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Dinheiro na mão do ministro Salles ' é jogar mais gasolina no incêndio da floresta' - por Cristina Serra


Às vésperas da Cúpula do Clima, ótimo artigo da Cristina Serra na Folha.
Bolsonaro, vira-latismo e ecocídio

Nada mais ilustrativo dos modos de moleque com que o Brasil de Bolsonaro se apresenta ao mundo do que um detalhe de recente reunião entre o ministro do zero ambiente, Ricardo Salles, e a equipe de John Kerry, representante de Joe Biden para as questões climáticas.

Segundo reportagem de Marina Dias nesta Folha, os brasileiros exibiram aos norte-americanos o slide de uma TV de cachorro, típica das nossas padarias. A imagem mostrava um vira-latas apreciando os frangos no espeto com o título: "Expectativa de pagamento". Cada ave tinha o desenho de um cifrão. Bolsonaro é isso: o retorno explícito ao complexo de vira-latas definido por Nelson Rodrigues nos anos 1950.

Acordos diplomáticos são bons para os envolvidos quando baseados em vantagens e respeito mútuos. O Brasil não tem um plano minimamente verossímil de combate ao desmatamento, e os antecedentes de Bolsonaro e Salles não inspiram confiança. Para nosso azar, é o que temos para lidar com as tensões da complexa geopolítica atual e negociar com os Estados Unidos.

A estratégia da dupla foi abrir as discussões pedindo dinheiro num tom que tangencia a tentativa de extorsão e para fazer aquilo que é nossa obrigação, conforme compromissos assumidos por governos anteriores, quando o Brasil ainda era respeitado em fóruns internacionais: reduzir o desmatamento na maior floresta tropical do mundo e as emissões de gases do efeito estufa.

Em rede social, Kerry indicou que os Estados Unidos esperam do Brasil resultados "tangíveis", não apenas promessas. É nesse ponto que os dois países chegam à cúpula sobre mudança climática, daqui a dois dias. A proteção ambiental demanda muito recurso. Mas dinheiro na mão de um tipo como Salles e sem contrapartidas claramente verificáveis é jogar mais gasolina no incêndio da floresta.

É reforçar as frentes de ataque de grileiros, madeireiros, garimpeiros, desmatadores. É acumpliciar-se com o crime de ecocídio.




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Imagens aéreas feitas pela BBC mostram incêndios na Amazônia, no início da temporada de queimadas


Impressionante as imagens da devastação pelo fogo e pela fumaça de vasta área da Amazônia, feitas por uma equipe da BBC.

São quilômetros e quilômetros de devastação capturados no último mês de julho  início da temporada de queimadas na região, que tem seu apogeu nos meses de agosto e setembro.

Incentivados por Jair Bolsonaro, que pôs como ministro do Meio Ambiente um homem condenado por crime ambiental, Ricardo Salles, e incentiva mineração e invasão de áreas indígenas para a exploração de madeira, plantação de soja e criação de gado.
Dados oficiais do Brasil mostraram um grande aumento no número de incêndios na região amazônica em julho em comparação com o mesmo mês do ano passado.
Os números mais recentes levantam preocupações sobre a repetição dos enormes incêndios que chocaram o mundo em agosto e setembro do ano passado.

"É um sinal terrível", disse Ane Alencar, diretor de ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, à agência de notícias Reuters.
"Podemos esperar que agosto já seja um mês difícil e setembro seja pior ainda." [Fonte: BBC]




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Denunciado no Tribunal Penal Internacional, Bolsonaro deve ser investigado por genocídio contra populações indígenas e tradicionais


Em novembro de 2019, Bolsonaro foi denunciado no Tribunal Penal internacional (TPI) pela Comissão Arns e pelo Coletivo de Advocacia em Direitos Humanos por violência contra populações indígenas e tradicionais, enfraquecer a fiscalização e por omissão na resposta a crimes ambientais na Amazônia.

De lá para cá, tudo se agravou. As queimadas, a mineração em terras indígenas, a desova de cloroquina para tratamento da COVID-19 entre os yanomami e indígenas da Reserva Raposa Serra do Sol põem em risco a sobrevivência dessas populações.

O Ministério Público Federal pediu o afastamento imediato do ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles por trabalhar na direção oposta do que seriam as obrigações de seu ministério. [leia o MPF aqui]

Vastas extensões de terras indígenas estão sendo devastadas pelo fogo para o gado, especulação, e outras pela mineração, que está poluindo com mercúrio os rios da região.

Mas não adianta apenas prender o cachorro. Tem que ir atrás do dono, o que deu a ordem do ataque, seu superior, o presidente Bolsonaro.

O presidente acha que indígenas e populações tradicionais, como os quilombolas, são vagabundos, que atrapalham o progresso do Brasil e trabalha no sentido de exterminá-los ou reduzi-los a guetos, como nos Estados Unidos.

Agora mesmo, Bolsonaro vetou medidas de proteção social para prevenção de contágio e disseminação da Covid-19 em territórios indígenas, aprovadas no Congresso.

Entre os vetos estão "o acesso universal a água potável; distribuição gratuita de materiais de higiene, de limpeza, e de desinfecção de superfícies para aldeias ou comunidades indígenas, oficialmente reconhecidas ou não" [Folha].
Sylvia Steiner, única juíza brasileira a já ter atuado na mais importante corte internacional, acredita que Bolsonaro corra o risco de ir para o banco dos réus: “Nós temos ainda uma outra denúncia contra o presidente Bolsonaro, também no gabinete da procuradoria do TPI, mas essa se refere a políticas de extermínio da comunidade indígena por meio da destruição do meio ambiente e dos territórios tradicionalmente ocupados pelos indígenas. Essa pode, sim, configurar, em tese, uma política genocida. Alguns elementos podem levar à conclusão de que essa é uma política deliberada e proposital para limpar uma área e remover os indígenas para que a área seja utilizada para outros fins”. [Fonte]
Alguém tem alguma dúvida de que é exatamente isso o que está acontecendo?

Aberta a investigação no TPI, Bolsonaro pode ser preso por genocídio.



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Estados Unidos e Europa financiam queimadas no Brasil

Fornos de carvão

O ciclo das queimadas e a denúncia da hipocrisia



Reportagem de Marques Casara, com edição de Daniela Stefano, no Brasil de Fato mostra que, por trás de justa indignação e das mais justas ainda críticas às queimadas na Amazônia, que resceram assustadoramente no governo do presidente Bolsonaro, existe muita hipocrisia e mesmo financiamento dos governos dos EUA e Europa.


O inferno, caso exista, está repleto de presidentes e primeiros-ministros bem-intencionados, mas que, em algum momento da vida, defenderam, com sincera emoção, a existência de unicórnios, fadas e duendes. É mais ou menos o que acontece atualmente quando o assunto é o comportamento de países europeus em relação ao desmatamento e as queimadas em território brasileiro.

Bolsonaro fez de tudo para que isso acontecesse. A nomeação de Ricardo Salles para o Meio Ambiente e o desmonte das estruturas de fiscalização já vinham sinalizando que os desmatamentos e as queimadas sairiam do controle.

Nos últimos dias, após atacar violentamente líderes europeus que reclamavam da política ambiental brasileira, Bolsonaro deixou a bola quicando para o presidente da França. Cheio de problemas internos, um enfraquecido Emmanuel Macron percebeu a oportunidade e bateu para o gol com precisão. Levantou arquibancadas nos quatro cantos do globo e se tornou, em 15 minutos, a mais nova celebridade ambiental do planeta. Bolsonaro está até agora zonzo pela rapidez dos acontecimentos.

Tudo seria lindo e maravilhoso se fosse assim tão simples: países estrangeiros nos ajudando a desmascarar Bolsonaro, o novo malvado favorito do planeta, com seu séquito de minions a destruir o “pulmão do mundo”. Mas essa história, infelizmente, é mais complexa. A Comunidade Europeia e os Estados Unidos também têm as mãos sujas de sangue e de fuligem.

Alimentos e siderurgia

Grandes empresas europeias e norte-americanas são financiadoras do desmatamento. O Fundo Amazônia é troco de pinga perto do que essas corporações lucram com a devastação das florestas brasileiras. E não apenas na Amazônia. Hoje, o cerrado é bioma que mais perde cobertura florestal. Dois setores estão à frente dessa tragédia: alimentos e siderurgia. As maiores empresas globais de alimentos financiam fazendeiros brasileiros que efetuam desmatamentos para criar gado e plantar soja.

Boa parte da madeira retirada vira carvão e vai parar em siderúrgicas no Centro-Oeste, Sudeste e Norte do país. Com esse carvão, as siderúrgicas fazem ferro gusa, usado na fabricação de aço mundo afora. Esse produto tem, em sua composição, carvão vegetal retirado ilegalmente de matas nativas.

Automóveis, aviões, computadores e celulares contém, em seus componentes, as marcas do desmatamento da Amazônia e do Cerrado. No setor de alimentos, a soja e a carne brasileira são vendidas em centenas de países, muitas vezes graças às operações de trades europeias e norte-americanas, que financiam os fazendeiros brasileiros que realizam o desmatamento.

Recentemente, uma dessas companhias, a Cargill, maior empresa do mundo de capital fechado, anunciou que não tem como cumprir a promessa de conter o desmatamento provocado pelos seus negócios no Brasil.

Outra gigante do setor de alimentos, a empresa suíça Nestlé, é bem conhecida pelos vínculos com atividades predatórias, inclusive a exploração de crianças e adolescentes na cadeia produtiva do chocolate.

Coca-Cola, Pepsico, Bunge e uma interminável lista de multinacionais com sedes no Hemisfério Norte já tiveram suas cadeias produtivas mapeadas. Foram estabelecidos elos concretos com práticas danosas ao meio ambiente.

A falácia da “soberania”

É ótimo que os países europeus ajudem o Brasil a desmascarar o protoditador Bolsonaro. Farão um imenso favor à democracia, aos direitos humanos e ao meio ambiente. Mas esses países também precisam parar de financiar o desmatamento da Amazônia e do Cerrado, que acontece, em grande medida, porque as multinacionais não monitoram com eficiência as suas cadeias produtivas. 

Da parte do governo brasileiro, tudo está para ser feito ou refeito, dado o estrago que fizeram desde a posse do atual presidente da república. Não é o troco de pinga do Fundo Amazônia que vai resolver a questão. Assim como também não será o falacioso discurso da “soberania nacional”, que Bolsonaro desenterrou da ideologia militar dos anos 1970. O que Bolsonaro quer é entregar a Amazônia. Ele é o maior inimigo da soberania nacional.

Esse cenário de terra arrasada só mudará com processo de gestão participativa nas regiões amazônicas e no Cerrado, com o cumprimento da legislação ambiental, a participação das comunidades locais nos processos decisórios e sem a influência desmedida do agronegócio e dos seus financiadores, as multinacionais sediadas na Europa e nos Estados Unidos.

As queimadas e o desmatamento da Amazônia e no Cerrado têm, há décadas, as digitais de grandes corporações multinacionais com sede nos países que estão agora chocados com o avanço da depredação.

Nesse contexto, causa espanto o comportamento dos meios de comunicação de massa, que seguem a lógica do século passado: proteção total ao anunciante. Não fazem a principal pergunta: quem se beneficia com o desmatamento?

Não fazem porque sabem quem mexe as cordinhas no mercado publicitário. Multinacionais do setor de alimentos (anunciantes), siderúrgicas vinculadas a montadoras de veículos e equipamentos eletroeletrônicos (anunciantes) injetam bilhões nas contas correntes dos fazendeiros que derrubam a mata e tocam fogo no cerrado e na Amazônia. 

fonte original: Brasil de Fato



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Repórter da BBC sobrevoa queimadas na Amazônia em avião do Greenpeace. Veja o vídeo



A bordo de um avião do Greenpeace, o repórter da BBC Will Grant sobrevoou áreas de queimada na Amazônia


É preciso que uma emissora estrangeira se junte a uma ONG para fazer o trabalho que nossa mídia macunaíma não faz.

As imagens mostram o estrago que o governo Bolsonaro faz na floresta, por estímulo por um lado (quando incentiva fazendeiros) e omissão pelo outro, quando esvazia Ibama e órgãos de defesa do Meio Ambiente, com um ministro (Ricardo Salles) criminoso, condenado exatamente por desrespeitar legislação, quando secretário do Meio Ambiente na gestão Alckmin em São Paulo.

As imagens aéreas mostram as chamas na Floresta Nacional de Jacundá, em Rondônia. O norte do Estado é uma das áreas mais atingidas pelas queimadas.
De acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), 78,3 mil focos de incêndio foram registrados apenas neste ano no Brasil - crescimento de mais de 80% em comparação a 2018. Do total de casos deste ano, 52,6% foram registrados na Amazônia. [BBC]




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