo em que a instituição defendia os indígenas, Possuelo foi quem idealizou a política de respeito ao isolamento voluntário de algumas etnias.

A ira santa que o fez devolver sua medalha —esta, sim, merecida— deve nos servir de guia e inspiração. Precisamos lembrar e falar, o tempo todo, do que realmente importa. E o que importa? A fome, o desemprego, a miséria, o aumento da gasolina e do gás, o PIB minguante, a inflação crescente, a carne trancada a cadeado na geladeira do supermercado. E o crime maior: o genocídio de 660 mil brasileiros. Mudar a classificação de pandemia para endemia não diminuirá a torpeza do delito.

Importam ainda a devastação da Amazônia, a expansão das milícias, a sociedade intoxicada de armas e violência, as negociatas da família presidencial, da base corrupta no Congresso e dos generais malandros, as rachadinhas e a pergunta: quem mandou matar Marielle? Vital é também resistir aos ataques contra a democracia e eleições limpas. O resto é truque de distração da cartilha extremista.



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