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O roçar erótico das letras, palavras e sentenças

Leléu saiu do apartamento de Antônio C. deixando-o só com Anabel. Mais uma vez pediu-lhe que guardasse uns pacotes com o que afirmou ser cocaína pura. Antes, cheiraram juntos - Anabel recusou - uma certa quantidade. O bastante para AC perceber que se trata da cocaína “de sempre”. A que lhe causa o mesmo efeito: uma necessidade compulsiva de falar. Ainda mais agora, que está pela primeira vez a sós com Anabel, e em seu próprio apartamento. Isso aumenta a angústia e o obriga a falar sem parar, pelo medo absurdo do silêncio, da pausa que pode levar ao abismo.

Quer desesperadamente impressionar Anabel. Mais até do que impressioná-la, quer não decepcioná-la. E o fato de ela não beber, fumar ou cheirar e ainda manter fixos, profundos e lindos os olhos nele, ao mesmo tempo o fascina, envaidece, e aterroriza. Sente-se como se observado com uma lente de aumento. Tem medo de chateá-la com suas obsessões, seus eternos assuntos sobre a perfeição de Madame Bovary, os inúmeros textos que produziu - todos ainda por concluir -, seu método - ou melhor, sua total falta de método - de escrever; mas ela mantém grudado no rosto um eterno e delicioso sorriso que o estimula a falar ininterruptamente. Sim, Anabel ali à sua frente personifica todas as plateias com que sempre sonhara. Pode abusar de suas frases de efeito, buscar pausas - com idas estratégicas ao banheiro, ou à geladeira, ao bar... - nos momentos em que ela espera uma conclusão, tudo para aumentar a magia, o encantamento, o clima de sedução com que busca envolver a incauta. 

Na verdade, em sua atualização absoluta da vida, que é vivenciada como um eterno momento presente, Antônio C. está completamente apaixonado por Anabel. Não o estava ontem, talvez não o esteja amanhã, mas agora, neste instante em que fala e ela o escuta, tomado de paixão por ela, pretende apenas isso: que ela o admire, o ame, o endeuse eternamente. Se um assunto a interessa, ele o alonga. Desdiz-se descaradamente, se algo parece desagradá-la. Usa inclusive de trapaça para enfeitiçá-la: Malvina havia lhe dito que Anabel gostaria de conhecê-lo por causa de um pequeno roteiro de umas cinco páginas que havia feito como exercício no curso de Gilsa P.

Gilsa o achava muito crítico, com um humor cáustico, e desafiou-o a escrever uma pequena situação romântica. Nada lhe veio à cabeça até que se lembrou de um poema de Drummond, chamado O Amor Através dos Tempos, ou dos Séculos, uma coisa assim - na verdade é “Balada do Amor Através das Idades”. A partir do poema construiu sua história. Agora, diante de Anabel, conta outra. Sabendo-a romântica diz que escreveu a história como uma isca para atraí-la.

— Mas você nem me conhecia — ela sorri.

Quem o vê falando com Anabel e conhece não só a história da criação do roteiro, como os chavões românticos de que é feito, acredita que Antônio C. aja desse modo de caso pensado, apenas para iludir Anabel. No roteiro, um homem persegue uma mulher dizendo que se conhecem há séculos. É uma história dessas absurdas, que qualquer mulher mais prática e realista pode encarar como uma “cantada barata”. Mas “o poeta é um fingidor”, e Antônio C. acredita piamente em tudo o que está dizendo - ao menos no instante em que fala. E para provar que não está mentindo, procura por papéis guardados, trechos antigos escritos, relê o roteiro com ela – mostra-lhe até o rascunho com anotações - tem o hábito de guardar tudo o que escreve, “para a posteridade”... Tudo isso às custas de mais e mais excitação nervosa, que ele afoga com Jack Daniel’s, calibra com cocaína, amacia com maconha. 

Quando dá por si, ela já acelerou o carro, cantando pneus em disparada. É manhã, e ele percebe que passou a noite inteira falando, falando e falando, sem dar um beijo sequer em Anabel - a não ser o formal, de despedida -, sem nem uma única vez ter tentado uma aproximação de corpos, tendo se deixado levar apenas pelo prazer de encaixar as palavras umas nas outras, esse roçar erótico de letras, palavras e sentenças, que – quem sabe? – ela talvez também tenha aproveitado. 

*Este é um capítulo de meu romance Madame Flaubert, lançado pela Publisher, em 2013. Você ainda o encontra à venda na internet. Mas se quiser receber um exemplar autografado em sua casa escreva para blogdomello@gmail.com. Para saber mais sobre este e outros livros de Antonio Mello: linktr.ee/blogdomello


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Colabore com o Blog do Mello e receba em sua casa autografado meu romance 'Madame Flaubert'

Já escrevi aqui que este é o último ano do Blog do Mello, que vai ser descontinuado em abril do ano que bem, quando completará 18 anos de vida.

Mas, até lá, conto com a colaboração dos leitores para ajudar a manutenção do blog, que, no caso, significa a do blogueiro.

Colaborando com R$100 (ou mais, a depender de suas possibilidades) você vai receber em sua casa, autografado, meu romance Madame Flaubert, que publiquei pela Publisher, em 2013.

Madame Flaubert conta a história de Antônio C. e de seus colegas de um curso de roteiro ministrado por uma famosa autora de telenovelas.
Antônio C. está disposto a escrever um romance que seria a transposição do Madame Bovary de Flaubert para os anos Collor —os mais medíocres de nossa História se não tivéssemos hoje o mais infame de todos, o de Bolsonaro.
A vida de Antônio C, e seus colegas, suas frustrações e projetos, enquanto discutem o mundo, seus roteiros e o preço das cervejas, engolfados pela realidade brasileira.
Madame Flaubert tem uma página no Facebook (facebook.com/madameflaubert) com mais detalhes, trechos do livro, e também sobre a Bovary de Flaubert.

Para receber o livro, basta fazer um PIX para blogdomello@gmail.com e me enviar o comprovante, o endereço e o nome da pessoa que receberá o livro, caso seja um presente. Pode enviar por e-mail (o do PIX) ou via WhatsApp, no cadastro aqui embaixo, o que fará com que você passe a receber também as atualizações do Blog do Mello por WhatsApp. Obrigado.

Você também pode ler sobre Madame Flaubert aqui ("De certa forma, em Madame Flaubert o leitor se sente parte da obra, se sente vivo junto com cada personagem ali descrito. Torce e tenta adivinhar qual será o seu destino") e aqui ("Madame Flaubert é um romance excepcional").

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Madame Flaubert é uma 'obra tão bem trabalhada que nos proporciona uma viagem literária única', por Karina Belo


Uma divertida resenha sobre meu romance Madame Flaubert, publicada por Karina Belo na Casa de Livro. Madame Flaubert foi publicado em 2013 pela Publisher.

Madame Flaubert é uma obra incrível, que nos conecta com uma história peculiar, e irresistível.
Antonio Mello nos conta a sua história em dois pontos de vista, personagens distintos, que de alguma forma terá sua vida ligada, por algum evento da história.
Ema sempre foi uma menina ambiciosa, estudando em um colégio de freiras, ela seduziu Marina, uma amiga que estudava no mesmo local. Marina sempre foi rica, de família importante. Tudo o que Ema sempre sonhou.
Agora depois de anos passados, ela se casa com Carlos B., Ema imaginou que ele iria crescer na vida, tornar-se rico e dar uma vida privilegiada a mesma. Mas nada disso aconteceu. A esposa sempre jogou na cara de Carlos que era um fracassado, que ela só tinha aquela vida medíocre por sua culpa.
Carlos que sempre fez de tudo por aquela mulher, que a amou incondicionalmente, que parou de beber para poder dar uma vida melhor a ela, se sentia culpado pelos desejos da esposa. Essa mania de grandeza, de querer ser rica, ainda iria acabar com a vida de Ema, mesmo ele a protegendo ela iria se afundar.
As vésperas da eleição que tem como mais forte candidato Fernando Collor, ela se aproxima novamente de Marina. Ema sabe que o marido de sua amiga trabalha com Collor, e o político é seu príncipe, a pessoa que ela escolheu para usar até atingir seu caminho de glória. Mas Ema não poderia imaginar o que estava por vir.
Sua vida virou um caos, e a única pessoa que esteve ao seu lado foi... Carlos.
O que aconteceu com essa história COLLORida de Ema?
 Em contrapartida, Antonio Mello nos escreve sobre personagens irônicos, e inesquecíveis. Um grupo de roteiristas que tem como “mente brilhante”, Antônio C., ou melhor, AC.
AC é um escritor que se afundou na bebida e nas drogas. Sempre alterado, não consegue terminar um romance, aonde vem trabalhando com afinco, porém sem sucesso. Antonio usa elementos da realidade em seu romance, para ele tudo é literatura.
Sempre bêbado, não consegue mais discernir o que é real ou ficção, de certa forma se apoia nos colegas para encontrar um pouco de verdade em sua vida.
 Juntamente com seus amigos, ele vai escrevendo seu romance, onde seus personagens são pessoas reais.
Ele luta contra ele mesmo, e contra os efeitos das drogas para terminar seu romance.
Cada personagem da história tem suas crises, vícios e sonhos.
Todos destruídos de uma forma eletrizante.
Histórias que vão se ligando na obra, e no fim recebem um mesmo destino.
Antonio Mello utilizou de fatos que nós conhecemos pela mídia, como quando Collor é eleito e depois deposto, como a filha de Glória Perez que morre assassinada pelo ator que trabalhava com ela.
 De certa forma, em Madame Flaubert o leitor se sente parte da obra, se sente vivo junto com cada personagem ali descrito. Torce e tenta adivinhar qual será o seu destino.
Parabéns Antonio Mello pela obra tão bem trabalhada que nos proporciona uma viagem literária única. E o obrigada do Blog Casa de Livro, por nos presentear com um exemplar.
Qual será o destino de Ema B.?
AC conseguirá finalizar seu romance?
Qual caminho os personagens da trama traçarão?
Uma obra que todos devem ler.
Casa de Livro Recomenda.




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'Madame Flaubert', uma Madame Bovary nos anos Collor, no romance de Antonio Mello


Em 2013, publiquei meu romance Madame Flaubert pela Editora Publisher. O livro conta parte da vida de Antonio C., um aspirante a escritor que enche a cara enquanto tenta escrever seu primeiro romance, uma adaptação do Madame Bovary de Flaubert passado nos anos Collor, ao mesmo tempo em que frequenta um curso de teledramaturgia e convive com as aspirações de outros meio pirados e angustiados como ele. 

Instigante, genial e sofisticado, ao mesmo tempo, o novo romance de Antonio Mello se passa no Rio de Janeiro do início dos anos 1990. Rio de Janeiro, início da década de 1990. Eleição de Fernando Collor. Esse é o cenário do novo romance de Antonio Mello, Madame Flaubert, da Editora Publisher Brasil. O título da obra faz uma brincadeira com a afirmação do escritor Gustave Flaubert, madame Bovary c’ est moi, e já dá pistas ao que o leitor vai encontrar: um romance dentro de um romance, dentro de um romance, como se fosse uma boneca russa. Ou como define o professor de Teoria da Literatura da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Gustavo Bernardo, “sugere, também, uma daquelas gravuras de M. C. Esher, em que as figuras que parecem sair de um quadro ou de uma folha de papel se encontram, por sua vez, em outro quadro ou folha de papel”.

Instigante, a obra tem como personagem principal Antonio C. e a história de sua Ema Bovary. “A história mostra personagens em crise procurando tanto o sucesso quanto o sentido, comumente confundindo um com o outro”, diz Bernardo, que considera o romance excepcional.

“Lê-se como se fosse um romance genial e sofisticado e, ao mesmo tempo, lê-se como se fosse um romance policial e eletrizante. Ou seja: a chamada alta literatura mistura-se desavergonhadamente com a chamada baixa literatura, a literatura popular, de mercado, e o resultado é fascinante.” – Gustavo Bernardo. [apresentação do livro pela editora]


O livro está em promoção na Livraria da Fórum por apenas R$3,90. https://www.loja.revistaforum.com.br/produtos/madame-flaubert/




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Já à venda o novo livro de Antonio Mello, 'Ela'. Saiba mais

 
É com alegria que comunico aos leitores, assinantes e amigos do Blog do Mello que acabei de publicar esta manhã meu quinto livro, Ela. Por enquanto apenas em formato e-book. Para o início do ano que vem teremos o lançamento em papel.
Cantor e compositor que foi famoso é acordado por batidas violentas à sua porta. Em fuga, ele conhece ELA, e se envolve numa trama internacional de uma Organização determinada a assassinar todos os bilionários do planeta.
Ele suspeita que ELA pertença à Organização, mas, seguindo o impulso de dar novo sentido a sua vida, segue e vive com ELA uma aventura explosiva, que vai modificar sua vida para sempre.
Garanto que é uma boa leitura para esses tempos de pandemia no mundo desigual em que estamos vivendo.
 
Aguardo opinião de vocês.

Clique aqui para comprar Ela, de Antonio Mello, na Amazon.



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Há 162 anos, Flaubert começava a escrever Madame Bovary, o primeiro romance moderno

O próprio Gustave Flaubert anotou na primeira folha em branco que recebeu o texto de Madame Bovary: 19 de setembro de 1851, à noite.

Segundo Mario Vargas Llosa, num livro dedicado a Madame Bovary, Flaubert trabalhou quatro anos, sete meses e onze dias, praticamente sem interrupções, na construção do romance. Todos os dias em que ficou sem trabalhar, se somados, não chegariam a um décimo do tempo total.

Mais informações e a reprodução do original da primeira página manuscrita por Flaubert, você encontra na fan page de meu romance, Madame Flaubert, uma homenagem ao autor e seu romance.

O personagem principal, Antônio C., gostaria de escrever um romance revolucionário e preciso como o de Flaubert. Para isso, trouxe a heroína para os anos Collor.

Só que, enquanto Flaubert praticamente não ficava sem escrever seu romance, exatamente o oposto acontece com Antônio C., que bebe por dez dias e praticamente não escreve em nenhum.

Rotina que ele pretendeu modificar radicalmente. Será que conseguiu?

Clique aqui e vá até a fan page de Madame Flaubert. Aguardamos sua visita e sua curtida.


Madame Flaubert, de Antonio Mello

Trechos do romance Madame Flaubert, de Antonio Mello

Aqui, Ema B. (a Ema Bovary de Antônio C.), num táxi por Botafogo e Copacabana, e com lembranças do primeiro beijo, que recebeu da amiga Marina (e que se tornou sua primeira namorada), à casa de quem se dirige agora, mais de 20 anos depois.


3.
O táxi segue pela noite do Rio. Logo que entrou, Ema disse ao motorista o destino, pediu que desligasse o rádio e fechasse os vidros para não desarrumar seus longos cabelos castanhos.
            O motorista olhou para ela e pensou, aborrecido: nem um “por favor”!... Sim, era o que ele esperava dela, um mínimo de educação: “o senhor pode fechar as janelas, por favor, desligar o rádio, por favor, e ir até a avenida Atlântica, por favor?”...
            Olha-a pelo espelho retrovisor e percebe que está aflita e distante. Repara nela por um tempo, até ter a certeza de que não olha um instante sequer para o taxímetro. Aperta, então, um dispositivo que faz o relógio disparar, aumentando o preço da viagem. Ela nada percebe. Ele sorri. Já não precisa do rádio ligado, nem das janelas abertas, muito menos do "por favor"... Sorri e acelera tranquilamente, vitorioso.
            Ema repara a rua. O motorista seguiu o Humaitá para pegar Copacabana pelo Túnel Velho. Estão na Pinheiro Guimarães, em direção ao Cemitério de São João Batista. Ema pensa que seu pai está enterrado ali. Sua mãe também. E também outros inúmeros parentes e amigos. Pessoas famosas, como Carmem Miranda. Pessoas anônimas.
            Ela pensa que lá nos fundos, em cima do morro, dizem, fica um cemitério de cachorros. Será? Sabe, apenas, que se sente nublada, quase que com um sentimento de luto. Não por ninguém especificamente. Nem pelo pai ou a mãe. Talvez por todos os que já morreram. Ou pelos que ainda morrerão. Muito provavelmente, por ela. E o sentimento de luto faz com que pense na sua morte. E o pensamento da morte, em Deus. Deus leva-a ao sinal da cruz. O sinal da cruz a uma oração. Pai Nosso. Mas mudaram o Pai Nosso. Como é mesmo, em lugar de "perdoai as nossas dívidas"?... Ela se perde na oração, enquanto o carro passa em frente ao cemitério.

4.
As meninas usavam um vestido estilo jardineira azul marinho, quase até os tornozelos. Camisas brancas de mangas compridas, fechadas até em cima, onde um laço de fita também azul marinho lembrava uma gravata borboleta. O colégio das madres era grande, com uma área imensa, no coração da Floresta da Tijuca. Jaqueiras, pés de jambo que enchiam o chão de flores cor-de-rosa.
            O pátio está vazio. É hora de aula, as salas lotadas. Professoras explicam álgebra, geografia, linguagem - como se dizia na época -, com direito a Leitura Silenciosa, e religião.
            Duas meninas, apenas as duas, passeiam pelo pátio apressadamente, como que fugindo de alguém, ou de todos. Uma, morena. A outra, loura. Dez, onze anos. Saem da área cimentada, ao encontro da floresta. Escondem-se atrás de uma árvore, o coração quase na boca, de emoção. Sentam-se. Seguram-se as mãos.
            - Você viu a novela ontem? - a morena.
            - Vi... A briga do Lucas com a Marlene...
            - Eu tô falando de outra coisa...
            A loura tem medo, porque adivinha. Mas um medo que não faz recuar, ao contrário, aumenta o desejo.
            - Do quê? - a loura.
            - Do beijo que ele deu...
            A loura estava certa. Sabia que era sobre o beijo que a morena queria falar.
            - Eu vi... Um beijo na boca - a loura.
            - Você já deu beijo na boca?
            A loura tem a certeza. Mais: medo. E também desejo.
            - Eu não!, diz, com pudor. E você?, pergunta à morena.
            - Eu já dei.
            - Mentira! Mentira sua! Deixa de ser mentirosa!
            - Dei sim!... Foi no Beto, meu primo. A gente brincou de pera, uva ou maçã.
            - Mentira!
            - Eu juro!... Quer ver como é que é?
            A loura sabia que esse momento aconteceria. Desde o instante em que chegou à escola, pela manhã, e a amiga propôs que fugissem na aula da irmã Robleda, velhinha, professora de linguagem. Desde então ela sabia de tudo. E aguardava.
            - Quer ou não quer? - a morena, que parece não ter medo de nada.
            - Quero, diz a loura, num fio de voz.
            Nervosamente, elas se aproximam. Olhos nos olhos, as mãos suadas, o coração mais que disparado. O tempo parece uma eternidade, os gestos lentos e estudados, como os de um ritual. A morena encosta o rosto no da loura, seus lábios nos dela, e coloca a língua lá, para espanto da loura, que arregala os olhos, mas cede, abrindo completamente seus lábios, e deixando o corpo relaxar e deslizar suavemente em direção àquele outro corpo à sua frente.
            - Ema! Marina! - a voz da Madre Silva, responsável pela disciplina, procurando pelas duas.
            O beijo se desfez, restou apenas o medo. E essa não foi a última vez em que as duas tiveram suas cenas roubadas.



5.
E agora é o motorista de táxi quem interrompe Ema.
            - Para que lado da Atlântica nós vamos, madame?
            Ela tem dificuldades em responder. É trabalhoso voltar de há mais de vinte anos. Mas responde.
            Logo, estão em frente ao prédio de Marina. Ema, ao olhar para o taxímetro, percebe que está adulterado. Outra pessoa brigaria. Ela não. Aprendeu de pequena a evitar escândalos, mesmo que para defender seus direitos. Uma mulher de classe não fala alto, não discute, apenas ordena ou se submete, e jamais se rebaixa. Um motorista de táxi, pensa ela, é um pobre diabo, não vai, jamais!, discutir com um. Paga. Deixa o troco, como forma de vingança, como quem diz "tem mais de onde esse veio". O motorista acelera, satisfeito, enquanto ela, a morena, anda em direção ao prédio de Marina, a cabeça altiva, os passos firmes, mas por dentro queimando, insegura, não por causa do motorista, mas por não saber "no que a loura estará pensando"... Há tempos não se vêem. Logo, estarão frente a frente: a menina morena e a menina loura. É com essa emoção que Ema se dirige à portaria do prédio de Marina; uma emoção que talvez seja a única que ainda a toque, mesmo que tão à distância.

Para mais informações sobre o romance, clique no banner abaixo.


Madame Flaubert, de Antonio Mello

'Madame Flaubert é um romance excepcional' - Gustavo Bernardo sobre meu romance Madame Flaubert

Gustavo Bernardo é escritor e professor associado na UERJ, onde leciona Teoria da Literatura. Talvez seja o único escritor no Brasil a ser finalista do Jabuti em três categorias diferentes: literatura infantojuvenil (A Alma do Urso), romance (Lúcia) e Teoria Literária (A Dúvida de Flusser). Sobre meu romance Madame Flaubert, ele escreveu:

Madame Flaubert é um romance excepcional. 

Seu título, brincando com a afirmação de Flaubert, madame Bovary c’ est moi, indicia que ele se arrisca a fazer um romance dentro de um romance dentro de outro romance, como se fosse uma boneca russa que se naturalizasse brasileira.

Sugere, também, uma daquelas gravuras de M. C. Esher, em que as figuras que parecem sair de um quadro ou de uma folha de papel se encontram, por sua vez, em outro quadro ou folha de papel. Da mesma forma, os personagens desse livro escrevem novelas e livros e parecem interagir com os personagens que por sua vez inventam, matando-os e sendo mortos por eles, o que acaba sendo o enredo de um romance chamado... Madame Flaubert.

Tudo acontece no início dos anos 90, quando Collor foi eleito e depois deposto, e quando uma atriz, por acaso filha da autora da novela em que atuava, foi morta por um ator, por acaso seu par romântico na mesma novela. Glória Perez e Fernando Collor têm participações incidentais, mas importantes, no romance de Antônio Carlos de Mello. A história mostra personagens em crise procurando tanto o sucesso quanto o sentido, comumente confundindo um com o outro.

Lê-se como se fosse um romance genial e sofisticado e, ao mesmo tempo, lê-se como se fosse um romance policial e eletrizante. Ou seja: a chamada alta literatura mistura-se desavergonhadamente com a chamada baixa literatura, a literatura popular, de mercado, e o resultado é fascinante.

Antônio Carlos de Mello, que agora assina simplesmente Antonio Mello, publicitário, até hoje publicou pouco: A metáfora de Drácula (Rio de Janeiro: José Olympio, 1982), um fascinante livro de contos, e A fome e o medo (Rio de Janeiro: edição da InternAD, 1998), um panfleto no nível daqueles que Swift fazia. Ou não tem muita consideração pelos leitores, ávidos de literatura de fato instigante, ou estava se guardando para preparar essa obra-prima, chamada Madame Flaubert.

Aguardo leitura e comentários de vocês, e também uma ajuda na divulgação.

O livro já está à venda no site da editora Publisher, por apenas R$ 30 e com frete grátis para todo o Brasil. Clique aqui ou no banner abaixo para conhecer um pouco mais do livro e também efetuar seu pedido.


Madame Flaubert, de Antonio Mello

Madame Flaubert, romance de Antonio Mello (do Blog do Mello), lançado pela PublisherBrasil (do Renato Rovai)

Aqui ao lado, você pode ver a reprodução da capa de meu terceiro livro publicado, o romance Madame Flaubert, editado pela Publisher. A seguir, o texto que fiz para as orelhas do livro:






Bem-vind@ a Madame Flaubert.

Desde criança, minha paixão sempre foi escrever. E não ter medo de chavões, caso eles sejam verdadeiros, como na frase anterior.
Tenho dificuldade de falar em público, de me concentrar (especialmente se houver música) e de me comportar segundo as etiquetas.
No entanto, até esses meus mais de 50 anos de vida, vivi assim, ironicamente (uma de minhas frases prediletas é “Deus é ironia”), de fazer o que mais tenho dificuldade.
Como publicitário e marqueteiro político, na maioria das vezes vendi sonhos que nunca foram meus.
Mas também descobri qualidades minhas que nunca viriam à tona se não fosse pela força da necessidade. Aqui, coloco o jinglista premiado e procurado que sou - embora não toque instrumento algum, assim como não consigo andar de bicicleta ou dirigir automóveis (mas sou excelente co-piloto... rsrs).
MADAME FLAUBERT é, seguindo esse estranhamento, um bildungsroman, um romance de iniciação, embora eu tenha publicado com relativo sucesso o livro de contos “A Metáfora de Drácula”, há mais de 30 anos, em 1982, pela antiga e prestigiada Livraria José Olympio Editora, o que muito me orgulha. E depois um maldito (no bom sentido) “A Fome e o Medo”, em 1999.
Este livro é também o primeiro de uma trilogia, que tem como personagem principal o estranho Antônio C. Nele, trabalho a construção do romance, e é possível, a um observador atento, subir degrau a degrau essa montagem.
O segundo, que devo concluir até o final do ano, vai se chamar “Maravilhoso Mundo das Mulheres”, e, nele, a trama tenta ser protagonista, embora a forma literária imponha seus gloriosos limites.
O terceiro ainda está por se construir, mas tem título e provocação literários: Vai se chamar “Afinal, o que elas querem?”, que chupei de uma famosa frase atribuída a Freud. Uma investigação sobre essas criaturas que tanto nos (ou, pelo menos, me) fascinam: as mulheres.
Tenho um blog que não trata de nada disso, mas de política, o Blog do Mello, que completou agora neste 2013 oito anos. E que também me dá muito prazer e me trouxe novos amigos.
O que espero que este romance também possa produzir, ao menos, como diria Antônio C., “pelo prazer de encaixar as palavras umas nas outras, esse roçar erótico de letras e sentenças”.

Aguardo leitura e comentários de vocês, e também uma ajuda na divulgação, como diz o cabeçalho do blog, remando contra a maré.

O livro já está à venda no site da editora Publisher, por apenas R$ 30 e com frete grátis para todo o Brasil. Clique aqui ou no banner abaixo para conhecer um pouco mais do livro e também efetuar seu pedido.


Madame Flaubert, de Antonio Mello