O deputado estadual por São Paulo Arthur do Val, do MBL e apoiador da candidatura Moro, e pré-candidato ao governo daquele estado (até ontem), resolveu pegar uma casquinha na popularidade da guerra da Ucrânia, foco de todo o noticiário nacional e internacional, e rumou para aquele país.
De lá, a milhares de quilômetros do campo de batalha, enviou uma foto junto a engradados com garrafas vazias dizendo estar preparando coquetéis molotov em apoio ao exército ucraniano contra os russos.
Mas, no privado, enviou áudio a amigos elogiando a beleza das mulheres refugiadas ucranianas e, entre outras coisas, disse que elas são mulheres "fáceis porque são pobres".
Seria (ou será) certamente cassado, se a Assembleia de São Paulo não estivesse há mais de um ano para cassar um deputado que assediou uma colega deputada colocando as mãos acintosamente em seus seios, numa sessão plenária.
O deputado Arthur do Val, conhecido como "Mamãe Falei", faz parte desses seres bolsonaros eleitos na maré de esgoto que colocou na presidência do país talvez o brasileiro mais escroto da história, Jair Bolsonaro.
Mesmo assim, o jornalista Jamil Chade, correspondente internacional há anos, resolveu escrever uma carta aberta ao deputado, que certamente não aprenderá nada com ela, mas que vale como documento histórico de uma época triste e escrita de forma tão simples quanto emocionante.
Senhor deputado,
Confesso que não conhecia seu nome, e nem sua
denominação de guerra. Mas os áudios indigestos que vazaram com seus
comentários sobre a situação na Ucrânia me obrigaram a escrever aqui
algumas linhas sobre o que eu vi em campos de refugiados e filas de
pessoas desesperadas para escapar da guerra e da pobreza ao longo de
duas décadas.
Não estou acusando o senhor e sua comitiva do que estará exposto
abaixo. Mas considero que, sem entender essa dimensão do sofrimento
humano, fica impossível justificar uma viagem como a que o senhor faz
para ajudar a defender um povo.
Ao longo da história, a violência
sexual é uma das armas de guerra mais recorrentes para desmoralizar uma
sociedade. Ela não tem religião, nem raça. Ela destrói. Demonstra o
poder sobre o destino não apenas das vidas, mas também dos corpos e
almas.
Percorrendo campos de refugiados em três continentes, o que
sempre mais me impressionou foi a vulnerabilidade das mulheres nessa
situação.
Mas, antes, vamos ser claros aqui. Não precisamos sair
do Brasil para saber que as mulheres, simplesmente por serem mulheres,
precisam passar a vida se explicando. Como se necessitassem de chancela
ou justificativa para determinar o destino de seu corpo ou coração, se
podem trabalhar ou ter tesão. Intolerável, não?
Então, o senhor pode imaginar o que isso significa em tempos de guerra, onde a lei e a moral são suspensas?
Conheci
certa vez uma garota yazidi. Ela me contou como, depois de sua cidade
ser tomada por islamistas, ela foi transformada em escrava sexual.
Aqueles olhos verdes intensos se enchiam de lágrimas quando contava que,
num calabouço, ela e as demais meninas se dividiam em dois grupos.
Aquelas que rezavam para sobreviver e aquelas que rezavam para morrer logo.
Ela
também me contou que, num ato de solidariedade com as outras mulheres
que viriam depois delas, foi iniciado um gesto espontâneo de escrever
mensagens nas paredes daqueles quartos imundos, inclusive com dicas de
como agir. Escreviam com a única cor que tinham. O vermelho do sangue de
suas vaginas estupradas.
O senhor me diria: claro, isso é coisa
de terrorista islâmico. Sim, sem dúvida. Mas quero lhe contar o que
investigações e auditorias revelaram em um local mais próximo de nós: o
Haiti.
Ali e em outros locais onde estão destacadas, as tropas de
paz da ONU - repletas de moral, credibilidade e protocolos - foram
acusadas de estupro e de abusos com mulheres, meninas e meninos. Alguns,
em troca de comida. Num caso específico, um garoto era semanalmente
estuprado por oficiais, em troca de bolachas. Há até mesmo uma categoria
de crianças hoje nesses países, "os filhos da ONU".
Na Sérvia,
num barracão onde eram depositados os refugiados que aguardavam para
chegar até a Europa Ocidental, conheci uma mulher que não falava. Sua
irmã, depois, veio me explicar que ela ficou muda depois de ter sido
estuprada pelo "guia" que seus pais tinham contratado na Turquia para
que elas cruzassem as fronteiras. Para pagar pelo guia, os pais venderam
as únicas coisas que tinham: uma casinha e dois animais.
Em
Dadaab, no Quênia, entendi toda a minha ignorância quando fui perguntar
para um grupo de crianças do que elas tinham mais medo. Achei que a
resposta seria: as bombas de Mogadíscio. Mas era do escuro do campo de
refugiados. Quando pedi para saber o motivo, uma delas sussurrou: "não
podemos nem ir ao banheiro pela noite. Um homem pode fazer coisas ruins
com nosso corpo".
Anos depois, voltei a viajar para a África. Da
janela do avião a hélice em que eu voava, podia ver como um garoto usava
um pedaço de galho para tentar dirigir o destino de vacas e outros
animais. Enquanto ele conseguia dar direção ao gado, algumas reses
escapavam um pouco adiante.
Do assento em que eu estava, quase não
consegui ouvir quando o piloto se virou para trás e, competindo com o
barulho do motor, gritou que estávamos iniciando a aterrissagem. Jamais
imaginaria que, minutos depois, era sobre aquele local de terra de onde o
garoto estava retirando os animais que o avião iria pousar. O que de
fato eu tinha visto era a preparação da pista de pouso.
Eu tinha viajado para um lugar a oeste da cidade de Bagamoyo, na Tanzânia, para escrever sobre o impacto da Aids
numa das regiões mais pobres do planeta. Mas seria naquele local que eu
descobriria, de uma maneira inusitada, a dimensão do drama de
imigrantes e refugiados. Ao longo dos anos, visitei campos de refugiados
na fronteira do Iraque, entre o Quênia e a Somália, em Darfur, na rota
entre a Turquia e a Europa. Vi milhares de pessoas sem destino. Mas, nas
proximidades de Bagamoyo, aquela história era diferente. Oficialmente,
não havia uma guerra. Não havia um acampamento de refugiados. Mas eu
logo descobriria que nem por isso o desespero deixava de estar presente
naquela população.
Eu fazia uma visita a um hospital e esperava
para falar com o diretor. Por falta de médicos, ele fora chamado para
fazer um parto. Sabia que aquilo significava que eu passaria horas ali, à
espera de minha entrevista. Restava fazer o que eu mais gostava nessas
viagens: descobrir quem estava ali, falar com as pessoas, perambular
pelo local, ler os cartazes e simplesmente observar. No portão do centro
de atendimento, centenas de mulheres com seus véus coloridos aguardavam
de forma paciente. Tentavam afastar as moscas, num calor intenso,
enquanto o choro de crianças rompia os muros descascados daquela entrada
de um galpão transformado em sala de espera.
Ao caminhar para uma
das alas, fui barrado. Os enfermeiros me pediram que não entrasse no
local. Quando perguntei qual era a especialidade daquela área, disseram
que não podiam revelar. Em partes da África, o preconceito e o estigma
em relação aos pacientes de Aids obrigam os hospitais a não indicar nem
em suas paredes o nome da doença. Decidi sair do prédio em ruínas e, num
dos pátios do hospital, vi duas garotas brincando.
Não tinham
mais de 10 anos de idade. E o único momento em que olharam para o chão,
sem resposta, foi quando perguntei o que faziam ali. Mas a curiosidade
delas em saber o que um rapaz branco, com um bloco de notas na mão e uma
câmera fotográfica, fazia lá era maior que sua vontade de contar
histórias. Desisti de seguir com minhas perguntas. Expliquei que era
jornalista brasileiro e, para dizer meu nome, mostrei um cartão de
visita, que acabou ficando com elas.
Quando iam responder à minha
pergunta sobre os seus nomes, nossa conversa foi interrompida por uma
senhora que, da porta do hospital, me avisava que o diretor já estava à
disposição para a entrevista. Deixei aquelas crianças depois de menos de
cinco minutos de conversa. Já caminhando, virei e disse uma das poucas
expressões que tinha aprendido em suaíli: kwaheri - "adeus". Ganhei em
troca dois enormes sorrisos.
Terminada a entrevista com o diretor
do hospital, confesso que nem sequer notei se as meninas continuavam ou
não no pátio. Estava ainda sob o choque de um pedido do gerente da
clínica, que, ao terminar de me explicar o que faziam, me perguntou se
eu não poderia deixar para eles qualquer comprimido que tivesse na mala.
Qualquer um. Até mesmo se o prazo de validade já tivesse expirado.
Alguns
meses depois, já na Suíça, abri minha caixa de correio de forma
despretensiosa ao chegar em casa. Num envelope surrado e escrito à mão,
chegava uma carta de Bagamoyo.
Pensei comigo: deve ser um erro e a
carta deve ter sido colocada na minha caixa por engano. Eu não conheço
ninguém em Bagamoyo. Mas o envelope deixava muito claro: era para Jamil
Chade.
Antes mesmo de entrar em casa, deixei minha sacola no chão e
abri o envelope. Uma vez mais, meu nome estava no papel, com uma letra
visivelmente infantil. Eu continuava sem entender. Até que comecei a
ler. No texto, em inglês, quem escrevia explicava que tinha me conhecido
diante do hospital e que tinha meu endereço em Genebra por conta de um
cartão que eu lhe havia deixado.
Como num sonho, as imagens
daquelas garotas imediatamente apareceram em minha mente. Mas o conteúdo
daquela carta era um verdadeiro pesadelo. A garota me escrevia com um
apelo comovedor. "Por favor, case-se comigo e me tire daqui. Prometo que
vou cuidar de você, limpar sua casa e sou muito boa cozinheira." A
carta contava que sua mãe havia morrido de Aids - naquele mesmo hospital
- e que seu pai também estava morto.
Cada um dos oito filhos fora
buscar formas de sobreviver e ela era a última da família a ter
permanecido na empobrecida cidade. "Preciso sair daqui", escrevia a
garota. A cada tantas frases, uma promessa se repetia: "Eu vou te amar."
Uma
observação no final parecia mais um atestado de morte: "Com as últimas
moedas que eu tinha, comprei este envelope, este papel e este selo. Você
é minha última esperança."
Deputado, talvez o senhor
classificaria essa pessoa no grupo de "meninas fáceis". Eu, porém,
chorei de desespero e de impotência diante daquele pedido de resgate.
Eu
e o senhor- homens brancos - nascemos como a classe mais privilegiada
do planeta. Eu e o senhor não tivemos de fazer nada para adquirir esses
privilégios. Existimos.
É nossa obrigação, portanto, desmontar o processo de profunda desumanização de uma guerra e da miséria. Cada um com suas armas.
Não
sei qual será o destino que a Assembleia Legislativa em São Paulo, seu
partido e seus eleitores darão ao senhor. Qualquer que seja ele, só
espero que esse episódio revoltante sirva para que haja alguma
insurreição de consciências sobre a condição feminina. Na guerra e na
paz.
Grato pela atenção
Jamil