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Por que o ministro Direito pediu vistas do processo das células-tronco

Fiz esta postagem em agosto do ano passado, quando o ministro Direito teve seu nome aprovado para o STF. Repito-a agora, quando ele pediu vistas no processo que libera pesquisas com células-tronco. Lendo o texto a seguir, vai ficar claro que Direito só o fez para atrasar sua aprovação.

Sobre o novo ministro do STF, Carlos Alberto Direito

E a nomeação de Carlos Alberto Direito para o STF passou. O que é péssimo para os que lutam contra a descriminalização do aborto e pelo direito à pesquisa com células-tronco. Direito é um católico fervoroso e por isso sua nomeação provoca arrepios em quem defende esses outros direitos.

Ontem, em sua sabatina no Senado, Direito afirmou que jamais deixará de cumprir as leis aprovadas pelo Congresso. Como se isso fosse uma concessão. É chover no molhado. Na verdade, ele é obrigado a cumpri-las. Aliás, como todos nós.

Mais adiante, ele fez a seguinte ressalva, quando perguntado sobre a questão da pesquisa com células-tronco:

- Deve ser preservada a vida em qualquer circunstância, mas não se pode coibir que a ciência avance. Não se pode admitir que a fé limite a ciência nem se pode admitir que a ciência agrida a fé.

Alguém aí conseguiu entender o que ele quis dizer? Por que existe um mas entre a primeira frase e a segunda? O que ele quis dizer com “nem se pode admitir que a ciência agrida a fé”?

Ciência e fé, como água e óleo, não se misturam. Como, então, a ciência poderia agredir a fé? Quando? Quando Galileu afirma que é a Terra que gira em torno do Sol e não o contrário?

Direito começou com o desmonte dos CIEPs de Brizola

Ah, e apenas para não passar em brancas nuvens. Carlos Alberto Direito, o novo ministro do STF, foi também secretário de Educação no governo de Moreira Franco aqui no Rio. Foi ele quem começou o desmonte do programa dos Centros Integrados de Educação Pública (CIEP), conhecidos como brizolões, as escolas públicas idealizadas por Darcy Ribeiro, projetadas por Oscar Niemeyer e que eram a menina dos olhos do ex-governador Leonel Brizola.

Para quem não conhece ou não se recorda do que foram os CIEPs, aqui vai esse resumo, retirado da Wikipedia:

O horário das aulas estendia-se das 8 às 17 horas, oferecendo, além do currículo regular, atividades culturais, estudos dirigidos e educação física. Os CIEPs forneciam refeições completas a seus alunos, além de atendimento médico e odontológico. A capacidade média de cada unidade era para mil alunos.
O projeto objetivava, adicionalmente, tirar crianças carentes das ruas, oferecendo-lhes os chamados "pais sociais", funcionários públicos que, residentes nos CIEPs, cuidavam de crianças também ali residentes.

Desmontar um projeto desses - para ficar na linguagem do novo ministro - é pecado.

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No Brasil, a maioria é pautada pela minoria

Porque tem a mídia a seu lado, a oposição - que é minoria no Brasil - consegue pautar a maioria. Discutimos tudo o que lhes interessa e nada do que não lhes interessa. Embora tenham levado duas surras nas urnas.

A renovação das concessões de rádio e TV, por exemplo, que deveria ser exaustivamente debatida pela sociedade, não o foi. Perdeu-se a oportunidade, enquanto se discutia o caso Renan.

A direita está sempre unida e pró-ativa. Enquanto isso, a esquerda mal conseguiu juntar 1300 assinaturas (confira) num abaixo-assinado em favor da instalação da CPI da TVA. Imagine você o número de assinaturas que a direita conseguiria, caso a CPI da TVA interessasse a ela. Taí a diferença.

Agora temos aí a possibilidade do escandaloso monopólio do Grupo Abril na distribuição de revistas. E um silêncio sepulcral sobre o assunto.

Perdemos tempo discutindo articulistas da direita, e isso só se reflete no aumento do salário deles. O que havia para ser dito sobre Ali Kamel, por exemplo, já o foi. Sinceramente, alguém acredita que alguma coisa mudará na Globo caso ele saia da direção de jornalismo? É exatamente o oposto. Se alguma coisa mudar no jornalismo da Globo, ele sai. Assim como já aconteceu com Armando Nogueira e, em outras instâncias, Walter Clark e Boni. Gente muito, mas muito mais importante que Kamel na história da Globo. Kamel não é o cabeça, é o laquê.

Ganhamos a eleição por ampla maioria. Todas as pesquisas indicam uma grande aprovação do governo Lula. No entanto, estamos sempre na defensiva, reagindo às pautas da direita.

A história do terceiro mandato de Lula

Estamos sempre sendo pautados pela oposição, como agora com a história do terceiro mandato de Lula. O responsável pela emenda da reeleição indefinida, ressuscitada agora, era tucano na época, o hoje ex-deputado Inaldo Leitão. A emenda foi apresentada em 1999, durante o governo FHC, e serviria possivelmente para seu terceiro mandato, caso o segundo não fosse o desastre que foi. Sobre isso nada se fala. Nem sobre a declaração do ex-ministro Sérgio Mota de que o PSDB tinha um projeto de poder de 30 anos.

No entanto, mesmo com as negativas de Lula, eles ficam nos empurrando goela abaixo o assunto, a tal ponto que FHC "exige" que Lula se declare, formal e peremptoriamente, contra a possibilidade. E aí corre o presidente, corre o PT, corremos muitos de nós a fazer o que querem, a dizer que não se deve mexer no jogo, que nada de terceiro mandato.

Por quê? Se a maioria do Congresso decidir, se a medida for levada a um referendo popular e o povo concordar com a possibilidade de um terceiro mandato, por que Lula não pode concorrer?

Esse assunto é completamente extemporâneo. Lula está no primeiro ano de seu segundo mandato. Temos que esperar para ver o que vai acontecer. Mas, se, mais adiante, o governo continuar com o trabalho que vem fazendo, a aprovação continuar lá em cima, aí sim o assunto pode voltar.

Sou do Rio de Janeiro. Vi o projeto dos CIEPs ser desmontado, porque à época não havia a possibilidade de reeleição. Brizola não pôde concorrer e Moreira Franco, que o sucedeu, começou o desmonte do projeto. Vamos deixar que o mesmo ocorra, por exemplo, com o Bolsa Família? Ou alguém tem alguma dúvida de que ele será desmontado na primeira bicada tucana?

Quem quiser outra história, que não deixe os congressistas aprovarem a emenda que torna possível o terceiro mandato; se esta possibilidade for aprovada, que busquem a reprovação do povo no referendo; se isso também passar, busquem derrotar Lula nas urnas. Simples assim.

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