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Na disputa pelo dízimo, pastores da morte entregam seus fiéis para a COVID e levam à guerra candidatos a uma vaga no STF


Todos sabemos quem são eles, os pastores da morte que, desde o inicio da pandemia, fazem pouco caso da COVID, vendem curas milagrosas, numa guerra nada santa contra a Ciência, um verdadeiro topa tudo por dinheiro, de olho no dízimo dos fiéis, que caiu bastante com o distanciamento social e as proibições pontuais de abertura de seus templos. Afinal, todos vamos morrer e, para quem crê, nada como encontrar o Senhor com o dízimo em dia, não?

Não à toa, o lado desses pastores da morte é o mesmo do genocida que nos preside: o lado do vírus. Por saberem disso, candidatos à vaga que se abrirá agora no STF acenam aos pastores e a Bolsonaro, que tem o poder da indicação, como mostra em sua coluna de hoje o jornalista Bernardo Mello Franco, em O Globo, que reproduzo a seguir:
Topa tudo pela toga

Na disputa por uma cadeira no Supremo, vale tudo para agradar Jair Bolsonaro. Até ignorar a ciência e defender a reabertura de templos no pior momento da pandemia.

Na noite de quarta-feira, o procurador-geral da República pediu a derrubada do decreto paulista que suspendeu temporariamente os cultos presenciais. A medida fez parte de um pacote emergencial para tentar frear o avanço da Covid.

Sem argumentos racionais à mão, Augusto Aras apelou a um misto de negacionismo com misticismo. Ele disse estar preocupado com a “saúde mental e espiritual da população brasileira, que precisa de assistência religiosa para o enfrentamento de momento tão grave da epidemia”.

Na manhã de quinta, o advogado-geral da União correu para endossar o pedido. “Como é de sabença geral, a fé cristã está embasada na pessoa de Jesus Cristo”, escreveu André Mendonça. Ele dissertou sobre as origens da Páscoa e informou que a data é comemorada desde o Concílio de Niceia, no ano 325.

“Ao longo desses anos, não se tem notícia de uma vedação tão forte à celebração da Páscoa em templos e igrejas”, afirmou o dublê de jurista e pastor evangélico. Faltou dizer que estamos em 2021, quando os fiéis podem participar de cultos pela TV e pela internet. O papa Francisco deu o exemplo ao conduzir a cerimônia da Via-Sacra sem público pelo segundo ano seguido.

O lobby para reabrir os templos no Brasil tem motivações menos espirituais do que terrenas. Desde o início da pandemia, religiosos que apoiam o governo têm reclamado da queda na receita. Sem cultos presenciais, a arrecadação do dízimo despencou. Isso explica a pregação em nome de Deus contra medidas sanitárias que salvam vidas.

A genuflexão diante dos pastores bolsonaristas é só o novo capítulo da disputa pela vaga do ministro Marco Aurélio Mello. Nos últimos meses, Aras e Mendonça têm travado um duelo para mostrar quem é mais fiel ao capitão. Os dois já haviam cobiçado a cadeira de Celso de Mello, mas foram preteridos pelo azarão Kassio Nunes Marques, que ontem liberou a reabertura das igrejas.

Aras age pela omissão. Desde que assumiu o cargo, faz vista grossa às ilegalidades praticadas por quem o nomeou. O procurador é mais do que um novo engavetador-geral da República. Na pandemia, tem atuado como um acobertador de crimes presidenciais.

Em janeiro, ex-integrantes da cúpula da PGR pediram que ele denunciasse Bolsonaro por favorecer a disseminação de epidemia, crime tipificado no Código Penal. O ofício listava dez condutas ilegais, da recusa a comprar vacinas à propaganda de remédios sem eficácia. Aras arquivou a representação sem enviá-la ao Supremo.

Mendonça se notabilizou por usar o Ministério da Justiça para perseguir críticos do presidente. Mandou a Polícia Federal abrir inquéritos contra professores, jornalistas e chargistas com base na Lei de Segurança Nacional.

No mês passado, ele mobilizou o aparelho do Estado para investigar e constranger um sociólogo que comparou Bolsonaro a um “pequi roído”. O caso foi arquivado, mas o ministro marcou mais um ponto com o chefe. De volta à chefia da AGU, ele terminou a semana como favorito na corrida pela toga.



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