Relatório preliminar da chamada CPI do Apagão Aéreo afirma que os pilotos americanos do jatinho Legacy foram os principais culpados pelo acidente com o Boeing da Gol, que resultou na morte de 154 brasileiros.
Isto é uma desgraça para os pitblogueiros e sua turma, por dois motivos. Primeiro, porque eles acham que o Brasil é um país de quinta categoria, com um povo que ainda não tem nem qualificação. Só livram a cara deles mesmos (é claro), dos patrões (sempre), da tchurma e de seus acólitos. O segundo motivo é mais óbvio. Apontando a culpa dos americanos, o relatório diminui a importância dos controladores como causadores do acidente, tirando assim o foco do governo do presidente Lula – que, como todos sabemos, é responsável por tudo o que acontece de ruim no mundo, desde que sugeriu a Eva que convencesse Adão a provar do fruto do paraíso...
O problema dos pitblogueiros é que eles costumam desancar a ignorância dos outros, sem perceber que pelo menos essa desculpa – da ignorância – eles têm. No caso dos pitblogueiros, nem ela.
Falem o que quiserem falar, mas se os americanos tivessem seguido o plano de vôo original estabelecido, se não tivessem desligado o transponder e tirado o rádio do ar, nada disso teria acontecido.
Desde a primeira semana depois do acidente, tenho afirmado aqui que os grandes culpados são os pilotos americanos. Embora até hoje eu não tenha conseguido encontrar um motivo real (a não ser uma subserviência total aos EUA e uma necessidade de criticar o governo Lula de qualquer jeito) nossa imprensa tem praticamente livrado a cara dos americanos e culpado alternada ou cumulativamente os controladores de vôo brasileiros e nosso sistema de controle aéreo.
Em maio passado voltei ao assunto, quando advogados dos americanos quiseram novamente livrar a cara deles. Reproduzo a postagem a seguir.
Estão querendo empurrar a culpa pelo acidente que envolveu o jato Legacy da empresa americana ExcelAire e um Boeing da Gol para as costas dos controladores de vôo brasileiros. O motivo é um só: o pagamento das milionárias indenizações às famílias das 154 vítimas do acidente – todas passageiros e tripulantes do Boeing da Gol.
No entanto, todos os laudos vão confirmando aquilo que já se sabe desde o início. O jatinho Legacy, pilotado pelos americanos Lepore e Paladino, voava desde São José dos Campos com destino a Manaus. O transponder (equipamento que transmite informações precisas sobre avião e vôo) funcionava normalmente. Até que, exatamente quando sobrevoava Brasília, o transponder pára de funcionar. A comunicação entre os americanos e o centro de controle de vôos, que estava em pleno funcionamento, também é misteriosamente interrompida. E isso acontece no instante em que os americanos não cumprem uma determinação do plano de vôo, a de mudança de altitude na entrada em Brasília. Vem o acidente e, milagrosamente, transponder e comunicação voltam a funcionar.
Não há relato de que algo semelhante tenha acontecido a qualquer outra aeronave que sobrevoava nosso espaço aéreo naquele instante. Portanto, o foco das investigações deve ser: por que transponder e comunicação não funcionaram durante aquele período, se estavam OK antes de Brasília e assim voltaram a ficar após o acidente? Falha do equipamento ou falha dos pilotos?
Foram realizados testes nos equipamentos. Eles estavam funcionando perfeitamente. Logo, o problema aconteceu com os pilotos americanos. E é para livrar a cara deles que vêm sendo expelidos documentos e aconselhamentos por diferentes órgãos americanos, de tempos em tempos.
A novidade da hora vem de um relatório do Conselho Nacional de Segurança dos Transportes dos Estados Unidos (NTSB, na sigla em inglês). Segundo o NTSB, o transponder, embora em perfeito estado (sic), não estava funcionando no momento do acidente porque estava em standby (quem o colocou em standby?...). Segue dizendo que este aviso estava escrito no painel da aeronave, mas os pilotos não perceberam (distraídos, não?). Então, sugere que um aviso sonoro ou equivalente passe a acompanhar o aviso visual.
Receitam, como se isso fosse uma falha do transponder do Legacy (não custa lembrar que o jatinho é fabricado pela Embraer). Só que o alerta unicamente visual é padrão em todos os aviões do mundo. Portanto, os pilotos sabem que têm de ficar de olho no monitor. Durante o intervalo de uma hora entre a perda de contato e o acidente, eles tiveram bastante tempo para olhar o monitor, mas não o fizeram.
Logo, concluem americanos, pilotos e seus advogados, os controladores do Brasil teriam de se comunicar com eles para avisá-los:
- Ei, acorda, se liga, o transponder está desligado!
Mas, como, se também não havia comunicação via rádio entre o jatinho e o Cindacta? Já li duas versões sobre o fato: uma diz que o rádio estava no volume mínimo (quem o teria diminuído?). A outra, que ele estava sendo operado em freqüências erradas (mais uma vez, quem?).
De qualquer maneira, querem nos fazer crer (e nossa bela mídia faz um grande esforço para que eles o consigam) que o problema aconteceu por causa dos nossos controladores, que não são nenhuma Brastemp, e por culpa de nosso sistema de controle aéreo (nós um país de botocudos e tupiniquins). Dão a entender que é um problema nosso, que se fosse nos Estados Unidos o acidente não aconteceria.
No entanto (e sobre isso a nossa grande mídia não dá uma palavra), nem um mês após o acidente aqui no Brasil, um aviãozinho deu um passeio por Nova Iorque e resolveu “estacionar” no meio de um prédio. Os controladores e o controle de vôo da maior potência do mundo (ainda por cima vivendo a paranóia do 11 de setembro) bateram cabeça, como mostra a reportagem da CNN acima.
Portanto, não me venham com essa. Tirem a mão do meu bolso, porque o que eles querem é que a culpa recaia sobre nosso controle do vôo, para que todos nós, brasileiros, tenhamos que pagar agora com dinheiro (das indenizações) o que antes já pagamos com as 154 vidas de brasileiros, que morreram simplesmente porque os americanos não leram o aviso no painel que afirmava que o transponder estava em standby.
Vamos falar sério. Já está ridícula a cobertura da imprensa nos aeroportos. Chuva, nevoeiro, mau tempo sempre causaram atrasos em vôos – e não somente no Brasil, mas em qualquer lugar do mundo.
No entanto, para nossas emissoras de TV parece que não. Repórteres espalhados pelos principais aeroportos estão à procura de um fato espetacular, de preferência com vítimas. E ele certamente virá, mais dia, menos dia.
Há alguns meses, um covarde-valentão (ou valentão-covarde, se preferirem) agrediu a funcionária de uma companhia aérea. Na ocasião, pessoas intervieram e o tumulto parou por ali – ainda mais, porque o valentão ficou calminho quando confrontado por outro homem.
Mas as reportagens a todo momento, os Ao Vivo a toda hora funcionam como isca, parecem dizer “quem quer aparecer na TV?”, “quem quer ser notícia no Jornal Nacional?”. E há quem seja capaz de tudo para aparecer na telinha.
Mas o que a gente quer saber, ninguém responde: por que esses estranhos problemas sintomaticamente passaram a aparecer nos aeroportos brasileiros imediatamente após a colisão do Boeing da Gol com o jatinho pilotado por dois americanos e que causou a morte de 154 brasileiros?