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Estados Unidos e Europa financiam queimadas no Brasil

Fornos de carvão

O ciclo das queimadas e a denúncia da hipocrisia



Reportagem de Marques Casara, com edição de Daniela Stefano, no Brasil de Fato mostra que, por trás de justa indignação e das mais justas ainda críticas às queimadas na Amazônia, que resceram assustadoramente no governo do presidente Bolsonaro, existe muita hipocrisia e mesmo financiamento dos governos dos EUA e Europa.


O inferno, caso exista, está repleto de presidentes e primeiros-ministros bem-intencionados, mas que, em algum momento da vida, defenderam, com sincera emoção, a existência de unicórnios, fadas e duendes. É mais ou menos o que acontece atualmente quando o assunto é o comportamento de países europeus em relação ao desmatamento e as queimadas em território brasileiro.

Bolsonaro fez de tudo para que isso acontecesse. A nomeação de Ricardo Salles para o Meio Ambiente e o desmonte das estruturas de fiscalização já vinham sinalizando que os desmatamentos e as queimadas sairiam do controle.

Nos últimos dias, após atacar violentamente líderes europeus que reclamavam da política ambiental brasileira, Bolsonaro deixou a bola quicando para o presidente da França. Cheio de problemas internos, um enfraquecido Emmanuel Macron percebeu a oportunidade e bateu para o gol com precisão. Levantou arquibancadas nos quatro cantos do globo e se tornou, em 15 minutos, a mais nova celebridade ambiental do planeta. Bolsonaro está até agora zonzo pela rapidez dos acontecimentos.

Tudo seria lindo e maravilhoso se fosse assim tão simples: países estrangeiros nos ajudando a desmascarar Bolsonaro, o novo malvado favorito do planeta, com seu séquito de minions a destruir o “pulmão do mundo”. Mas essa história, infelizmente, é mais complexa. A Comunidade Europeia e os Estados Unidos também têm as mãos sujas de sangue e de fuligem.

Alimentos e siderurgia

Grandes empresas europeias e norte-americanas são financiadoras do desmatamento. O Fundo Amazônia é troco de pinga perto do que essas corporações lucram com a devastação das florestas brasileiras. E não apenas na Amazônia. Hoje, o cerrado é bioma que mais perde cobertura florestal. Dois setores estão à frente dessa tragédia: alimentos e siderurgia. As maiores empresas globais de alimentos financiam fazendeiros brasileiros que efetuam desmatamentos para criar gado e plantar soja.

Boa parte da madeira retirada vira carvão e vai parar em siderúrgicas no Centro-Oeste, Sudeste e Norte do país. Com esse carvão, as siderúrgicas fazem ferro gusa, usado na fabricação de aço mundo afora. Esse produto tem, em sua composição, carvão vegetal retirado ilegalmente de matas nativas.

Automóveis, aviões, computadores e celulares contém, em seus componentes, as marcas do desmatamento da Amazônia e do Cerrado. No setor de alimentos, a soja e a carne brasileira são vendidas em centenas de países, muitas vezes graças às operações de trades europeias e norte-americanas, que financiam os fazendeiros brasileiros que realizam o desmatamento.

Recentemente, uma dessas companhias, a Cargill, maior empresa do mundo de capital fechado, anunciou que não tem como cumprir a promessa de conter o desmatamento provocado pelos seus negócios no Brasil.

Outra gigante do setor de alimentos, a empresa suíça Nestlé, é bem conhecida pelos vínculos com atividades predatórias, inclusive a exploração de crianças e adolescentes na cadeia produtiva do chocolate.

Coca-Cola, Pepsico, Bunge e uma interminável lista de multinacionais com sedes no Hemisfério Norte já tiveram suas cadeias produtivas mapeadas. Foram estabelecidos elos concretos com práticas danosas ao meio ambiente.

A falácia da “soberania”

É ótimo que os países europeus ajudem o Brasil a desmascarar o protoditador Bolsonaro. Farão um imenso favor à democracia, aos direitos humanos e ao meio ambiente. Mas esses países também precisam parar de financiar o desmatamento da Amazônia e do Cerrado, que acontece, em grande medida, porque as multinacionais não monitoram com eficiência as suas cadeias produtivas. 

Da parte do governo brasileiro, tudo está para ser feito ou refeito, dado o estrago que fizeram desde a posse do atual presidente da república. Não é o troco de pinga do Fundo Amazônia que vai resolver a questão. Assim como também não será o falacioso discurso da “soberania nacional”, que Bolsonaro desenterrou da ideologia militar dos anos 1970. O que Bolsonaro quer é entregar a Amazônia. Ele é o maior inimigo da soberania nacional.

Esse cenário de terra arrasada só mudará com processo de gestão participativa nas regiões amazônicas e no Cerrado, com o cumprimento da legislação ambiental, a participação das comunidades locais nos processos decisórios e sem a influência desmedida do agronegócio e dos seus financiadores, as multinacionais sediadas na Europa e nos Estados Unidos.

As queimadas e o desmatamento da Amazônia e no Cerrado têm, há décadas, as digitais de grandes corporações multinacionais com sede nos países que estão agora chocados com o avanço da depredação.

Nesse contexto, causa espanto o comportamento dos meios de comunicação de massa, que seguem a lógica do século passado: proteção total ao anunciante. Não fazem a principal pergunta: quem se beneficia com o desmatamento?

Não fazem porque sabem quem mexe as cordinhas no mercado publicitário. Multinacionais do setor de alimentos (anunciantes), siderúrgicas vinculadas a montadoras de veículos e equipamentos eletroeletrônicos (anunciantes) injetam bilhões nas contas correntes dos fazendeiros que derrubam a mata e tocam fogo no cerrado e na Amazônia. 

fonte original: Brasil de Fato



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Blog do Mello, sempre contra a maré

Sei que meu blog é quase kamikase, porque eu desço o cacete nos principais conglomerados de mídia do país e também nas maiores empresas do mundo, como VW, Mercedes, todos os bancos e suas Fundações (por que só investigar a Fundação Sarney e não a Roberto Marinho, a Bradesco, a Itaú?), mas eu gosto mesmo é do sabor Coca-Cola.

Leia esta postagem que fiz aqui sobre o desastre que a Coca fez na Índia. E saiba também que a tal "água mineral" da Coca é água bical. Sim, a mesma água que você tem na sua torneira, só que tratada quimicamente.

Em homenagem à Coca vai esta montagem que fiz para a gigante de Atlanta:

Coca sabor zero

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Coca-Cola com coca, e o problema da água

Agora, após a divulgação do relatório do IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change), quando problemas do clima e da água voltam à pauta, vou trazer mais uma vez um assunto que abordei numa postagem aqui há quase um ano e que até agora não teve conseqüência.

Coca-Cola com coca?

Laudo do Instituto Nacional de Criminalística do Departamento da Polícia Federal concluiu: a Coca-Cola do Brasil usa folhas de coca como matéria-prima na fabricação do extrato vegetal (também chamado de mercadoria nº 05) utilizado como um dos componentes na fabricação do seu refrigerante de cola.

Segundo a legislação de entorpecentes em vigor (DL 891, de 25/11/1938, itens 13 e 14), o uso de folhas de coca e suas preparações é terminantemente proibido no país, assim como a utilização de cocaína, seus sais e preparações. A lei faz distinção clara e cita todas as formas proibidas, tanto quanto ao uso, cultivo, transporte e comercialização. O item 13 abrange a folha de coca e suas preparações; o item 14 veta a utilização de cocaína, seus sais e preparações.
Ou seja: em estrito respeito à lei, a Coca-Cola não poderia ser comercializada no país.

Você arguto leitor, leu sobre o assunto em algum lugar?

A Coca limitou-se a um comunicado curto em que afirmava que há muito tempo não usava folha de coca em seu preparo.

No entanto, a agência peruana antidrogas, DEVIDA, disse que a companhia compra 115 toneladas de folha de coca do Peru e 105 toneladas da Bolívia por ano.

Evo Morales: Coca só para a Coca-Cola?

Em reportagem da BBC Brasil, publicada dia 22/12/2005 presidente boliviano Evo Morales (à época eleito, mas ainda não empossado) insistiu que a empresa compra a coca, apesar das informações de que o produto saiu da fórmula do refrigerante em 1929.

- "Se já retiraram esse ingrediente da Coca-Cola, então por que seguem comprando?"

Coca, Pepsi e a água da Índia

Em um dos comentários sobre a postagem, uma leitora que se identificou como Cláudia Gonçalves enviou-me um link de uma reportagem do Le Monde Diplomatique. Aquele link caducou, mas descobri o novo.

A reportagem do Diplô mostra um quadro aterrador, decorrente da utilização da água pela Coca e sua irmã siamesa, a Pepsi, no Kerala, na Índia, e a luta das mulheres do local contra as gigantes multinacionais.

As duas empresas possuem atualmente noventa “usinas de engarrafamento”, que são na realidade nada mais que “usinas de bombeamento”: 52 unidades pertencem à Coca-Cola e 38 à Pepsi-Cola. Cada uma delas extrai entre 1 milhão e 1,5 milhão de litros de água por dia.

Essas práticas resultaram na secagem de 260 poços, cuja escavação tinha sido garantida pelas autoridades para servir às necessidades de água potável e para a irrigação agrícola. Nesta região do Kerala – chamada “celeiro de arroz”, em razão de um rico ecossistema dotado de água abundante – os rendimentos agrícolas diminuíram 10%. O cúmulo é que a Coca-Cola redistribui aos camponeses, sob forma de esterco, os dejetos tóxicos produzidos por sua usina. Os testes efetuados, no entanto, mostraram que este esterco tem um forte teor de cádmio e de chumbo, substâncias cancerígenas.

Pergunto: será diferente aqui no Brasil? Você, arguto leitor, leu alguma reportagem a respeito?

Parece que antes do compromisso com o leitor vem o compromi$$o com o anunciante. Essa é a ética dos jornalões?