Transcrevo aqui o poema de Aldir Blanc, que ele lê no vídeo abaixo, em que se coloca como o quarto irmão com Henfil, Betinho e Mário:
4 Irmãos Os irmãos Francisco, Herbert, Henrique são muito engraçados São marujos de um navio várias vezes posto a pique Nem por isso perdem o riso Francisco toca violão, compõe, fala de mim Manja de computador, mas age como um campônio Henrique desenha como um demônio E Herbert, o prático, abre sobre nós a asa E ensina a usar tijolo pra que não caia a casa Eu, que sou filho único, queria uns irmãos assim Briguentos, ternos, malucos Uns irmãos que me ensinassem a pensar mais neles do que em mim No meu sangue também corre o que há no sangue dos três: Mandioca, césio, bronca de não ter o que comer Exílio, tortura e raiva da omissão assassina dos que detêm o poder Por isso duramos, por isso morremos Eu quero morrer, durar, por um motivo de gente Ainda que eu tenha, como previu o poeta, de escarrar junto com o beijo Ainda que eu não me assombre na campina com as quatro folhas do trevo Ainda que não esteja presente ao nascimento do meu filho Porque me coube jogar uma nova bomba em mais um duque em outra Sarajevo Eu quero morrer e durar por um sonho que me justifique Feito o sonho dos irmãos Francisco, Herbert e Henrique
Em 25 de dezembro de 1977, morria na Suíça o genial comediante e cineasta inglês Charles Chaplin. No Brasil, o cantor, violonista e compositor João Bosco
sentiu a necessidade de homenagear o artista e, entre o Natal e o Ano
Novo, começou a rascunhar um samba que remetia ao personagem mais famoso
de Chaplin, o vagabundo Carlitos. E aí resolveu chamar o seu parceiro
de fé, Aldir Blanc, que morreu nesta segunda-feira, vítima de complicações da Covid-19, para pôr letra na sua criação. Só que nas mãos de Aldir, o samba acabou tomando outros rumos, vindo a se tornar “O bêbado e a equilibrista”,
um clássico da música popular brasileira e hino informal da Lei da
Anistia – a que seria responsável por trazer de volta ao país, em 1979,
alguns dos brasileiros exilados pela ditadura militar. “O João me
chamou na casa dele e disse que havia feito um samba, cuja harmonia
tinha passagens melódicas parecidas com ‘Smile’ [tema do filme “Tempos
modernos”], propositalmente construídas para que homenageássemos o
cineasta”, contou Aldir anos mais tarde, em depoimento à Associação
Brasileira de Imprensa (ABI). — Só que, casualmente, encontrei o
[cartunista] Henfile o [violonista e compositor] Chico Mário,
que só falavam do mano que estava no exílio. Cheguei em casa, liguei
para o João e sugeri que criássemos um personagem chapliniano, que, no
fundo, deplorasse a condição dos exilados. Não era a ideia original, mas
ele não criou caso e disse: ‘Manda bala, o problema é seu.’ “Caía
a tarde feito um viaduto / e um bêbado trajando luto / me lembrou
Carlitos” – assim começa “O bêbado e a equilibrista”, com sua letra que
empilha referências a eventos e personalidades marcantes do período de
exceção no Brasil. Nos versos “choram Marias e Clarisses”, por exemplo,
Aldir Blanc cita as viúvas Maria, mulher do operário Manuel Fiel, e Clarisse Herzog, esposa do jornalista Vladimir Herzog,
brasileiros assassinados nos porões do DOI-CODI (órgão de inteligência e
repressão do governo militar, subordinado ao Exército) por fazerem
parte da oposição política à ditadura. Já tarde que caía “feito um
viaduto” fazia menção à queda, em 1971, do Elevado Paulo de Frontin, no
Rio de Janeiro (a obra, concluída dois anos antes, ruiu subitamente,
soterrando 48 pessoas e matando 29). Mas o trecho mais lembrado de “O bêbado e a equilibrista” é
justamente o do “Brasil que sonha com a volta do irmão do Henfil”,
referência ao sociólogo Herbert José de Sousa, o Betinho,
que esteve exilado desde 1971, tendo passado pelo Chile (onde foi
assessor do presidente Salvador Allende, deposto e assassinado em 1973,
no golpe militar do general Augusto Pinochet), Canadá e México. Quando
o samba ficou pronto, João Bosco e Aldir Blanc o enviaram para a
cantora que melhores interpretações e mais visibilidade vinha dando a
suas composições:Elis Regina, estrela suprema da MPB. A
mesma artista que, em 1972, havia sido “enterrada” por Henfil, em uma
charge para o jornal “Pasquim”, no chamado Cemitério dos Mortos-Vivos,
devido à participação na Olimpíada do Exército (ela havia recebido
ameaças do Exército por comentários depreciativos feitos em entrevistas
dadas na Europa e, por temer pelo filho pequeno, achou melhor atender ao
convite para a apresentação). Já reconciliada com Henfil, Elis mostrou “O bêbado e a equilibrista”
ao cartunista, que percebeu naquele samba um importante aliado na luta
pela abertura política diante de uma ditadura então enfraquecida: “Agora
temos um hino, e quem tem um hino faz uma revolução!”, disse Henfil a
Betinho, por telefone, tentando convencê-lo a voltar ao Brasil. A música
foi lançada pela cantora em “Essa mulher”, seu LP de 1979, e foi
tocada, em diversos gravadores, pelas pessoas que foram receber os
exilados (Betinho, entre eles) no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo,
no mês de setembro. O detalhe curioso sobre “O bêbado e a
equilibrista” é que, quando escreveu sobre “a volta do irmão do Henfil”,
Aldir Blanc de fato não sabia o seu nome. E passou-se um bom tempo até
que os ele viesse a conhecer pessoalmente o sociólogo, que se depois da
volta ao Brasil se tornaria um importante ativista pelos direitos
humanos, vindo a criar o Instituto Brasileiro de Análises Sociais e
Econômicas (Ibase) e, mais tarde, a Ação da Cidadania contra a Fome, a
Miséria e pela Vida. “Nós tivemos um encontro que só pode ser
chamado de cômico”, contou Aldir Blanc em depoimento ao Ibase, em 2017,
nos 20 anos da morte do Betinho (ele sucumbiu a complicações da Aids,
que antes dele levou os seus irmãos igualmente hemofílicos Henfil e
Chico Mário). “Eu esperava encontrar um sociólogo, um sei lá o quê e
tal, e vi um sujeito irônico, gozador, embora com os olhos marejados de
lágrimas. Nosso primeiro encontro foi na porta do banheiro do Canecão.
Nos abraçamos e a frase dele foi: ‘Eu não ia voltar, eu tinha me
planejado todo para não voltar, mas ouvi a sua letra para a música do
João e resolvi voltar, seu filho da puta!’”