O poeta Carlos Drummond de Andrade também esteve presente na noite do maior Réveillon do mundo, segundo o Guinness Book certificou.
De costas para o mar, a estátua do poeta Carlos Drummond de Andrade foi mais uma testemunha entre os mais de dois milhões de brasileiros e estrangeiros que assistiram ao espocar dos fogos na virada do ano de 2025 para 2026.
Drummond morou em Copacabana e a estátua virou uma atração turística, desde que foi inaugurada em 2002, no centenário do poeta. É comum ver as pessoas se abraçarem à estátua para fotos, outros conversam com o poeta e houve até uma imagem que viralizou no passado de um morador em situação de rua buscando consolo no poeta.
Mas Drummond não participou da festa apenas como estátua, lembrança em bronze do maior poeta do Brasil. Seu livro Rosa do Povo tem um poema sobre a passagem do ano, que reproduzimos a seguir.
Passagem do ano
O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor [da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória, [doce morte com sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o [clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.
O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus...
Recebe com simplicidade este presente do [acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos [séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras [espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.
O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles... e nenhum resolve.
Surge a manhã de um novo ano.
As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.
ANDRADE, Carlos Drummond de. "A rosa do povo". In: Poesia completa.. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2002.
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