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'Valores universais' de quem, com quem, para quem, contra quem, cara pálida? Artigo de Boaventura de Sousa Santos

Artigo imprescindível do mestre Boaventura de Sousa Santos, publicado no Outras Palavras:

Valores universais – e seu rastro de atrocidades

Uma das características do pensamento dominante consiste em contrastar os princípios que subscreve com as práticas dos que se lhe opõem. Na época moderna, tudo começou com a expansão colonial do século XV e XVI pela mão dos portugueses e dos espanhóis sob a tutela do Vaticano. Missionários, descobridores, conquistadores anunciavam a “boa nova” de uma religião tida por única e a única verdadeira, cujos princípios garantiam a igual dignidade de todo o ser humano perante a criação divina e o direito de todos a libertarem-se da superstição e a abraçarem a nova civilização, e a aceitar todos os benefícios que dela decorriam. A suposta qualidade universal dos valores de que eram portadores era tão saliente quanto evidente era o contraste entre eles e as práticas das populações nativas, práticas consideradas selvagens, bárbaras, primitivas, canibais, pecadoras, cuja erradicação justificava a “missão civilizadora”. Uma linha abissal separava de tal modo os princípios e os valores europeus dessas práticas que as populações nativas não podiam ser sequer consideradas plenamente humanas. Por isso, não tratar as populações segundo esses princípios não só não era contraditório como era a única solução lógica. Se eram sub-humanos, não fazia sentido aplicar-lhes os princípios e valores próprios de seres plenamente humanos. A universalidade dos princípios era afirmada ao ser negada a sua aplicação a seres sub-humanos. Em relação a estes, o importante era evangelizá-los, levá-los a abandonar as práticas selvagens, o que se tornou mais fácil e convincente depois que o Papa Paulo III reconheceu em bula de 1537 que os índios tinham alma.

Este dispositivo colonizador realizava duas operações cruciais: impedia o reconhecimento de princípios e valores diferentes dos europeus; impedia contrastar os princípios e valores europeus com as práticas dos europeus. Tratava-se de uma nova versão de universalidade feita de duas ressalvas que a negavam, mas cuja negação era eficazmente invisibilizada. Basta ler a Brevísima relación de la destrucción de las Indias de Bartolomé de Las Casas, publicada em Sevilha em 1552, para termos uma ideia de como este dispositivo operou, e os crimes, atrocidades, destruições e pilhagens que ele justificou. Las Casas mostra de modo eloquente as duas verdades ocultadas pelo dispositivo colonial. Por um lado, o contraste chocante entre os princípios proclamados pelos conquistadores europeus e as suas próprias práticas; por outro lado, o retrato falso ou parcial das práticas indígenas e a recusa dos europeus em reconhecer que esses povos tinham princípios e valores que rivalizavam, por vezes com vantagem, com os europeus. Tanto o escândalo da obra de Las Casas ao tempo em que foi publicada como o sucesso que veio a ter no século seguinte mostram em que medida o dispositivo colonial próprio do pensamento dominante europeu, apesar de desmascarado, continuou a vigorar como que animado por uma hipocrisia estrutural que, em vez de o enfraquecer, se transformou em sua fonte de vida. Até hoje.

Do ponto de vista da sua gênese, os princípios e valores universais europeus (mais recentemente também ditos ocidentais) são uma contradição nos termos porque, se são europeus, não podem ser considerados universais e, se são universais, não são europeus. Mas esta contradição é provavelmente própria de outros princípios e valores não europeus. E o mesmo pode dizer-se da hipocrisia ou duplicidade estrutural que habita quaisquer conjuntos de princípios e valores formulados em abstrato. O que distingue os princípios europeus é o domínio político, econômico e cultural do conjunto de países que desde o século XV-XVI se arrogaram o direito de os reclamar como seus e de os impor aos outros sob o pretexto de serem universais. Esse conjunto variou ao longo dos séculos. Começou por ser ibérico, depois foi europeu, e é euro-norte-americano desde o fim da Primeira Guerra Mundial. Merecem, pois, uma reflexão específica. São muitos os dispositivos que asseguram a duplicidade e a põem ao serviço dos interesses da potência hegemônica.

(1) Fazer valer universalmente os valores universais é um dever dos povos que os reconhecem como seus. A imposição, mesmo que motivada por interesses próprios, deve ser sempre legitimada por razões benévolas e do interesse das próprias vítimas da imposição. Foi com esta justificativa que o direito internacional emergiu, pela pena de Francisco de Vitoria (1483-1546), para justificar a ocupação colonial de povos que, apesar de humanos, não se sabiam governar (tal como as crianças) e deviam, por isso, ser objeto de proteção e tutela por parte dos colonizadores.

(2) A hierarquia de valores. Todos os valores são universais, mas uns são mais importantes que outros. Com John Locke (1632-1704), nos alvores do capitalismo, o direito de propriedade individual precede todos os outros. Ainda que Locke limitasse inicialmente o direito natural de propriedade aos frutos do trabalho, esse direito foi-se estendendo até abranger tudo o que fosse necessário para a produção, e esta consiste na criação de valores de troca. Desde então, a hierarquia entre os valores depende das conveniências conjunturais de quem a pode impor. Se nuns casos é prioritária a defesa da soberania dos Estados, noutros é a defesa da autodeterminação dos povos. Por sua vez, a segurança nacional (um conceito recente que veio substituir o conceito de segurança humana) tem vindo a prevalecer sobre os direitos e liberdades da cidadania, tal como a segurança alimentar se tem vindo a impor à soberania alimentar.

(3) A seletividade e os critérios duplos na invocação dos valores universais. Entre 1975 e 2000, as mídias globais silenciaram as atrozes violações de direitos humanos do povo timorense (que acabava de conquistar a independência contra o colonialismo português) por parte da Indonésia, que invadiu o país poucos dias depois da visita de Henri Kissinger a Jacarta. Para os EUA, a Indonésia era na altura um país estrategicamente importante para travar o avanço do comunismo na região, e esse fato justificava o sofrimento imposto aos timorenses. Na atual guerra da Ucrânia, muitos crimes de guerra terão sido cometidos por ambas as partes. Mas o silêncio sobre crimes cometidos por tropas ucranianas contrasta com o incessante noticiário sobre os crimes das tropas russas. Passou despercebida a notícia de 13 de maioo no insuspeito Le Monde: tinha acabado de confirmar a autenticidade do vídeo em que soldados ucranianos matam a sangue frio prisioneiros de guerra russos desarmados, um gravíssimo crime de guerra nos termos da Convenção de Genebra. Veremos se será punido como todos os outros que tenham sido cometidos. A mesma seletividade ocorre no caso de outro valor universal, o direito à autodeterminação dos povos. Como temos visto, em alguns casos ele é justamente defendido (o caso da Ucrânia), enquanto noutros ele é injustamente negado (casos da Palestina e da República Árabe Saaraui Democrática).

(4) O caráter sacrificial da defesa de valores, isto é, a necessidade de os violar para supostamente os defender. Foi em nome da democracia e dos direitos humanos que se invadiu um país soberano, o Iraque, e se cometeram gravíssimos crimes de guerra, hoje documentados graças às revelações do Wikileaks. O mesmo se passou no Afeganistão, Síria, Líbia e, anteriormente, no Congo-Kinshasa, Brasil, Chile, Nicarágua, Guatemala, Honduras, El Salvador, etc. Mas tudo começou muito antes, desde os primórdios do colonialismo. O genocídio dos povos indígenas foi sempre justificado para os salvar de si mesmos. E Afonso de Albuquerque, segundo Governador da Índia, sempre justificou a conquista do comércio das especiarias, até então controlado pelos comerciantes muçulmanos, como uma vitória da cristandade sobre o Islã.

(5) A importância de manter o monopólio sobre os critérios para decidir sobre situações normais e situações de emergência ou de exceção, sendo certo que nestas últimas é legítimo violar alguns dos princípios e valores universais. Depois dos ataques às Torres Gêmeas de Nova Iorque, muitos países foram levados a adotar, independentemente das condições locais, medidas excepcionais de luta contra o terrorismo, nomeadamente a promulgar novas normas de criminalização do terrorismo (o “direito penal do inimigo”) que violam os princípios constitucionais do primado do direito. Muitos países aproveitaram esta legislação de exceção para eliminar ou neutralizar adversários políticos, agora considerados terroristas. Foi o caso dos militantes indígenas Mapuches do Chile por defenderem a integridade dos seus territórios.

(6) A interpretação legítima dada aos valores universais é a que é ratificada pela potência hegemônica do momento. As liberdades autorizadas justificam a repressão das liberdades não autorizadas. Sabe-se hoje que o regime da Líbia foi violentamente eliminado porque o General Kadhafi pretendia dar consistência política à União Africana e substituir o dólar nas transações de petróleo. Da mesma forma, muitos países, sobretudo latino-americanos, centro-americanos e asiáticos, sabem por trágica experiência que eleger democraticamente os seus presidentes não os protege de interferências, golpes e mesmo imposição de ditaduras, se os EUA virem na eleição uma ameaça aos seus interesses econômicos ou geoestratégicos.

(7) Quando não é possível silenciar as violações dos valores universais por parte de aliados da potência hegemônica, tais violações devem ser trivializadas ou justificadas por referência a outros valores supostamente superiores. A ocupação colonial e ilegal da Palestina por parte de Israel — uma das mais graves violações do direito internacional dos últimos sessenta e cinco anos — tem beneficiado de muitas justificações diretas ou indiretas por parte da Europa (incapaz de enfrentar de forma mais honesta as suas responsabilidades históricas) e por parte dos EUA (“Israel é o único país democrático da região”). Crimes de Estado, como o recente assassinato da jornalista palestiniana Shireen Abu Akleh, não merecem mais que uma nota de pé de página, mesmo se tais crimes obedecem a um padrão. Segundo o Ministério da Informação da Palestina, 45 jornalistas foram assassinados por forças israelenses desde 2000.

(8) Expor documentadamente a violação dos valores universais por parte de quem os advoga e, com isso, a hipocrisia e a duplicidade reinantes é considerado um ato inimigo e suscita uma reação implacável que nenhum valor universal pode limitar. Nem sequer o direito à vida. Julian Assange é hoje o símbolo vivo desta duplicidade. Ter exposto os crimes de guerra cometidos no Iraque e ter defendido o anonimato das suas fontes transformou-o num alvo a abater sem dó nem piedade. Com a sua ação, Assange defendeu um dos valores universais, o direito à informação e à liberdade de expressão. Os crimes que denunciou deviam ser de imediato investigados e punidos em tribunais nacionais e internacionais. Em vez disso, é ele quem é punido e será provavelmente eliminado. Em vídeo recente, a sua esposa declara ter informações de que a CIA planeja matá-lo se não for extraditado para os EUA. De todo o modo, nas condições em que se encontra, a sua morte nunca será uma morte natural.

(9) Os valores universais são um catálogo que pode ser consultado por todos, mas só as potências hegemônicas decidem o que entra nele. Por um lado, são considerados ocidentais valores e princípios que muitas vezes na sua origem não são europeus. A sua apropriação quase nunca decorre de diálogos interculturais horizontais, antes envolve frequentemente distorções e seletividades ideológicas. A filosofia grega, que todos prezamos, só em meados do século XIX foi considerada patrimônio exclusivo e distintivo da Europa. Até então era consensual reconhecer as suas raízes na cultura antiga do norte de África, nomeadamente de Alexandria, e da Pérsia. Também se reconhecia que, sem a cooperação da cultura árabe muçulmana, a filosofia grega não teria chegado ao nosso conhecimento: da Casa da Sabedoria da dinastia dos Abássidas em Bagdá no século IX até à escola de tradutores de Toledo dos séculos XII e XIII. Também o Cristianismo é considerado um patrimônio ocidental, apesar de ter nascido no que é hoje o Próximo Oriente.

Por outro lado, desde o século XVI não são admitidos no catálogo dos valores universais contribuições não ocidentais que não se deixem submeter a apropriação (melhor, expropriação). A razão desta situação resulta, como referi, do domínio global, econômico, social, político e cultural do mundo europeu desde o século XV-XVI. Num momento em que a China emerge como uma potência capaz de disputar o domínio global ocidental, é oportuno perguntar por quanto tempo o catálogo dos valores universais vai ficar sob domínio ocidental e com que consequências. As transformações não serão necessariamente para melhor, e podem até ser para muito pior, sobretudo para a região cultural que até agora dominou o mundo. É inquietante imaginar que os países ocidentais sejam amanhã quem sofre com a duplicidade e hipocrisia dos valores universais em mãos de novos “donos”.

É possível que a caricatura degradante que o ocidente fez do oriente (uma caricatura denunciada por Edward Said em Orientalism) seja amanhã substituída pela caricatura igualmente degradante que o oriente fará do ocidente (o Ocidentalismo)? Passar-se-á do eurocentrismo ao sinocentrismo? Ou poderemos finalmente aspirar a um mundo sem pontos cardeais nem centros hierárquicos onde a diversidade cultural, política e epistêmica seja possível, sob a égide de valores emancipatórios que não se deixem violar segundo as conveniências de quem tem mais poder?

 

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Zuckerberg e Big Techs: Falem mal, mas falem em mim


Outro dia publiquei aqui, como venho fazendo há muitos anos (é só pesquisar nos arquivos do Blog), mais um pau nas Big Techs: Mais que dados, o que as Big Techs nos roubam é nossa atenção, nosso tempo —e ele não volta mais.

Hoje, publico aqui uma muito bem produzida postagem de Barbara Thomaz em seu Instagram. É muito ilustrativa da situação que nós, os produtores de conteúdo nas redes sociais, acabamos passando, cada vez mais na mão das Big Techs.

É a armadilha que eles armaram e que nos obrigam a usá-la até para falar mal deles. 

A postagem:



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Prêmio Nobel de Economia critica Trump, mas parece estar falando de Bolsonaro. Confira

Bolsonaro e Trump

Paul Krugman critica em Trump comportamentos iguais aos de Bolsonaro


Bolsonaro já disse ailoveiú pra Trump, já ficou esperando uma hora por um simples aperto de mão do presidente dos Estados Unidos; seu filho, Eduardo, já botou na cabeça um boné defendendo a reeleição de Trump e quer ser embaixador do Brasil nos EUA para ficar mais pertinho dele (e dos interesses dele e dos EUA).

O mimetismo dos Bolsonaro com Trump é de tal ordem que se você que me lê trocar a palavra Trump por Bolsonaro no texto a seguir, do Prêmio Nobel de Economia Paul Krugman, publicado no The New York Times e traduzido aqui por Paulo Migliacci na Folha, vai ver a incrível semelhança entre os dois - ao menos nos defeitos. Confira.
A coisa surpreendente sobre a crise constitucional que enfrentamos no momento é que tenha demorado tanto tempo a acontecer. Era óbvio desde o começo que o presidente dos Estados Unidos [do Brasil] seria um autocrata que não aceitaria limites ao seu poder e consideraria críticas uma forma de traição, e que ele contaria com o apoio de um partido que há muitos anos vem negando a legitimidade da oposição.

Algo como o momento atual era inevitável. O que ainda resta decidir é o resultado. E se a democracia sobreviver –o que de forma alguma é certeza–, isso acontecerá em boa medida por uma dose inesperada de boa sorte: a deficiência mental de Donald Trump. [Bolsonaro]

Não quero dizer que Trump
[Bolsonaro] é estúpido; um homem estúpido não teria conseguido fraudar tantas pessoas por tantos anos. E nem quero dizer que ele é louco, ainda que seus discursos e tuítes ("minha grande e incomparável sabedoria"; os curdos não tomaram parte nos combates do Dia-D) continuem a parecer cada vez mais lunáticos.

Ele é preguiçoso, no entanto, completamente desprovido de curiosidade e inseguro demais para ouvir conselhos ou admitir um erro que seja. E se levarmos em conta que Trump 
[Bolsonaro] é aquilo que acusa muitas outras de serem –um inimigo do povo–, deveríamos ser gratos por suas falhas.

O item noticioso que me levou a pensar sobre isso foi, estranhamente, a mais recente revisão orçamentária do Serviço Orçamentário do Congresso, que projeta um déficit fiscal de quase US$ 1 trilhão (R$ 4,1 trilhões) para 2019 –cerca de US$ 300 bilhões acima do déficit que Trump herdou.

Pouco importa a demonstração clara de que o frenesi dos republicanos da era Obama quanto aos déficits era uma completa hipocrisia. O ponto mais importante é que US$ 300 bilhões é muito dinheiro, e deveria ter bastado para comprar muitos ganhos políticos para Trump.

Afinal, outros nacionalistas brancos que estão tentando fazer a mesma coisa que Trump
[Bolsonaro]está tentando fazer –subverter o Estado de Direito e transformar suas nações de democracias formais em autocracias monopartidárias, para todos os fins práticos– solidificaram seu domínio do poder ao cumprir pelo menos algumas de suas promessas populistas. Na Polônia, por exemplo, o Partido Justiça e Paz aumentou os gastos sociais e agora está prometendo um grande aumento no salário mínimo.

No entanto, a política econômica de Trump
[Bolsonaro] vem sendo a guerra de classes tradicional republicana das classes altas contra as classes baixas. Parte alguma dos US$ 300 bilhões foi convertida em benefícios sociais ou mesmo no plano de infraestrutura que ele promete continuamente mas nunca apresenta. Em lugar disso, o dinheiro foi usado para reduzir os impostos das empresas e dos ricos, e isso pouco fez para estimular o investimento.

Ao mesmo tempo, Trump
[Bolsonaro] levou adiante sua obsessão pessoal com tarifas a despeito de crescentes indicações de que isso está prejudicando o crescimento. A economia deveria ser o grande ponto de venda para ele, em termos políticos. Em lugar disso, as pesquisas sobre seus índices de aprovação na política econômica mal saem do vermelho, em média, e devem piorar à medida que as tarifas sobre bens de consumo se fizerem sentir e a economia se desacelerar.

Mas as oportunidades econômicas desperdiçadas por Trump são evidentemente secundárias, a esta altura, diante do impeachment que corre contra ele.

Algumas semanas atrás, parecia que Trump escaparia de acusações quanto ao seu conluio com a Rússia para subverter a eleição de 2016, e por obstrução da Justiça; o relatório Mueller foi basicamente um fiasco, em parte porque a história era complicada, em parte porque Mueller hesitou.

Mas Trump conseguiu deixar as coisas claras a ponto de qualquer pessoa entender. Primeiro exigiu que regimes estrangeiros obtenham informações negativas sobre rivais na política nacional, não só em telefonemas mas até diante das câmeras. Agora, está envolvido em um esforço cru e óbvio para bloquear o inquérito de impeachment da Câmara, e isso por si só constitui um delito passível de impeachment.

Por que ele está dando tanta munição aos defensores da democracia? Em parte ele parece ter acreditado nas próprias bobagens –ele parece levar a sério as bizarras teorias de conspiração que seus partidários alardeiam para justificar suas ações. E também é evidente que lhe falta qualquer autocontrole. Mesmo que considere que qualquer esforço para responsabilizá-lo por seus atos constitui uma forma de traição, ele deveria ter evitado fazer essa acusação em público.

Por isso, as ações de Trump explicam por que uma votação que autorize seu impeachment, algo que parecia altamente improvável semanas atrás, agora se tornou praticamente inevitável. Continua improvável que o Senado o condene, mas isso deixou de ser tão impossível quanto no passado.

O ponto mais importante é que, se Trump
[Bolsonaro] fosse mais astuto e tivesse mais autocontrole, talvez fosse impossível deter a marcha para a autocracia. Ele tem o apoio de um partido cujos representantes eleitos não mostraram qualquer sinal de escrúpulos democráticos. Conta para todos os efeitos com uma mídia estatal, na forma da Fox News e do restante do império Murdoch de mídia. Já conseguiu corromper agências governamentais importantes, entre as quais o Departamento da Justiça.

De fato, essas vantagens são tão grandes que um ataque à democracia ainda pode sair vitorioso. O único motivo para que isso não aconteça, repito, são as deficiências de Trump
[Bolsonaro].
É muito revelador que o partido republicano atual continue a apoiar solidamente um homem evidentemente inapto, de forma até grotesca, para seu posto (ainda que alguns membros da base republicana agora apoiem o inquérito de impeachment). Mas aqueles de nós que desejam a sobrevivência dos Estados Unidos [Brasil] tais como os conhecemos deveriam estar gratos pela imaturidade e incompetência de Trump
[Bolsonaro]. Suas falhas de caráter são a única coisa que nos dá uma chance de vencer.


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The Economist critica privatizações de FHC e elogia governo Lula
(Atualizado e Corrigido)

Atualização e Correção: Veja ao final da postagem.

Do Blog do Desemprego Zero, por Beatriz Rodrigues Diniz.

Matéria da revista inglesa The Economist publicada na semana passada reconhece o equívoco de um dos principais pilares do governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB): a venda indiscriminada de empresas e bancos estatais. No texto, a publicação afirma que até há pouco tempo no Brasil, acreditava-se que um dos fatores prejudiciais à economia brasileira seria a influência estatal no setor financeiro. Segundo a revista, entretanto, esse controle estatal é o que dá hoje ao País uma situação favorável perante os demais países e, diante da crise mundial, confere uma “situação favorável incomum ao Brasil”.

A matéria se refere à manutenção da gestão estatal, por parte do governo Luiz Inácio Lula da Silva, do Banco do Brasil, da Caixa Econômica e do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), instituições financeiras líderes de empréstimos para empresas e que FHC tentou, sem sucesso, privatizar.

“Outros países estão tentando descobrir como alavancar bancos e direcionar o crédito para as necessidades identificadas. Isso é algo que o Brasil faz, inclusive quando não era ‘moda’. Nos bancos privados, as exigências de depósitos e garantias para financiamentos os impediram de correr os riscos financeiros que acabaram por derrubar bancos na Europa e nos Estados Unidos. Até agora, o crédito do Brasil foi ‘mordiscado’, mas não ‘triturado’”, destacou o texto.

A matéria também sustenta que, na comparação com seu passado recente e na comparação com outros países, a economia do Brasil está em boa forma. “O FMI
prevê que somente os países em desenvolvimento na Ásia, África e Oriente Médio terão melhores resultados em 2009. Em comparação com o contexto anterior, no qual o Brasil sofria uma parada cardíaca a cada estresse de outras economias, isso é impressionante”, diz o texto.

O texto aponta ainda que as razões para a melhoria do crescimento do País estão fortemente atreladas à melhoria do nível da dívida do setor público, que foi um ponto fraco e agora se mantém abaixo dos 40% do PIB, e a outros fatores. “Os empréstimos em moeda estrangeira foram trocados principalmente por títulos em reais. Além disso, o País acumulou US$ 200 bilhões em reservas internacionais para defender o real; seu déficit em conta corrente é pequeno e, o mais importante, a crise não está aumentando a inflação. Isso permite que o Banco Central reduza a taxa básica de juros da economia, permitindo um custo mais barato para a dívida pública. É a primeira vez que o Brasil adota uma política monetária anticíclica”, afirma o texto.

Ao analisar a matéria, o deputado Fernando Ferro (PT-PE) afirmou que o Brasil tem fôlego para enfrentar a crise mundial por conta da resistência contra a onda de privatização que aconteceu na América Latina. “Conseguimos, no Brasil, sustentar como oposição, e com ajuda da reação da sociedade, esse processo de liquidação do patrimônio público. Agora se descobriu, no auge da crise, que é preciso a presença do Estado e estão todos tentando estatizar bancos falidos. Ou seja, transferir recursos públicos para a iniciativa privada”, afirmou.

Segundo ele, a privatização de empresas de energia e de telecomunicações no governo FHC teve consequências desastrosas. “Hoje nos deparamos com as maiores tarifas de energia elétrica do mundo e temos problemas com altas tarifas da comunicação por celular. Foram justamente as duas áreas privatizadas pelo governo anterior. O governo Lula conseguiu evitar a tragédia maior que teria sido a dilapidação da estrutura pública do Brasil”.

Atualização e Correção: Atendendo à solicitação de um comentarista, procurei o link do artigo publicado na revista inglesa. Encontrei e vi que a postagem tem algumas incorreções, a começar pela data: o artigo não é da semana passada, mas do mês passado, e foi publicado no dia 5 de março. Para dirimir dúvidas, leia o artigo na íntegra, que pode ser conferido aqui.

Reaping the rewards of indolence
Some of the unreformed aspects of Brazil’s economy are now helping to limit the damage from the world downturn—but its prudence in recent years is helping too

ANY list of the things that hold back Brazil’s economy would until recently have included overbearing state influence in the financial sector. The government controls Banco do Brasil, a huge retail bank, and Caixa Econômica, the largest mortgage lender, plus the BNDES, a big development bank that feeds cheap credit to favoured companies. Hugely expensive bank loans are a handicap, too. And yet under changed circumstances such lamentable policies suddenly look far-sighted, and have given the global downturn an unusual tinge in Brazil.

Other countries are trying to work out how to run banks and direct credit to where politicians think it is needed. This is something Brazil did even when it was unfashionable. It is a sign of the times that a recent research note on Brazil from Goldman Sachs listed state involvement in banking as a plus. As for the private banks, the huge reserve requirements and taxes on funding that push up the price of their loans discouraged them from the wild risks that have brought down some peers in Europe and America. So far, credit in Brazil has been lightly chewed, not crunched.

Although the country has been spared the worst of the financial crisis, the economy is weakening. Redundancies have shot up, reversing the job growth of recent years in the formal economy (see chart). Embraer, a maker of jets, laid off 20% of its workers on February 19th. Vale, a mining giant, has cut 1,300 jobs and put more than 5,000 other workers on forced leave. Industrial production in December dropped 12%, the biggest fall in 17 years of record-keeping by the federal statistics agency.

This sharp slowdown will make for a grim year. Marcelo Carvalho, an economist at Morgan Stanley, has been forecasting no growth in 2009 and his view is fast becoming mainstream. Brazil is likely to be as late out of the downturn as it was late in. If the past is a guide, its industrial production has followed China’s exports up and down, with a lag of one quarter.

Yet by comparison with Brazil’s recent past, and also with what other countries are experiencing, the economy is in fair shape. The IMF forecasts that only the developing countries in Asia (which are poorer than Brazil), Africa (ditto) and the Middle East will do better in 2009. Given Brazil’s previous tendency to go into cardiac arrest whenever economies elsewhere became stressed, this is impressive. Argentina’s crisis in 2001 and the Asian and Russian crises of 1997-98 were painful and disruptive for Brazil. The country’s hypersensitivity to the vagaries of the world economy stretches back to at least the 1930s, when Brazil suffered a military coup during the Depression.

The reasons for its improvement are largely to do with public-sector debt, which was once a weak point but has been brought down below 40% of GDP. Foreign-currency borrowings have mostly been exchanged for real-denominated ones, so slumps in the currency no longer hurt the government’s balance-sheet. Brazil has built up $200 billion of reserves to defend the real. Its current-account deficit is small. Most important, this crisis is not pushing up inflation—Brazil’s congenital weakness. That in turn has allowed the central bank to cut rates (making public debt cheaper to service). This is the first time Brazil has been able to run a counter-cyclical monetary policy.

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