O novo foco da crise

Existem dois projetos na Câmara sobre o recesso parlamentar. Um prevê a redução do período de recesso. Outro acaba com o pagamento de subsídio extra em períodos de convocação.
O líder do PFL na Câmara, Rodrigo Maia (RJ), declarou que a aprovação da redução do prazo de recesso é mais complicada, por ser matéria constitucional e portanto exigir maior número de votos, mas é menos polêmica que a que acaba com a remuneração extra.
É coerente o deputado achar que o problema da remuneração é mais complexo. Ele está entre os que não devolveram o dinheiro. Mas isso é problema do deputado com sua consciência e seus eleitores. O deputado - é bom lembrar - foi um dos que mais pressionaram para que a convocação extraordinária fosse feita, a fim de manter o governo na crise. Só que o tiro saiu pela culatra. Como Suas Excelências não trabalham, o foco da crise saiu do governo para o Congresso, que agora enfrenta a ira da população.

Lula 2006, new look

Em entrevista publicada hoje no Jornal do Brasil, Cesar Benjamim, ex-dirigente do PT, que se afastou do Partido há 10 anos, faz duras críticas ao partido, mais especialmente ao presidente Lula e ao ex-deputado José Dirceu.
Em certo trecho, perguntado se a eleição de Lula foi a chegada do povo ao poder, respondeu:
- Não. O Lula foi uma falsa chegada. Lula foi uma fantasia coletiva. O Brasil precisa dar esse passo, e apareceu uma figura como o Lula, que parece ser a encarnação disso por suas características pessoais. Mas a imagem do líder que ia comandar essa transformação fomos nós que criamos, porque precisávamos disso. O Lula nunca foi isso, nem sequer foi um reformista, sempre foi conservador. Ele trafegou pela esquerda porque a vida fez isso. O Lula é um tremendo equívoco. Um equívoco tão grande que não sei responder qual o efeito desse equívoco sobre o povo brasileiro. É um episódio meio patético, meio dramático, e que terá um impacto grande porque a decepção com Lula é muito mais profunda do que as decepções anteriores.
Não é a primeira pessoa que ouço fazer esse comentário de que Lula é conservador. Um conhecido escritor e historiador também tem essa opinião sobre o presidente.
Em outra parte da entrevista, Cesar Benjamim, que participou recentemente com o economista Carlos Lessa - ex-presidente do BNDES - da elaboração de um texto sobre o momento político do país, faz uma comparação entre Lula e Garotinho:
- O PT acusa o Garotinho de ser assistencialista, e ao mesmo tempo o governo Lula diz que sua única iniciativa é o programa Bolsa-Família. Não sei qual é o moral do PT para manter esse tipo de acusação.
Conservador na política econômica e assistencialista com o Bolsa-Família - este é o Lula versão 2006, que vai às urnas atrás da reeleição.

Crimes, polícia e imprensa

Mais uma reviravolta no caso do ônibus 350, que no dia 29 de novembro do ano passado foi incendiado por um grupo, a mando de um traficante. Cinco pessoas morreram, inclusive uma criança de um ano e sua mãe.
Para quem não se lembra, ou não vem acompanhando o caso que chocou o país, logo após o crime foi presa uma menor de 13 anos, que confessou sua participação e reconheceu uma namorada do traficante como chefe da ação. Embora sobreviventes do incêndio não tenham reconhecido a tal namorada acusada pela menor, ela foi presa, teve seu rosto exposto nos principais jornais e telejornais do país, foi chamada de monstro e ameaçada de morte.
Um mês depois, a menor voltou atrás e disse que a namorada do traficante não era aquela mas uma outra. Solta-se essa e corre-se atrás da outra.
Ontem a menor voltou atrás novamente. Não mais reconhece as duas namoradas. Pior: nega ter participado da ação ou ter qualquer conhecimento do caso.
Mais uma vez, assim como no episódio da Escola de Base em São Paulo, a imprensa repercute a polícia. Ambas apressadas, querendo “mostrar trabalho”, desinformam a população e estragam a vida de pessoas inocentes.

Julgamentos apressados

Acaba de acontecer aqui no Rio um episódio muito semelhante ao da Escola Base em São Paulo. Mas como a repercussão não está sendo nacional, a mídia finge que não tem nada a ver com isso.
Em 29 de novembro último, um grupo, a mando de um traficante, incendiou um ônibus e todos os que estavam dentro dele, matando cinco pessoas. No dia seguinte, uma jovem foi presa.
Nas primeiras páginas de todos os jornais e nas matérias dos principais telejornais, ela foi apresentada como a namorada do tal traficante e principal responsável pela chacina. Contra ela havia apenas o depoimento de uma menor, de 13 anos, que a reconhecera por foto, embora todos os sobreviventes não a tenham reconhecido.
Agora, após amargar mais de 30 dias de cadeia, ela é solta. Reconheceu-se que houve um engano.
Nesse intervalo, ela teve sua imagem espalhada por todo o país, tachada de monstro, ameaçada de morte.
A busca desenfreada por culpados, para satisfazer o apetite indignado da população, está na raiz deste fato - como de outros que diariamente a mídia divulga.
Há pouco, por exemplo, o presidente do Senado, senador Renan Calheiros (PMDM-AL), juntou-se ao coro dos indignados e defendeu a convocação extraordinária do Congresso:
- "Se o governo pensa no recesso para dar férias à crise, não vai contar comigo."
Veio a convocação. O senador está em casa, em Alagoas. O Congresso, vazio. Os congressistas com os bolsos cheios.

Democracia ou Terrorismo?

Trecho do artigo do sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, publicado na FSP hoje. Assinante do jornal ou do UOL pode clicar aqui e ler o artigo na íntegra. E também está aqui, no site da Agência Carta Maior, seguindo dica do comentarista João Rosa, e aberto a todos.Vale a pena.

5) Terrorismo, democracia e libertação. É multissecular a tradição do Ocidente de violar os direitos humanos sob o pretexto de os defender, de cometer os mais grosseiros atropelos à democracia para impor a democracia. Estará a história a mudar? Se a guerra é o terrorismo dos fortes, será que o terrorismo é a guerra dos fracos? Poderá eliminar-se o terrorismo sem eliminar o terrorismo de Estado?2005 mostrou que a democracia tem duas histórias. Uma é a da sua subordinação aos interesses do capitalismo: impõe-se no Iraque, tolera-se a sua violação no Uzbequistão e liquida-se (se possível) na Venezuela. A outra história é a da luta democrática nos povos pela justiça social. As eleições no Uruguai, na Venezuela e, agora, a retumbante vitória de Evo Morales na Bolívia.Qual das histórias vai prevalecer em 2006? Será Hugo Chávez assassinado?Em 2005, o futuro veio ao presente, mas, como é seu timbre, não veio para ficar. Em vez de previsões certas, temos imprevisibilidades decisivas.

Trocando idéias

Segundo Luis Fernando Veríssimo, sempre se pode começar uma crônica dizendo "existe um provérbio chinês...", porque parece existir um provérbio chinês para qualquer assunto. Este é mais um deles, atribuído a Confúcio, e que nem sei se é verdadeiro ou não.
"Dois homens vêm andando pela estrada, em sentido contrário. Cada um carrega um pão. Quando se encontram, conversam e trocam os pães. Despedem-se e seguem seus caminhos. Ainda com um pão cada um. Mas se os dois homens trouxerem uma idéia cada, quando se encontrarem e trocarem idéias cada um irá embora com duas".

Lula e a lei Ricupero

O ministro da Fazenda no governo do presidente Itamar Franco Rubens Ricupero é autor da famosa frase “o que é bom a gente mostra, o que é ruim a gente esconde”.
Lendo-se jornais e blogs hoje a impressão que se tem é que a máxima de Ricupero é usada às avessas, quando se trata de avaliar o governo do presidente Lula.
Se há o que elogiar, como no caso da Economia, do controle da inflação, do recorde das exportações, por exemplo, nenhum mérito é do presidente. O que Lula fez foi pegar o que estava sendo feito por FHC e dar continuidade.
Se há o que criticar, como nos casos de corrupção e uso do caixa dois, acontece o contrário. Parece que Lula e o PT criaram a corrupção e o caixa dois no Brasil. Tudo o que foi feito antes é pinto perto do “maior escândalo de corrupção de todos os tempos”.
Mas se é uma questão de quantificar, por que não se reconhece também que este governo liquidou a dívida com o FMI, bateu todos os recordes de exportação etc.?
Parece que contra o governo Lula o que vale é “o que é ruim a gente mostra, o que é bom a gente esconde”.

Aviso aos indignados

Depois daquilo que se pode chamar de “A Grande Lambança”, que fizeram o governo Lula e o PT, muitos espertalhões têm aproveitado a indignação da população em benefício próprio.
Começou com o referendo. Foi explorado que o voto no “Não” era em defesa de liberdades que o governo estava querendo tirar e, ao mesmo tempo, um protesto contra este mesmo governo. Ao final, descobriu-se que mais de 97% da campanha do “Não” foi financiada pelas indústrias de armas...
Agora há pouco foi a vez do Congresso. Deputados e senadores deram declarações aparentemente indignadas dizendo que o governo Lula queria o recesso a fim de paralisar as investigações e o trabalho da Comissão de Ética. Houve uma grita geral. E a convocação extraordinária foi aprovada para que o Congresso não parasse. Resultado: Congresso vazio, mas com os bolsos cheios. A Comissão de Ética parada...
A próxima jogada é a campanha pelo voto nulo. Os mais indignados acreditam que assim estarão punindo os congressistas. Mas o povão não anula voto. Nem lê jornal ou blog. Resultado: indignados mais bem informados votam nulo. O povão vota naqueles que dizem que conseguiram verbas e obras para o povo. Como, por exemplo, os ex-deputados Waldemar Costa Neto, Severino Cavalcanti, bispo Rodrigues, Paulo Rocha, que renunciaram ao mandato para não serem cassados, mas tiveram emendas recém-aprovadas no Orçamento para 2006. Votar nulo pode ser o caminho mais curto para ajudar a reelegê-los.

“Fogo amigo” na oposição a Lula

Muitos acham que o pior sobre Lula ainda está por vir. A munição pesada estaria guardada para a campanha. Mas há “fogo amigo” na oposição, que o momento está apenas camuflando, já que agora é hora de sangrar Lula.
Por exemplo:
FHC “ama” Serra. E a recíproca é verdadeira. Ainda mais depois da última campanha presidencial.
O PFL “ama” Serra, pois acha que ele foi o mandante daquela excursão da Polícia Federal que descobriu a grana no cofre e matou a candidatura de Roseana Sarney na subida.
Noves fora os interesses conflitantes dos adeptos de Serra, Alckmin e... FHC, Aécio e Tasso.
Essa divisão da oposição pode fazer a delícia de Lula, que espera tirar proveito desse fogo mui amigo...

Lula no Fantástico

- “Santa ingenuidade”, diria Robin a Batman, naquela séria antiga. Será que alguém em sã consciência poderia imaginar que a entrevista do presidente Lula ao repórter Pedro Bial no Fantástico seria diferente?
O jornalista fez o dever de casa. Perguntou tudo aquilo que gostaríamos de perguntar ao presidente.
Lula também fez a parte dele. Hoje, as modernas assessorias preparam políticos e executivos para debates e entrevistas, onde eles são literalmente massacrados. As perguntas que todos queríamos fazer, evidentemente, foram as mais trabalhadas nessas reuniões. E como não tinha como respondê-las objetivamente, o presidente multiplicou seno por co-seno e fugiu pela tangente.
Ou alguém esperava que Lula fosse olhar para a câmera e dizer:
- Olha, Bial, povo brasileiro, nunca na história deste país um presidente deu uma mancada como a minha. Depois de perder três eleições, quando ganhei a última pensei que as portas estavam abertas para mim. Logo que assumi, vi alguns deputados a preço de ocasião e os comprei para reforçar a base aliada. Eles começaram a fazer fila no balcão, e imaginei que era só liberar a grana que meu futuro estava garantido. Até que Roberto Jefferson, que confessadamente enfiou quatro milhões num buraco escuro, deu com a língua nos dentes e tudo ruiu.
- “Santa ingenuidade achar que Lula diria isso”, comentaria a dupla dinâmica pós-moderna Bata-me e Roube-me.

Primeiros minutos de 2006


Esta foto de Hudson Pontes, que está no Globo Online, mostra os fogos de Copacabana vistos da Lagoa Rodrigo de Freitas, onde moro e passei a virada do ano com minha mulher e minha filha.
É um privilégio, tão bem captado pelo Hudson Pontes, que compartilho com vocês.