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Noite de Natal — por Eduardo Galeano

A imagem que ilustra esta postagem é de um menino palestino, que foi atendido em Gaza. Ele tremia demais, apavorado, como seus olhos mostram, e não havia o que o fizesse parar de tremer. Até que o médico se chegou até ele, acolheu-o, abraçou-o, e ele, aos poucos, parou de tremer.

Instante semelhante a este, em outro local (Manágua e não Gaza), mas com a mesma humanidade, é captado e relatado com a empatia do genial Eduardo Galeano neste texto:

Noite de Natal


Fernando Silva dirige o hospital infantil de Manágua.

Na véspera de Natal, ficou trabalhando até bem tarde. Os fogos já espocavam, e o céu se iluminava com eles, quando decidiu ir para casa. Uma festa o esperava.

Percorreu as salas pela última vez, para ver se tudo estava em ordem, e nisso sentiu que uns passos vinham atrás, com toques de algodão. Voltou-se, e viu um dos pequenos pacientes que caminhava atrás dele. Na penumbra, reconheceu quem era. Era um menino, que ninguém visitava. Fernando reconheceu-lhe o rosto, já marcado pela morte, e aqueles olhos que pediam desculpas ou, quem sabe, licença.

Fernando se aproximou, e o menino deu-lhe a mão.

— Diga a… — soprou-lhe o menino...

— Diga a alguém que eu estou aqui.



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O menino Jesus é uma criança palestina e um sinal de vitória

Meu menino Jesus está ferido, mas vivo. Perdeu um braço, mas faz o sinal de vitória com a mão que lhe sobrou. E ainda sorri, porque meu menino Jesus é palestino, é valente, é semente, como o primeiro menino Jesus, aquele que prenderam na cruz. 

Meu menino Jesus talvez seja uma menina, porque não fica claro a que sexo pertence essa criança ferida por Israel, que objetivava matá-la, como Herodes e os que condenaram Jesus à cruz, mas não conseguiram.

Minha criança Jesus é isso, criança, nascida antes do evento que todos esperamos, a meia noite da virada do dia 24 para 25 de dezembro, quando os cristãos comemoram, por convenção, o nascimento de Jesus Cristo, aquele menino, aquela criança que teria vindo ao mundo para nos salvar.

Quantas Marias também não tentaram chegar a um lugar seguro neste Natal para o nascimento de seus filhos? Quantas Marias assassinadas pelas bombas de Israel entre as seis mil mulheres mortas até o momento?

Pelo exército de Israel, com soldados que mandam fazer camisetas com uma mulher palestina grávida, um alvo desenhado sobre sua barriga e as palavras "1 shot, 2 kill". Uma bala, dois palestinos mortos.

Quantas crianças Jesus não foram assassinadas até o momento? São quase oito mil. E continuam morrendo de morte matada, fria e covarde.

Algumas Marias conseguiram chegar à maternidade. Mas Israel destruiu a maternidade. E elas tiveram que fugir.

E saíram com suas barrigas, como a Maria original, aquela do Jesus original, à procura de um lugar para deixar nascer a criança que quer vir ao mundo, mesmo que parte do mundo, através das bombas e do silêncio e/ou apoio de muitos, queira assassiná-la, ainda no ventre.

Algumas crianças nasceram prematuras, estavam em incubadoras no maior hospital de Gaza, aquela coleçãozinha de crianças Jesus, com oxigênio lhes escondendo boca e nariz, mas salvando-lhes a vida. 

Até que as forças de Israel tomaram o hospital, mandaram evacuá-lo e não ofereceram condições, nem permitiram que condições fossem criadas, para que aquelas crianças Jesus nas incubadoras pudessem enfim respirar o ar sem ser o do hospital.

Todas aquelas crianças Jesus morreram.

Como foram encontradas anteontem quatro Marias grávidas, ainda com os bebês em seus ventres, que simplesmente foram mortas e terraplanadas pelos tratores de Israel, que estão "limpando" Gaza, transformando-a num campo nivelado, onde antes havia prédios, apartamentos, casas, quartos, móveis, brinquedos, gente, crianças. Vida.

Mas minha criança Jesus, apesar de tudo, sorri para a câmera e faz o sinal da vitória, como o pioneiro menino, que morreu aos 33, mas vive até hoje e até hoje nos faz sonhar com um mundo justo, onde as crianças possam nascer e viver e sejam sempre bem-vindas, nunca bombardeadas, assassinadas.

Ainda hoje, uma mãe palestina dará à luz na Palestina ocupada e bombardeada, mesma terra onde nasceu o menino Jesus, uma criança que ainda teima em sua barriga. 

E é pra ela que a criança da foto faz o sinal de vitória. Porque é. E será. Sempre.

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Por que este ano não vai ter festa de Natal em Belém, onde nasceu Jesus? Será o fim da presença cristã na região?


A época do Natal costuma ser muito festejada na cidade de Belém, na Cisjordânia ocupada, local de nascimento de Jesus Cristo. Mas este ano todas as festividades foram canceladas "em luto e honra" pelos 20 mil palestinos (70% mulheres e crianças, como o menino Jesus) assassinados por Israel na região.

O reverendo Isaac Munther, pastor palestino de uma importante igreja luterana em Belém, no inicio deste mês montou um presépio com a figura de Jesus Cristo num keffiyeh (o lenço quadrado usado por palestinos), rodeado por escombros [imagem]. Ele explicou por que não haverá a tradicional festa de Natal este ano.

O Natal é um raio de luz e esperança vindo do coração da dor e do sofrimento. O Natal é o brilho da vida vindo do coração da destruição e da morte. Em Gaza, Deus está sob os escombros. Ele está na sala de cirurgia. Se Cristo nascesse hoje, nasceria sob os escombros. Convido-vos a ver a imagem de Jesus em cada criança morta e retirada dos escombros, em cada criança que luta pela vida em hospitais destruídos, em cada criança em incubadoras. As celebrações do Natal estão canceladas este ano, mas o Natal em si não é e não será cancelado, pois a nossa esperança não pode ser cancelada.

Outro reverendo, Mitri Raheb, presidente da Universidade Dar al-Kalima, falou ao Democracy Now sobre o cancelamento das festividades e até o possível fim da presença cristã em Gaza. Trechos:

"É um Natal muito triste. Não creio que em toda a minha vida tenha sentido tanta tristeza, mas também tanta raiva pelo que está acontecendo em Gaza. As festividades foram canceladas em Belém, então você não tem luzes de Natal. Você não tem árvore de Natal em Belém. Não há turistas vindo, por causa da guerra. E o povo não está pronto para celebrações, porque o nosso povo em Gaza, mas não só o nosso povo em Gaza, também o nosso povo na Cisjordânia, nós aqui na Cisjordânia, estamos vivendo o apartheid, a colonização por colonos judeus. O número de mortos hoje chega a 20 mil em Gaza, mas também na Cisjordânia está na casa das centenas. E também os detidos, os detidos palestinos por Israel nestes 75 dias aqui na Cisjordânia são mais de três mil.

"E a história do Natal é na verdade uma história palestina, por excelência. Fala de uma família de Nazaré, no norte da Palestina, que é ordenada por um decreto imperial dos romanos a evacuar para Belém, para lá ir e registrar-se. E é exatamente isto que o nosso povo em Gaza tem vivido nestes 75 dias. O Natal fala de Maria, a mulher grávida em fuga, exatamente como 50 mil mulheres em Gaza que estão efetivamente deslocadas. Jesus nasceu na verdade como um refugiado. Não havia lugar na pousada para ele nascer, então ele foi colocado numa manjedoura. E é exatamente isto que também as crianças que hoje em dia estão nascendo em Gaza estão vivendo. A maioria dos hospitais está destruída, fora de serviço e, portanto, não há locais de parto para todas essas mulheres grávidas em Gaza. E então você tem o sanguinário Herodes que ordenou matar as crianças em Belém para permanecer no poder. E em Gaza, mais de oito mil crianças foram assassinadas para que Netanyahu permaneça no poder.

"Estes são os presentes de Natal de Israel para nossa comunidade cristã. E temo que este seja o fim da presença cristã em Gaza. Uma presença de dois mil anos. O cristianismo chegou a Gaza já no primeiro século. E ao longo dos últimos 20 séculos houve ali uma obra cristã viva, uma comunidade cristã próspera em Gaza. E penso que esta comunidade será extinta por causa da guerra de Israel em Gaza. Três por cento da comunidade cristã em Gaza foi assassinada nestes 75 dias. Três por cento".


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Estamos no pior momento da COVID, desde o início da pandemia. Cuide-se, cuide dos seus, porque este governo é da morte


O Brasil registrou a maior média móvel de casos confirmados de Covid-19 desde o início da pandemia. Repito: O Brasil registrou a maior média móvel de casos confirmados de Covid-19 desde o início da pandemia: foram 47.439 diagnósticos diários, em média, nos últimos 7 dias, segundo dados das secretarias estaduais de Saúde consolidados pelo consórcio de veículos de imprensa até as 20h deste sábado (19). [Fonte: G1]
 
Parece que a descoberta da vacina, já aplicada em alguns países, e sabe-se lá quando aqui no Brasil, liberou geral e as pessoas estão saindo às ruas como se não houvesse o vírus e sua muitas vezes mortal doença, a COVID.
 
É Natal e as pessoas querem confraternizar. Com a família, com colegas do trabalho, colégio, faculdade, turma da academia, da praia ou do boteco. Mas pense que a vida segue, outro Natais virão, outros finais de ano. Menos para os que não chegarem até lá. 
 
Já imaginou passar o Natal com aquele parente ("tenho que ir, ele(a) está tão velhinho(a), pode ser o último Natal dele(a)") e você ser a causa da morte dele(a), ou causa de sua própria morte, por exposição ao vírus?
 
Cuide-se. Cuide dos seus. Estamos sob governo da morte, comandado por um genocida, que dá um simulacro de entrevista dizendo que a COVID está no finalzinho, quando ela está no ápice e em crescimento, e já há quem preveja a impensável chegada de 2 mil ou 2,5 mil mortos em fevereiro... 
 
Bolsonaro não está nem aí pra você. Seu único pensamento é livrar a cara do filho e a própria no processo de corrupção da famiglia conhecido como das rachadinhas.
 
Sei que é bom comemorar que a vacina já está por aí, mas não se sabe quando aqui ("pra que essa ansiedade toda?", perguntam o inominável genocida e seu general Cloroquina).

Só que é bom fazer um alerta: Vacina previne. Não cura. Nem ressuscita.



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Janio de Freitas: 'Tudo o que importa para o presente e o futuro da nação e seu povo, foi devastado, abandonado, negado, traído em 2019'

Print manchete coluna de Janio de Freitas

Em sua coluna dominical na Folha, o jornalista critica governo Bolsonaro-Guedes


Leia a seguir trecho da coluna de hoje de Janio de Freitas:
Não incluí votos de Natal e de Ano-Novo, nem mesmo sisudos, nos textos recentes. Senti que, sem ressalvas, cometeria alguma hipocrisia, não crendo na possibilidade do que diria. E ressalvas não eram próprias para a ocasião. Não duvido de que parte das previsões otimistas para 2020 venha de convicções e esperanças verdadeiras —o que, em todo caso, não se confunde com fundamento. Não foi assim, porém, a maioria do que se leu e ouviu.

A sinceridade não é bem vista, com escassas hipóteses de exceção. Esse é um vício forte e muito difundido do jornalismo, não só o nosso. Os viciados constrangidos recorrem à dubiedade, ao negativo seguido da compensação positiva. Nada os impedindo, nem aos mais extremados, de mostrar nas suas relações o oposto do que escrevem ou dizem como profissionais.

A economia é um campo pródigo nesses tipos, muito mais extenso e nefasto do que qualquer outro. Nem por isso a prática é menos comum na política.

Nestes dias, um exemplo à mão: a imprensa e o jornalismo eletrônico dos Estados Unidos estão repletos de artigos críticos a Trump, pelo risco de guerra que abriu para provável neutralização do seu impeachment, mas também justificadores da pretensa defesa da honra nacional, ou coisas assim. “Tudo é relativo”, ouve-se cá e lá. Mentira. A integridade profissional, entre outras, não é.

As obrigações e programas sociais de governo foram devastados em 2019 e ainda mais esmagados por Paulo Guedes e Jair Bolsonaro no planejamento para 2020. O Bolsa Família perde R$ 2,5 bilhões. Foram reduzidos à metade os insuficientes recursos para fiscalização trabalhista, sendo o Brasil um caso escandaloso de desrespeito às normas e à segurança no trabalho.

O programa de Educação de Jovens e Adultos só recebeu em 2019 R$ 16 milhões até meados de dezembro, 1,6% do que já recebia em 2010, chegando em 2012 a R$ 1,6 bi, com fantástica recuperação de jovens e adultos que deixaram a escola.

A Presidência da República, que concentra a direção de toda a propaganda governamental, faz publicidade na CNN do avanço no programa de moradias proporcionadas pelo governo. É mentira. A verba para 2020 foi reduzida à metade da fixada para 2019, já cortada.

A saúde, o ensino universitário, o emprego, a cultura, o patrimônio histórico, a remuneração do trabalho, a conservação e a fiscalização ambiental, a infraestrutura, o saneamento, a população indígena —tudo isso, tudo o que importa para o presente e o futuro da nação e seu povo, foi devastado, abandonado, negado, traído em 2019, e está ainda mais roubado ao país no planejamento oficial do governo para 2020.

Votos de um ano feliz sob esta realidade e esta perspectiva exigem uma ponderação. Diretos, pessoais, são expressões de sentimentos afetuosos ou cordiais. É tão bom dizê-los como os receber. Ditos de público, sua generalização confunde-se com o próprio país. No caso, o país que se antevê frustrado, fracassado, demolido.

Há quatro meses, o ministro Celso de Mello, decano do Supremo, advertia: “Um novo e sombrio tempo se anuncia”. É nele que estamos. Por tudo o que o governo Bolsonaro-Guedes faz e começa a ampliar, nosso tempo sombrio não é sequer aquele do túnel, porque então haveria luz no seu fim. É no tempo sombrio de uma caverna que entramos.

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