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Homem morto 'pelo Talibã' no Afeganistão ano passado morre novamente ao pisar em 'mina russa', agora na Ucrânia

Com o intuito de fazer valer a narrativa a que serve os interesses, a mídia corporativa não mede esforços para manipular os sentimentos dos incautos leitores, ouvintes, telespectadores. 

No caso da imagem reproduzida aqui, trata-se da CNN, que pegou a mesmíssima imagem de um cidadão, a quem deu o nome de Bernie Gores, e o matou duas vezes: uma, no ano passado no Afeganistão, o "jornalista" Gores foi executado por soldados do Talibã; agora, o mesmo Gores, transformado em ativista, pisou numa mina dos malvados russos na Ucrânia e morreu novamente. Não se sabe se definitivamente, ou se vai ficar à espera de mais uma guerra que a mídia corporativa manipule para mais uma vez Bernie Gores ser morto, em seu dia da Marmota (ou do Maismorto) particular.

A mídia não mede esforços e não tem escrúpulos. Outro dia, na semana passada, o Jornal Nacional abriu com texto indignado em que se afirmava com imagens que um tanque russo desviou do caminho intencionalmente para passar por cima do carro de um cidadão ucraniano que vinha na outra pista, em sentido contrário.

Só que o tanque não era russo, mas ucraniano, o atropelamento não foi intencional, mas uma derrapada sobre uma poça de óleo na estrada, como outros ângulos da cena mostraram, mas o Jornal Nacional não se desculpou pelo vexame.

De todo modo, o motorista do carro atropelado pelo tanque sobreviveu. Fico pensando se não seria Bernie Gores, que dessa vez teve sorte e escapou de sua terceira morte...


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Talibã pede moderação no conflito na Ucrânia e 'que resolvam a crise através do diálogo e de meios pacíficos'


Quem diria que os talibãs seriam a voz sensata que proporia o diálogo e o caminho da paz para resolver o conflito que virou guerra na Ucrânia, em que o mundo está cada vez mais polarizado e, especialmente do lado Ocidental, exigindo medidas mais duras e retaliação contra a Rússia.

Pois o Emirado Islâmico do Afeganistão lançou uma nota [imagem reproduzida aqui] nesse sentido:

O Emirado Islâmico pede moderação por ambas as partes.  Todos os lados precisam desistir de tomar posições que possam intensificar a violência.  O Emirado Islâmico do Afeganistão, em linha com a sua política externa de neutralidade, apela a ambos os lados do conflito para que resolvam a crise através do diálogo e de meios pacíficos.  O Emirado Islâmico também pede às partes em conflito que prestem atenção à proteção das vidas de estudantes e migrantes afegãos na Ucrânia.

Mundo Louco.

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'O bolsonarismo é um talibanismo, numa versão tropical e carnavalesca, mas não menos estúpida, violenta e potencialmente destruidora'

A frase do título é do escritor angolano José Eduardo Agualusa e foi publicada em artigo no Globo, que reproduzo a seguir.
 
Acrescento ao texto de Agualusa apenas uma diferença fundamental que vejo entre o talibanismo e o bolsonarismo: os talibãs têm fé e acreditam que agem do modo que o fazem em defesa de sua fé. O bolsonarismo é apenas corrupto e defensor radical do Mercado e de sua lei de "livre concorrência", onde, como citou o padre Julio Lancellotti numa entrevista que publiquei aqui, estamos na mesma tempestade, mas não no mesmo barco. Uns estão em seus iates enquanto outros apenas nadam e tentam se manter à tona sem se afogar.
Enquanto os desgrenhados guerrilheiros do Talibã entravam em Cabul, fui reler uma crônica que Eça de Queiroz escreveu sobre as vitórias e derrotas dos ingleses no Afeganistão: “Em 1847, os ingleses, por uma razão d’Estado, uma necessidade de fronteiras científicas, a segurança do império, uma barreira ao domínio russo da Ásia, e outras coisas vagas, invadem o Afeganistão, e ali vão aniquilando tribos seculares. Apossam-se, por fim, da santa cidade de Cabul; sacodem do serralho um velho emir apavorado; colocam lá outro de raça mais submissa, que já trazem preparado nas bagagens, com escravas e tapetes; e, logo que os correspondentes dos jornais têm telegrafado a vitória, o exército, acampado à beira dos arroios de Cabul, desaperta o correame e fuma o cachimbo da paz.” Nas linhas seguintes, com idêntica ironia, Eça descreve a derrota do exército britânico, mais preocupado com o fornecimento de chá (e do açúcar para adoçar o chá), do que em combater os insubmissos guerreiros afegãos. Finalmente, conclui: “E de tanto sangue, tanta agonia, tanto luto, o que resta por fim? Uma canção patriótica e uma estampa idiota nas salas de jantar.”

O que aconteceu com os ingleses no século XIX aconteceu depois com os russos no século XX, e a seguir com os americanos neste nosso tempo. A principal diferença é que da desastrosa aventura americana não sobrará sequer uma canção patriótica.

A fulgurante vitória do Talibã trouxe de volta o debate sobre fundamentalismo islâmico, misoginia, neopuritanismo e violência contra a mulher. É um debate importante, sobretudo se aproveitarmos para discutir não apenas o fundamentalismo islâmico, mas todas as formas de extremismo religioso.

Nos últimos dias, as redes sociais vêm mostrando fotografias a preto e branco de moças afegãs, passeando pelas praças de Cabul, de cabelos ao vento, blusas ligeiras e saias curtas. São imagens dos anos 1970. É possível encontrar imagens semelhantes feitas na mesma época na Pérsia, na Argélia, na Turquia, entre tantos outros países que, entretanto, sucumbiram ao triunfo de correntes conservadoras do islão.

Infelizmente, não são apenas os países islâmicos que se vêm rendendo ao neopuritanismo e à misoginia. Em muitos países ocidentais, e em particular no Brasil, assiste-se a um fenômeno semelhante. O crescimento do fundamentalismo cristão, importado dos EUA, ameaça conquistas importantes dos movimentos feministas e pelos direitos das minorias.

O bolsonarismo é um talibanismo, numa versão tropical e carnavalesca, ou seja, ainda mais ridícula, mas não menos estúpida, violenta e potencialmente destruidora. Bolsonarismo e talibanismo partilham um idêntico ódio às mulheres livres; o culto às armas, à violência e aos “valores masculinos”; o desprezo pela diferença; a exaltação de um deus arcaico, macho e cruel.

Como foi isto possível?

Isto: a irrupção do século XV no século XXI?! Como é que esta gente, vinda das profundezas mais sombrias da História, conseguiu desembarcar, armada, no nosso tempo?

Quando formos capazes de responder a esta questão, então, sim, talvez consigamos vencer o passado — e aceder ao futuro.






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