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Um mundo sem Maria Bethânia? Não, eu não poderia viver num mundo assim


— É. Maria Bethânia.

— Ah. Ela é famosa? 

Assim começa a coluna da jornalista Cora Rónai, em O Globo. Ela conversava com o motorista do carro de aplicativo que iria levá-la a uma casa de espetáculos aqui no Rio. 

O motorista perguntou se ela iria assistir a um show e de quem e ela respondeu como acima.

E estranhou, como eu também, ao perceber que o motorista não conhecia Bethânia, a ponto de perguntar se Bethânia era famosa.

Mais ainda. No decorrer da conversa, ela percebeu que o jovem não apenas não conhecia Bethânia como nenhuma de suas canções. E Bethânia faz sucesso há mais de 60 anos.

Era como se o nome dela tivesse sido apagado de sua história, ou até, jamais tivesse sido inscrito nela. 

Imediatamente me veio à cabeça um filme, "Yesterday", não sei se vocês conhecem. É recente, de poucos anos atrás, e conta a história de um jovem músico, cantor e compositor, em busca do reconhecimento de seu trabalho, enquanto toca em bares e clubes, sem sucesso.

Um dia, sofre um acidente, fica internado um tempo e, quando se recupera, leva um susto semelhante ao meu e de Cora com o desconhecimento do motorista de aplicativo.

Narro: O músico estava entre amigos e cantou uma canção dos Beatles, de que não me recordo agora, e ao final todos o elogiaram e parabenizaram pela composição. Acharam que a música havia sido composta por ele.

Ele pensou logicamente que os amigos estivessem brincando com ele. Depois, espantado, percebeu que não.

Chegou em casa e foi ao computador para descobrir, surpreso, após digitar "Beatles" na caixa de pesquisa do buscador, que os Beatles e suas músicas não existiam. Era como se tivessem, como a Bethânia para o motorista, sido apagados do registro da rede mundial de computadores.

Não vou falar mais sobre o filme para não dar spoiler e atrapalhar o prazer de quem pretende assisti-lo, já que ele se encontra em algum canal de streaming.

Mas a solidão de um mundo em que ninguém conhecesse os Beatles para trocar ideias seria também a de um mundo  sem Bethânia, que faz parte da história de minha vida e da de grande parte de meus amigos.

O ser humano é gregário. Desde sempre gosta de se reunir em torno de fogueiras ou de mesas de bar para falar da vida, dos filmes e shows que assistiu.

Há até uma piada que reforça isso. A de um homem solitário numa ilha, um Robinson Crusoé sem Sexta-feira (vocês já ouviram falar na história de Robinson Crusoé, né?), até que um dia, friccionando uma garrafa, vê um gênio que surge à sua frente e lhe oferece três desejos, como é usual nos gênios de garrafa (vocês também já ouviram falar nisso, espero).

Ele pede alguma coisa, de que também não me recordo, talvez comida e bebida, como primeiro desejo. Uma mulher muito linda e famosa, como segundo. E no terceiro ele pede, por exemplo, Alfredo. O gênio se espanta, sem entender quem ou o que seria Alfredo. O homem revela que é seu melhor amigo e explica:

— De que adianta eu estar com a (nome da mulher famosa — não quero citar um, vai que você não conheça) se não puder contar para o Alfredo? — ele diz.
É uma piada bobinha, mas reflete a importância de ter um interlocutor, alguém com quem a gente possa compartilhar experiências de quem vive no mesmo planeta, no mesmo tempo.

Mas como seria viver no mesmo mundo de quem não conhece nem nunca ouviu falar de Bethânia, nunca a ouviu cantar nenhum de seus inúmeros sucessos, nunca a ouviu declamar os poemas que intercalava em seus shows, nunca a ouviu declamar Fernando Pessoa.

Não é a pessoa física de Bethânia, se me entendem. Também é, com sua alegria, com seu gosto de bater papo regado a cerveja. Mas é mais. É toda a obra, o entorno, as vivências, que me acompanham desde sempre.

Não, eu não poderia viver num mundo sem Maria Bethânia. E você?

 

 

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Domingo com Música: Maria Bethânia e Zeca Pagodinho, De Santo Amaro a Xerém, show completo


Não vou nem falar nada, a não ser reproduzir todos os créditos da Biscoito Fino sobre o showzaço que uniu Bethânia e Zeca, Santo Amaro a Xerém.

"De Santo Amaro a Xerém" é uma referência à cidade natal de Maria Bethânia e ao refúgio carioca de Zeca Pagodinho. O encontro destes dois grandes intérpretes foi gravado na cidade de São Paulo em maio de 2018. 

O repertório, assinado pelos dois e costurado pelo samba, veio cheio de referências de cada um. No show Bethânia e Zeca se alternam no palco e em duo em vários momentos e trazem surpresas como o “Você Não Entende Nada” (Caetano Veloso), com a divisão peculiar do Zeca, e Bethânia emenda com “Cotidiano” (Chico Buarque) e mais três músicas inéditas como a canção “A Surdo 1”, de Adriana Calcanhotto sobre a Mangueira, duas de Leandro Fregonessi, “De Santo Amaro a Xerém” e “Pertinho de Salvador” e a música de abertura “Amaro Xerém”, um autêntico samba de roda da Bahia escrito especialmente para o show por Caetano Veloso a pedido de Bethânia, depois de mais de 20 anos sem fazer uma canção para ela. 

A direção musical é de Jaime Alem (violão) e Paulão Sete Cordas (violão) e a banda é formada por Rômulo Gomes (baixo), Paulo Dafilin (violão e viola), Marcelo Costa (bateria/percussão), Jaguara (percussão), Marcos Esguleba (percussão), Paulo Galeto (cavaquinho) e Vitor Motta (sax e flauta). 
...
00:00 - Verdade 
00:43 - Amaro a Xerém 
03:33 - Sonho Meu
06:39 - Você Não Entende Nada
08:35 - Cotidiano
10:07 - Citação: De Santo Amaro a Xerém
11:53 - A Voz do Morro 
13:48 - Verdade 
18:03 - Lama nas Ruas
21:12 - Maneiras
24:04 - Não Sou Mais Disso
27:35 - Saudade Louca
31:19 - Vai Vadiar
34:17 - Coração em Desalinho 
37:08 - Samba Pras Moças
39:42 - Ogum
42:40 - Oração de São Jorge
43:43 - Adalgisa / Falsa Baiana
45:46 - Iluminada 
48:08 - Pano Legal / Café-soçaite
50:08 - O X da Questão
51:56 - Ronda 
53:59 - Negue
55:13 - Marginália II / Estação derradeira
58:08 - Pertinho de Salvador / Quixabeira 
1:02:07 - Gente humilde
1:04:04 - Reconvexo 
1:07:12 - Portela na avenida / Lendas e mistérios da Amazônia 
1:09:58 - Foi Um Rio Que Passou Em Minha Vida 
1:12:08 - Jequitibá / A Surdo Um / Exaltação À Mangueira / Chico Buarque Da Mangueira / Atrás Da Verde E Rosa Só Não Vai Quem Já Morreu / Maria Bethânia, A Menina Dos Olhos De Oyá
1:17:46 - E Daí ? (Proibição Inútil e Ilegal) 
1:20:16 - Desde Que O Samba É Samba 
1:22:26 - Naquela Mesa 
1:25:55 - Chão de Estrelas 
1:28:11 - Amaro a Xerém
1:31:41 - Deixa A Vida Me Levar 
1:34:45 - O Que é, O Que é . . . 

Ouça o álbum "De Santo Amaro a Xerém" em sua plataforma digital favorita: https://orcd.co/desantoamaroaxerem




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Domingo com Poesia: Os três mal-amados, de João Cabral de Mello Neto, com Maria Bethânia


Domingo com Poesia no Blog do Mello traz poema de João Cabral de Mello Neto e, ainda, sua interpretação por Maria Bethânia. Luxo.

O amor comeu meu nome, minha identidade,
meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade,
minha genealogia, meu endereço. O amor
comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos
os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas
camisas. O amor comeu metros e metros de
gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o
número de meus sapatos, o tamanho de meus
chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a
cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas
médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas,

minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus
testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de
poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações
em verso. Comeu no dicionário as palavras que
poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso:
pente, navalha, escovas, tesouras de unhas,
canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de
meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada
no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto
mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu
a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de
propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos
que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde
irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta,
cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas.
O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos,
e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua
chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba
de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam
sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas
de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a
água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os
mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde
ácido das plantas de cana cobrindo os morros
regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo
trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de
cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas
coisas de que eu desesperava por não saber falar
delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas
folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de
meu relógio, os anos que as linhas de minha mão
asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro
grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da
terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e
minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu
silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.





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