domingo, 27 de novembro de 2022

Milly Lacombe e o 'menino Ney'

Sou fã da Milly Lacombe, uma de nossas melhores colunistas, também no futebol. É dela esta coluna sobre Neymar, o "menino Ney" da nossa crônica esportiva.

Menino Ney está triste. Se sente injustiçado; não entende por que é tão detestado pelo país cujas cores defende com excelência.

O colega Raphinha foi às redes dizer que o Brasil não merece o Neymar, intensificando a sensação de menino Ney é um injustiçado e incompreendido.

Alguns na imprensa começam a se indignar em nome da dor do menino Ney.

Esqueçam em quem ele votou, pedem. As eleições acabaram, agora é Copa, completam.

A verdade é que o menino Ney não votou porque ele não transferiu seu título de eleitor, mas menino Ney declarou que votaria em Bolsonaro.

Ele tem direito de votar em quem quiser, berram muitos.

Verdade: teria mesmo.

Teria esse direito sagrado se um dos candidatos não fosse alguém de extrema-direita que diz amar a tortura, que tem como herói de vida um torturador que organizava o estupro de mulheres e arrastava os filhos pelas mãos para assistir ao estupro, que acena alegremente para o nazi-fascismo, que defende Hitler, que acha que negros podem ser medidos em arrobas, que mulheres merecem ser estupradas, que gays devem morrer.

Aos que ainda evocam os direitos democráticos de Menino Ney declarar voto em quem quiser eu diria que, nesse contexto, o único dever democrático seria o de se manifestar contra esse candidato.

Qualquer outra posição é apoio direto ou indireto ao nazi-fascismo bolsonarista.

Não é pouca coisa. É coisa demais, aliás.

Mas menino Ney calou sobre os horrores de seu amigo Bolsonaro e depois fez uma dança juvenil para declarar voto avisando que dedicaria um gol a ele na Copa.

Bem, esse gesto de amor a Bolsonaro não acontecerá na primeira fase. Menino Ney está fora por contusão.

Saiu de campo chorando. Pouco vibrou pela vitória. Está atento a si mesmo.

A Copa era para ser dele mas a marcação implacável e violenta o tirou de jogo e da primeira fase.

Neymar não é um menino, como tentam fazer parecer a todo o instante. É um homem de 30 anos.

Ele sabe perfeitamente que, jogando como joga, se não soltar a bola rapidamente vai ser marcado com intensidade. No jogo com a Sérvia ele segurou a bola e não deu passes que poderiam ter virado gol de seus colegas.

Optou por chamar para si a responsabilidade e quem viu o jogo com olhos atentos entendeu o que ele fez e o que ele deixou de fazer.

Aos que dizem que o posicionamento político dele está no passado e que agora é hora de Copa do Mundo eu diria o seguinte: posicionamento político nunca está no passado.

Posicionamento político é todo dia.

É o que a gente faz das nossas vidas, é como a gente trata outros, é as lutas que a gente escolhe lutar e as lutas que a gente escolhe ignorar.

É tentar driblar o fisco, ser multado e agir para negociar a multa mesmo sendo bilionário.

É fazer isso sabendo que os 88 milhões de reais da multa poderiam ser usados na construção de hospitais, escolas, estradas.

"Ah, mas no Brasil tem muita corrupção. O dinheiro não vai ser usado pra isso".

Bem, se você não pagar impostos o dinheiro certamente não será usado.

Mas, se pagar, existe uma chance que é estatisticamente boa de ele ser usado sim.

E se parte dele for usada já é melhor do que nada.

(Para entender a treta com a receita: em 2015 Neymar foi autuado em R$ 188 milhões por não ter declarado seu imposto de renda no valor de R$ 63,6 milhões de 2011 a 2013. Sobre o valor inicial, houve multa e juros de 150%. Os advogados de Neymar recorreram da multa e conseguiram anular parte das sanções. Os 88 milhões é o valor dos 63,6 corrigidos).

Posicionamento político é colaborar com a investigação de uma acusação de violência sexual. Mas Neymar não fez isso quando foi acusado por uma funcionária da Nike e, ao não fazer, teve seu contrato interrompido pela empresa.

Posicionamento político é todo dia.

É, também, entender que o jogo é para o time e pelo time. Que segurar tantas bolas não ajuda o coletivo.

Posicionamento político é usar seu poder simbólico como um dos maiores atletas vivos para falar em nome dos excluídos.

É usar de privilégios e oportunidades para ser responsável pela comunidade.

Posicionamento político é optar por se manter um adolescente nas barras das calças do pai mesmo sendo um homem adulto.

Posicionamento político é escolher não entender dos negócios bilionários que ele mesmo gera para apenas jogar bola.

E é também zombar de um colega de profissão usando sua condição de pessoa que enfrentou o inferno do vício para tentar diminuí-lo.

Tudo isso é se posicionar politicamente.

Aos meus colegas que pedem que esqueçamos o que fez Neymar porque as eleições acabaram eu digo: as eleições não acabaram.

Elas seguem acontecendo.

Num país com 33 milhões de famintos e com 125 milhões de pessoas que não sabem quando farão a próxima refeição as eleições nunca acabam porque precisamos estar atentos e fortes como estivemos no período eleitoral durante todos os dias do ano.

Pedir que a gente esqueça o que fez Neymar e se concentre no futebol é pedir que nos alienemos completamente. É abrir espaço para anistias. É separar política e futebol de forma perversa. É dar as costas para a devastação do país.

O atleta não se separa do homem. E é por isso que tanta gente hoje detesta Neymar.

Foram muitas mortes, muita dor, muita opressão para ele desse os ombros e se mandasse para jogar vídeo game depois de apoiar um monstro.

Neymar não é vítima de absolutamente nada e se ele buscar amadurecer terá que encarar essa verdade.

Ser patriota não é vestir a camisa amarela e dizer que vamos ganhar o hexa. Longe disso.

É possível torcer contra a seleção e ser mais patriota que Neymar.

Traições à pátria vêm também na forma de dribles no fisco e de silêncios convenientes quando o presidente usa um vírus como arma biológica contra sua própria população.

É por tudo isso que o choro de Neymar não comove muita gente.

Choramos por anos e não tivemos um sinal de solidariedade vindo dessa seleção que agora exige nosso amor e carinho.

Se esse amor e carinho vier, ele terá vindo muito na conta do único cara que se manifestou em nosso nome.

E que, quiseram os deuses do futebol, fizesse um dos gols mais bonitos da história das Copas logo na estreia.

Então, Raphinha, se tem alguém que não merece a força, a luta e a garra do povo brasileiro é essa seleção de alienados políticos e de apoiadores da extrema direita.

E agora, como escreveu no Twitter a comunicadora Ana Flor, Neymar terá que lidar com o fato de defender as cores de um país que ou não gosta dele ou não liga tanto assim para ele.

Mas seria importante que ele também soubesse que não tem nada mais bonito do que reconhecer erros, amadurecer e se redimir. Sendo quem é - um dos maiores artistas desse jogo que tanto amamos - tenho certeza de que o Brasil que hoje o despreza estaria pronto para acolhê-lo e celebrá-lo.

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