domingo, 24 de abril de 2022

Bolsonaro não está em campanha eleitoral, mas por um novo golpe de Estado

Esse título não é nenhuma descoberta. É apenas a constatação do óbvio a que todos assistimos diariamente, desde o primeiro dia do pior e mais catastrófico governo da história.

Incompetente, despreparado, covarde e com desaprovação de 2/3 dos brasileiros, Bolsonaro não quer uma disputa eleitoral. Quer o golpe.

Alguém imagina um debate entre Lula e Bolsonaro? Pois é, ele, que nas últimas eleições fugiu dos debates com atestado médico, também não pode nem imaginar o massacre. Ou pior: poderia acontecer ao Jair o mesmo que a seu filho Flávio Rachadinha, que desmaiou em meio a um debate.

E as consequências da derrota eleitoral? Todos sabemos da fieira de crimes do presidente e sua famiglia, que só estão em suspenso enquanto ele está no cargo máximo do país. Apeado de lá, com adversários em todo o Judiciário, o destino da famiglia será pagar por todos os seus crimes na Papuda.

Além deles, os milhares de militares pendurados no governo também estão indóceis com a ameaça da perda dos cargos, já anunciada por Lula, que disse que, caso eleito, os colocará a todos em marcha unida de volta aos quartéis.

O jornalista Janio de Freitas, em sua coluna de hoje na Folha, denuncia o golpe, a partir do mais insólito título de uma coluna no jornal: 17 interrogações.

Uma coluna histórica, que reproduzo a seguir.

?????????????????

A situação dos adeptos de regime democrático volta à extravagância aguda. Não se tem segurança de que as forças mantidas a alto custo para assegurá-la o farão. Muito ao contrário. Fazem parte do que ameaça.

O considerado exorbitante pelas Forças Armadas, na expectativa do regime democrático a seu respeito, é que não extrapolem de sua finalidade. Respeitem a Constituição e cumpram a lei. Só. Em duas palavras definitivas: sejam profissionais.

Há 132 anos e meio, ou desde trazida a República na ponta da espada e não da pena legislativa, expectativa e frustração confundem-se. A expressão "fora da lei" é levada a alcance além de sua utilidade policial.

Foi literalmente à vista. Bolsonaro interrompe a leitura do ato de graça (é o termo técnico para a diferença de indulto) e enfatiza: "...que vai ser cumprido". Logo, estava advertido da provável invalidade do seu ato, por avaliação do Supremo Tribunal Federal. E informa considerar sua vontade acima da Constituição, das leis e do Supremo. Comunica o fim da ordenação legal do nosso rascunho de democracia: a ditadura, pois.

Um passo simplório, em mangas de camisa, ao lado da mulher dispersiva, debruçado na mesa. Apesar de falsa, é semana de Carnaval, o que facilita o entendimento do ato.

A partir do final de 2014, com a mentira de fraude eleitoral propagada pelo derrotado Aécio Neves (ainda não flagrado em alta corrupção), não há crise institucional e política: a instabilidade e a degeneração do regime são crônicas. Estão em seu oitavo ano sem encontrar resistência. O regime nem precisa mais de fato relevante para seus saltos degradantes. Invertida a segurança da integridade constitucional, o mínimo é suficiente.

A atual agressão golpista pode ser item de um roteiro, mas vem de uma insignificância política. O ex-PM Daniel Silveira não tem importância alguma para Bolsonaro. É só um gorila a mais. Com uma condenação à sua espera, provocou no Supremo um julgamento, esse sim, de interesse para o golpismo. Seria coisa banal, um incitador de insubordinações criminosas levado a julgamento. Agendada a respectiva sessão judicial, porém, Bolsonaro retomou os ataques ao Supremo e ao Superior Eleitoral. Preparação, na certa.

Advertidos da provável recusa jurídica ao ato de graça, é claro que Bolsonaro e os autores da ideia programaram o segundo tempo: sua resposta à resposta pública e judicial ao decreto abusivo. Não sendo esse passo vindouro a aceitação do que o Judiciário ou o Congresso formalize sobre o ato, seria difícil Bolsonaro sustentar, só com o movimento bolsonarista, o avanço que cometeu, rumo à ditadura. Mesmo que as PMs o sigam.

Nessa circunstância, a nenhum lado cabe dúvida do dever constitucional das Forças Armadas. A dúvida é se mais uma vez não o cumpririam. Repete-se um suspense já muito vivido. Por uma vez vencido pela legalidade, que se impôs com um levante heroico, dos gaúchos, ao golpismo ressurgido da renúncia de Jânio Quadros. O golpismo de Bolsonaro avança, no entanto, em momento de complexidade nova.

Os militares, em particular os do Exército, estão indignados e perplexos com a massa de críticas que expõem um conceito público demolidor da sua autoimagem de vestais onipotentes e admiradas. Ao longo de muitas décadas, têm negado a história com ficções que enaltecem suas ações abusivas de poder, inclusive quando criminais, e inexiste negação honesta das críticas.

A esse estado insalubre sobrevém a revelação do reconhecimento por generais, no Superior Tribunal Militar durante a ditadura, de torturas e massacres por militares, em dependências das Forças Armadas. Para não se mostrar, a ira de generais de hoje recorre ao deboche primário. Mas, com certeza, não se atenua, nem civiliza.

Muitos desses militares, a maioria dos que sinalizaram posição política, são mais identificados com Bolsonaro que com a Constituição e o regime democrático. Também é reconhecível uma observação já exposta aqui: para Bolsonaro, o golpe antes da eleição previne a situação incerta de impô-lo para obter o negado pelas urnas. O que, aplicado ao avanço de Bolsonaro contra a Constituição e o que restava de prática de democracia, leva a este resumo da situação: ???

Assine o Blog do Mello



Para receber notificações do Blog do Mello no seu WhatsApp clique aqui
Você vai ser direcionado ao seu aplicativo e aí é só enviar e adicionar o número a seus contatos


Recentes:


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Gostou? Comente. Encontrou algum erro? Aponte.
E considere apoiar o blog, um dos poucos sem popups de anúncios, que vive apenas do trabalho do blogueiro e da contribuição dos leitores.
Colabore via PIX pela chave: blogdomello@gmail.com
Obrigado.