Neruda foi morto pela ditadura Pinochet com veneno que pode ter sido produzido no Butantan


O poeta chileno Pablo Neruda morreu envenenado, muito provavelmente assassinado pela ditadura Pinochet. É o que se pode concluir de relatório forense divulgado em fevereiro de 2023 que encontrou a presença da bactéria Clostridium botulinum nos restos mortais do poeta.

O poeta, Prêmio Nobel de Literatura em 1971 e militante do Partido Comunista Chileno, Pablo Neruda, morreu "envenenado". A culpada, a bactéria Clostridium botulinum  , responsável por causar a doença do botulismo e que "estava no corpo dele no momento da morte", especificamente em um dente.

Essa é a conclusão a que chega o relatório forense realizado por um painel de peritos internacionais, avançado pela família ao jornal El País -será apresentado oficialmente esta quarta-feira- e que viria a demonstrar, 49 anos após a sua morte, que o escritor foi "envenenado" doze dias após o golpe militar de 1973.

Pablo Neruda morreu aos 69 anos em consequência, segundo a versão da ditadura, de um câncer de próstata que sofria desde 1969. No entanto, em 2017, outro painel de especialistas exumou seus restos mortais para verificar se ele havia sido assassinado, encontrou a bactéria responsável pelo botulismo em um dente do poeta, o que descartou a versão oficial.

A bactéria do botulismo geralmente é encontrada no solo, mas especialistas da Universidade McMaster (Canadá) e da Universidade de Copenhague explicarão na apresentação do relatório que esse bacilo "não vazou para dentro do cadáver de Neruda de dentro ou ao redor de seu caixão", mas que ele já tinha antes de morrer.

"Sabemos agora que  o Clostridium botulinum  não tinha razão para estar no esqueleto de Neruda. O que isso significa? Que Neruda foi assassinado, houve intervenção em 1973 de agentes do Estado", afirmou Rodolfo Reyes, sobrinho do poeta, em declarações recolhidas pelo Agência EFE.

Resta saber como e quem introduziu a toxina botulínica no corpo do autor de Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada. Grande parte da família apoia a versão de que Pablo Neruda foi envenenado com uma injeção administrada por um agente secreto do regime que se fazia passar por médico.

Pablo Neruda foi enterrado com sua esposa, Matilde Urrutia, em sua casa-museu em Isla Negra, cidade da costa central do Chile localizada a 120 quilômetros de Santiago. Em dezembro de 1992, os restos mortais de Neruda e Urrutia foram exumados do Cemitério Geral de Santiago para serem velados no Salão de Honra do antigo Congresso Nacional e posteriormente trasladados para Isla Negra, como desejava o poeta. [Fonte: Huffington Post]

 

 Butantan e as ditaduras brasileira e chilena


Agora, reportagem da Pública denuncia um possível envolvimento do Brasil no assassinato do poeta, fruto de uma parceria entre as ditaduras brasileira e chilena.

Um dos mais renomados institutos científicos do Brasil, o Butantan esconde sua história de proximidade com a ditadura militar brasileira, que incluiu visitas oficiais e perseguição a cientistas. Toxinas produzidas pelo Butantan eram enviadas para a ditadura chilena em malotes diplomáticos, que não deixavam rastro, e foram usadas para envenenar opositores.

Trata-se de um polêmico caso de prisioneiros chilenos contrários ao regime que foram envenenados por toxinas botulínicas oriundas do Brasil, em 1981. A toxina é um dos venenos mais potentes conhecidos.

“A botulina afeta todo o sistema neurovascular e causa morte por ataque do coração ou asfixia”, descreve em entrevista à Agência Pública o ex-preso político Guillermo Rodríguez, uma das vítimas do episódio. Ele e outros sete detentos, sendo quatro presos políticos, ingeriram alimentos envenenados quando estavam na Cárcere Pública, em Santiago.  

Conhecido como “El Ronco”, ele ganhou o apelido devido à rouquidão crônica adquirida como consequência do envenenamento. “Tenho sequelas até hoje em minha vista, aparato respiratório e voz.” 

Uma sentença judicial proferida em 2021 pela Suprema Corte do Chile determinou que a toxina utilizada no presídio era originária do Brasil. E que fora enviada ao país por malote diplomático à chancelaria no palácio presidencial. 

Detalhe: o único local a produzir o soro antibotulínico no Brasil era o Instituto Butantan.

Leia a reportagem completa da Pública.

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