ASSANGE. Justiça britânica autoriza extradição aos EUA, que planejaram sequestrá-lo e assassiná-lo


Cúmplice nas ações criminosas de guerra dos EUA, o Reino Unido acaba de anular nesta sexta a decisão da juíza Vanessa Baraitser, que havia negado a extradição de Assange aos Estados Unidos. Com isso, a extradição pode ser determinada a qualquer momento. A defesa de Assange já avisou que vai recorrer da decisão.
 
A declaração da noiva de Assange e mãe de seus dois filhos Stella Morris resume o absurdo da decisão:
"Como pode ser justo, como pode ser certo, como pode ser possível, extraditar Julian para o próprio país que conspirou para matá-lo?"
Para quem não se recorda, reportagem de Zach Dorfman, Sean D. Naylor e Michael Isikoff publicada no Yahoo News revelou que a CIA tinha planos e estudos para sequestrar e até assassinar o líder do WikiLeaks.
 
O ano foi 2017, quando Assange já estava havia cinco anos asilado na embaixada do Equador e ilegalmente era espionado por câmeras e captadores de áudio infiltrados pelo governo dos Estados Unidos.
 
A ideia do sequestro e até do assassinato surgiu em função de novos pacotes de dados revelados pelo WikiLeaks, que atingiam o coração de operações de hackers da CIA, conhecidas coletivamente como "Vault 7". A reportagem publicada no Yahoo é extensa e vale a conferida [em inglês].
 
Em favor de Assange, ainda há a informação da principal testemunha apresentada pelos Estados Unidos de que seu depoimento era falso e foi forçado pelo FBI (como as delações premiadas da Lava Jato aqui no Brasil).
 
A testemunha dos EUA é o islandês Sigurdur Thordarson, que declarou que mentiu em seu depoimento em que acusou Assange, pressionado e acobertado pelo FBI. Ele  está preso agora em seu país, Islândia. É "um hacker pedófilo condenado por abusar sexualmente de nove crianças, tendo sido absolvido de cinco outros casos por falta de provas". Ponto importantíssimo em favor de Assange, já que Thordarson foi a única testemunha contra Assange.
 
Essas informações, que surgiram após a decisão da juíza Baraitser, deveriam reforçar a negativa de extradição e não permiti-la, como decidiu agora a justiça britânica.

Irmanado nos crimes de guerra denunciados por Assange e o WikiLeaks, a justiça britânica permite a extradição com a garantia do governo dos EUA de que seus prisioneiros recebem atendimento humanitário. 
 
Um pouco desse "atendimento humanitário" pode ser conferido aqui, em postagem do Blog do Mello de há 14 anos, 2007, e que esta pequena imagem ilustra [há outras no link].

 
#FreeAssange




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Exército brasileiro treina e doutrina contra os 'inimigos': Nós, da esquerda


Aquilo que a gente deduz do comportamento dos militares brasileiros, de que são absolutamente servis aos Estados Unidos, vivem ainda na época da guerra fria e enxergam por trás de tudo o "perigo comunista", fica exposto na reportagem de Rafael Moro Martins, no The Intercept Brasil, escrita a partir de um documento vazado sobre a Operação Mantiqueira — treinamento para uma tropa de elite do Exército, realizada em 2020. 
 
Na Operação, os inimigos somos nós da esquerda,os movimentos populares e até a mídia independente. Tudo com a sutileza desinteligente de um Pazuello, um Heleno, um Braga Netto, um Mourão, que nos mostram por suas performances a falta de qualidade na formação de nossos oficiais.

O Brasil vira Brasânia. MST vira MLT. Mídia Ninja vira Mídia Samurai. Um trabalho digno da tropa de recrutas Zero e sargentos Tainha comandada por um "mau soldado" (nas palavras de Geisel).

Lembrando que nós da esquerda representamos ao menos 30% dos brasileiros e com nossos impostos sustentamos esse treinamento que nos tem como adversários / inimigos / alvo.

A íntegra da reportagem pode ser lida aqui. A seguir, publico trechos:

O Exército realizou em 2020 uma simulação em que candidatos a integrar a sua tropa de elite tiveram de combater uma “organização armada clandestina”. No texto que apresenta o exercício, a força explica que o inimigo fictício surgiu “de uma dissidência do Partido dos Operários”, o “PO”, que “recruta e treina militantes do MLT”, o “Movimento de Luta pela Terra”.

Os documentos que descrevem o exercício foram entregues ao Intercept por uma fonte que pediu para não ser identificada por medo de retaliações. A Operação Mantiqueira foi realizada em novembro de 2020 em Piquete, cidade paulista de menos de 15 mil habitantes localizada no Vale do Paraíba e próxima à divisa com Minas Gerais e Rio de Janeiro. A locação não foi escolhida à toa: a cidade é sede de uma das mais antigas unidades da Imbel, a Indústria de Material Bélico do Brasil, uma estatal vinculada ao Exército.

O teor do exercício a que os oficiais do Exército submetem candidatos às suas Forças Especiais deixa claro que, passados quase 40 anos desde a redemocratização, a maior das três Forças Armadas não apenas segue a enxergar movimentos sociais e políticos de esquerda como inimigos – ela também está sendo treinada para combatê-los.

Participaram da Operação Mantiqueira sargentos de carreira e oficiais do Exército que eram alunos do Centro de Instrução de Operações Especiais, o CIOpEsp, localizado em Niterói, cidade da região metropolitana do estado do Rio. Ela foi a última atividade do curso que serve como vestibular para o ingresso nas Forças Especiais. Em 2020, segundo a fonte que entregou os documentos ao Intercept, de uma turma de quase 40 alunos, 17 foram aprovados para trabalhar no Batalhão de Forças Especiais, o BFEsp, sediado em Goiânia.

...

O texto que apresenta o exercício aos alunos do CIOpEsp começa apresentando o “Exército de Libertação do Povo Brasaniano”, o ELPB, “criado a partir de um projeto de partido político de caráter marxista e com uma organização armada clandestina, nascido de uma dissidência do Partido dos Operários e que recruta e treina militantes do MLT” num país fictício chamado Brasânia. As referências, óbvias, são ao Exército de Libertação Nacional da Colômbia, ao Partido dos Trabalhadores e ao MST. Existe, também, um movimento que luta pela reforma agrária chamado Movimento de Luta pela Terra, fundado na década de 1990 na Bahia.

...

“Cabe ressaltar que esses grupos têm utilizado canais da Deep Web e de mídias sociais para disseminar vídeos, imagens e outros produtos sobre as ações violentas executadas. Essa prática ficou conhecida como ‘Mídia Samurai'” – aqui a referência é à Mídia Ninja, que documentou os protestos contra reajustes nas tarifas do transporte público em São Paulo e outras capitais e depois se tornou um veículo de mídia popular na esquerda.

Mas não são apenas as mídias de esquerda as citadas no documento: a imprensa como um todo apanha. “Uma ala mais tendenciosa da imprensa vem acompanhando o ELPB de forma velada, com notícias que buscam divulgar o caráter ‘democrático e de liberdade’ que o ELPB ‘defende'”, critica o texto.

...

Chamou a atenção dos pesquisadores o descolamento do tema do treinamento com o momento político brasileiro. “Não há nenhuma ameaça à democracia partindo de organizações de esquerda, mas sim das de direita, que têm ameaçado instituições democráticas e sendo investigadas em inquéritos do Supremo Tribunal Federal”, argumentou o professor João Roberto Martins Filho da UFSCar. Ele se referia, por exemplo, aos protestos organizados em Brasília nos últimos dois anos por partidários de Jair Bolsonaro, como os 300 do Brasil, inclusive convocados pelo próprio presidente, como no último 7 de setembro.






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EleNão e a estratégia de sobrevivência das baratas

Do jornalista Eugênio Bucci, no Estadão.
Inteligência, baratas e poder

 “Quem quer que já tenha tentado matar uma barata sabe que ela é inteligente.” Assim falou a professora Lucia Santaella. Titular da Cátedra Oscar Sala, no Instituto de Estudos Avançados da USP, a pensadora sabe o que diz. Baratas podem, sim, ser consideradas inteligentes. A seu modo, elas raciocinam, arquitetam táticas de fuga e, no mais das vezes, conseguem escapulir.

Em seu elogio ao tirocínio do esperto inseto que, além de tudo, “avoa”, Lucia Santaella não nos lança uma reles anedota com fins didáticos. Apoiada na semiótica do filósofo americano Charles Sanders Peirce (1839-1914), ela nos traz mais do que uma boutade. Peirce escreveu que “o pensamento não está necessariamente conectado a um cérebro”. Para ele, haveria “pensamento”, igualmente, no “trabalho das abelhas e nos cristais”, isso para ficarmos apenas em poucos exemplos.

No texto de Peirce, o termo “pensamento” deve ser entendido como a capacidade de um organismo ou um sistema dar respostas calculadas, baseadas em alguma forma de memória e aprendizado, aos estímulos que recebe do mundo externo.

Atualmente, usamos para isso a palavra “inteligência” – e esta não precisa mesmo de um cérebro. Contam os pesquisadores que, se você arrancar a cabeça de uma barata, ela vai continuar andando normalmente, com perfeita coordenação corporal, e isso por um bom tempo.

Quem assiste a um documentário disponível na Netflix chamado Professor Polvo (Oscar de melhor documentário em 2021) acaba se convencendo de que os polvos também “pensam”, embora não tenham propriamente um cérebro no meio da cabeça. No caso deles, os neurônios, distribuídos pelos tentáculos, conseguem se comunicar uns com os outros, sem depender de comandos vindos de uma massa encefálica central.

Até as plantas têm uma forma de inteligência. O botânico italiano Stefano Mancuso vem dizendo exatamente isso há duas ou três décadas. “Um ser inteligente não é só aquele que possui cérebro”, garante o cientista. “É um organismo capaz de resolver problemas e aprender com as situações – e nisso as plantas têm sido craques.” Os estudos do botânico brasileiro Marcos Buckeridge comprovam a tese. “Não é nada exorbitante dizer que as plantas têm memória interna”, disse ele na palestra Cognição e inteligência em plantas, disponível no Youtube. Buckeridge, que é diretor do Instituto de Biociências da USP, sustenta que os vegetais aprendem e ordenam seu crescimento com inteligência. Entre outras coisas, isso significa que não é exato dizer que uma pessoa em coma esteja em “estado vegetativo”. Vegetais, senhoras e senhores, “pensam” ativamente.

Diante disso, não surpreende que existam sinais de alguma inteligência nos movimentos políticos do presidente da República. Agora mesmo, nesta semana, a cerimônia de sua filiação a um partido político revela a existência de algum tipo de cálculo nas entranhas do bolsonarismo. É impressionante. Mais do que o discernimento direcional das lesmas e das estalagmites, o tema vem intrigando observadores da cena política nacional.

O instinto adestrado de sobrevivência do governo que aí está – e está até hoje – assombra o ceticismo científico mais rigoroso. Em metamorfoses estratégicas mirabolantes, o organismo bolsonárico logrou se transformar no oposto do que era, sem jamais se descuidar de seu objetivo: conservar-se no poder. O chefe de Estado, que há poucos meses insultava os próceres do Centrão, encontrou meios de se entronizar como o líder máximo de todos eles. Nesse deslocamento, que envolveu operações de alta complexidade, o mitômano personagem escapou da ameaça de impeachment, reverteu ações penais que espreitavam seu círculo familiar (deixou-as todas processualmente rachadinhas) e, agora, se viabiliza para tentar a reeleição. Um prodígio, certamente.

Mas como pode? Haveria por lá algum estrategista de gênio? As hordas fanáticas (que las hay, las hay) acreditam fervorosamente que sim – ainda que nessa crença repouse, latente, uma ofensa gratuita às baratas. Outros dizem que não há inteligência nenhuma naquelas hostes, mas isso pouco importa. O fato é que o índice de sucesso do (des)governante desconcerta, humilha e oprime todo o seu entorno, próximo ou distante.

Nesta hora de desconforto moral, não podemos esquecer que a razão humana não se resume à faculdade da inteligência. Ao menos desde Aristóteles, a razão supõe, além do raciocínio, além da lógica instrumental, a dimensão ética e a dimensão estética, entre outras. Sujeitos com transtornos de personalidade também articulam atos e palavras, mas emperram no plano ético e não dispõem de recursos para a estesia e a empatia. A aptidão para conjugar pensamento crítico, sensibilidade estética e princípios éticos talvez sintetize a substância do espírito (Ralph Waldo Emerson dizia que o caráter está acima da inteligência).

Por tudo isso, a inteligência instalada no outro lado tem um aspecto bruto, demente, feio, selvagem e desumano. O fato de ela ter prosperado tanto, com tamanha desfaçatez, comprova que, do lado de cá, ainda grassa a estupidez.






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Lula com Alckmin, por Tereza Cruvinel


Da jornalista Tereza Cruvinel, eleita a Melhor Colunista de opinião do Prêmio Comunique-se.
Lula com Alckmin: O Brasil vale uma missa

Bastou Lula admitir que está "em processo de conversa" com Alckmin, e este afirmar que está "caminhando"  a ideia de sua participação como vice na chapa do petista, para começar o ranger de dentes na esquerda e na direita. Enquanto nas redes militantes petistas esconjuram a aproximação com o "neoliberal", porta-vozes da direita na mídia  atacam o ex-governador, reduzindo seu gesto político a mera desejo de vingança contra João Dória.

E com isso, sectários dos dois lados estão dizendo que, apesar dos discursos feitos nestes últimos tristes tempos, para eles a prioridade não é derrotar Bolsonaro e o fascismo, restaurar plenamente a democracia e tirar o país da decadência intolerável a que foi condenado pela ignorância e a incompetência do bolsonarismo.

Os indignados da esquerda deviam prestar mais atenção ao que Lula disse à Rádio Gaúcha: "eu quero construir uma chapa para ganhar as eleições. E quero construir uma chapa para mudar outra vez a história deste país". Objetivo e claro.

A direita estrila contra Alckmin pela razão óbvia de que, aceitando a vaga de vice, ele potencializa a chapa de Lula e torna mais remoto o sonho do momento da direita não-bolsonarista: turbinar a candidatura de Sergio  Moro, polir sua imagem de juiz ladrão com um banho de mídia, atribuir-lhe um conteúdo político e intelectual que ele não tem e levá-lo ao segundo turno para uma disputa de vida ou morte com Lula.

Impossível não é, considerando-se que Bolsonaro está em seu momento de mais aguda desidratação política e eleitoral, como mostra a pesquisa Atlas desta semana, em que ele obteve apenas 19% de ótimo ou bom na avaliação de desempenho. Na intenção de votos,  manteve o segundo lugar com 31,5%, bem atrás de Lula com 42,8%, mas viu Moro fincar seu nome em terceiro lugar com 13,7%.

Resta saber se outras pesquisas confirmarão o viés de alta de Moro, e se ela é consistente ou fogo de palha atiçado pela intensa exposição midiática que lhe foi conferida desde sua filiação ao Podemos, há apenas 20 dias. Impressionante como inventam pautas com Moro. Agora está em cartaz o livro das mentiras e desculpas amarelas para seus delitos na Lava Jato e a perseguição a Lula que lhe rendeu o reconhecimento de parcialidade pelo STF.

Apostando tudo nesse cavalo do momento, a direita é atropelada pela declaração de Alckmin, de que pode mesmo vir a ser vice de Lula. E parte para o apedrejamento. Eles sabem que a aliança confere a Lula muito mais que votos. Ficam recordando que Alckmin perdeu duas vezes para presidente (e feio em 2018), e que até encolheu na disputa do segundo turno com Lula em 2006. Bobagens.   Como vice, ele traria a chapa de Lula mais para o centro, como fez José Alencar em 2002, e enfiaria uma cunha nos setores da elite que, mesmo achando Bolsonaro inaceitável, consideram Lula indesejável. Como disse aquele dirigente da Natura. Alckmin na chapa neutralizaria resistências e atrairia apoios do campo conservador de que Lula necessita, se não para ganhar, com certeza para governar.

Já a indignação de grupos mais à esquerda, dentro e fora do PT, é sintoma de uma velha doença. Sim, aquela mesma que Lênin definiu como "Esquerdismo- doença infantil do comunismo".  Atualmente ela atende mais pelo nome de sectarismo, pois o comunismo de fato passou a existir apenas na realidade paralela dos extremistas de direita. Para essa ramo da esquerda, só uma chapa puro-sangue, que tivesse como vice um Flávio Dino ou alguém parecido, garantiria a natureza progressista do eventual terceiro governo Lula. Em verdade, gostariam que tal governo fosse revolucionário sem ter havido revolução, mas apenas uma eleição. Está faltando a essa turma compreensão da correlação de forças. Se o PT pudesse ganhar sozinho, Bolsonaro não seria presidente hoje.

Aí surgem desculpas as mais diversas: Ah, o Alckmin é privatista e neoliberal. Ok, mas ele não vai governar. Algum acordo sobre o programa de governo haverá mas Lula não venderá a alma para ter um vice. Quando eu disse ontem que ele será um substituto eventual de Lula, naturalmente não dizia que ele só servirá para isso. Obviamente que representará interesses conservadores no governo, mas daí a dizer que será golpista como foi Temer vai larga distância. Os jornais de 2016 trazem declarações do ex-governador pedindo cautela com o impeachment de Dilma e guardando alguma distância do processo. Depois veio o completo embarque dos tucanos e ele foi junto, mas não teve o papel de um Aécio.

Outros dizem: Ah, com Alckmin de vice a direita vai tramar um golpe contra Lula para empossá-lo, como fizeram com Temer. Contra isso, não temo dizer: se Lula fosse o presidente em 2016, não teria havido golpe. Tanto é que Dilma o buscou como ministro da Casa Civil na certeza de que ele, com sua habilidade e capacidade de articulação, evitaria o impeachment. Mas Moro vazou seletivamente aquela conversa entre os dois, sugerindo que Lula fora nomeado ministro apenas para não ser preso, e Gilmar Mendes tomou a pior decisão de sua vida no STF, impedindo que Lula assumisse o cargo depois de já empossado.

Mas então os purosanguistas acrescentam: Ah, as forças do imperialismo, que foram parceiras da Lava Jato e do golpe de 16, vão cooptá-lo e para a derrubada de  Lula. Sobre isso digo: a viagem de Lula à Europa mostrou que sua dimensão internacional é uma blindagem considerável contra golpes dessa natureza. Os norte-americanos já fizeram de tudo neste planeta, contra diferentes povos, mas é preciso levar em conta quem é Lula no mundo. E, sobretudo, que a natureza de seu governo dificilmente dará pretexto a tais estrepolias na geopolítica. Quando presidente, ele conseguiu ter boa relação com Bush, sem virar as costas para Cuba ou para a Venezuela.

Lula, mais uma vez,  lembra Henrique IV, que abdicou do protestantismo e abraçou o catolicismo para garantir seu reinado, dizendo: "Paris bem vale uma missa". Lula, mais uma vez, reconhece que o futuro do Brasil vale uma aliança e uma concessão, vale a troca da chapa puro sangue por uma aliança que será de centro-direita e centro-esquerda. E para isso, Alckmin também caminhará mais para o centro. Se dará certo, veremos.

Alckmin está sendo mais atacado que Lula por conta do "processo de conversa" sobre a aliança. E vale reconhecer que, se decidir filiar-se ao PSB para ser vice de Lula, estará abrindo mão de uma eleição quase certa ao governo de São Paulo pelo PSD.

A opção por  um cargo de pouco poder e parco protagonismo, como o de vice-presidente, não pode ser reduzida a mero desejo de vingança contra Doria. Alckmin  já se vingaria voltando ao Palácio dos Bandeirantes. Doria, com 1,7% na pesquisa Atlas, está destinado à planície se insistir em disputar a Presidência.

Ao aceitar essa conversa para ser vice de Lula, para a qual foi procurado e não procurou, Alckmin também se dispõe a algum sacrifício para garantir o isolamento do fascismo, a derrota de Bolsonaro e a reconstrução deste país que vem tolerando o intolerável, pois o bolsonarismo foi também capaz de criar esta apatia política que tudo naturaliza. É preciso reconhecer, no mínimo, que dificilmente um político troca o certo pelo duvidoso em matéria eleitoral.  

Lula e Alckmin, neste momento, estão tentando fazer a política maior, a do P maiúsculo, colocando o interesse do país acima das conveniências individuais. Podem não conseguir, mas é preciso pelo menos reconhecer a natureza do gesto que estão fazendo.






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BOLSOLÃO: Congresso ameaça STF para garantir sigilo do esquema de corrupção do orçamento secreto

Do Celso Rocha de Barros, na Folha:

Ladrões ameaçam STF com fascismo

A direita quer reduzir a idade de aposentadoria dos ministros do Supremo para 70 anos, de modo a permitir que Bolsonaro indique mais dois integrantes do tribunal

A Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados aprovou a proposta da militante de extrema-direita Bia Kicis (PSL-DF), presidente da comissão, que revoga a "PEC da Bengala".

A "PEC da Bengala" foi uma das inúmeras falcatruas cometidas pela direita brasileira em 2015-2016. Para evitar que Dilma Rousseff exercesse seu direito de indicar mais ministros para o STF, o Congresso ampliou a idade de aposentadoria compulsória dos ministros para 75 anos. Agora que a direita governa o país, a turma quer reduzir de novo a idade de aposentadoria para 70, de modo a permitir que Bolsonaro indique mais dois ministros.

O objetivo de Kicis e Bolsonaro é claro: seguir, no Brasil, o roteiro de desmonte da democracia implementado pelos governos autoritários que os inspiram, como os da Hungria e da Polônia. Os "novos autoritários" já descobriram faz tempo que o caminho mais curto para desmontar a democracia é o aparelhamento da Suprema Corte. A Suprema Corte decide o que a Constituição diz, quem controla a Suprema Corte diz o que é a Constituição.

O projeto de Kicis é uma prova clara que os ataques de Bolsonaro contra o STF nunca foram só reações ao inquérito das fake news ou às investigações sobre Flávio Bolsonaro: é parte de um projeto autoritário bastante claro com inspiração internacional que os bolsonaristas nunca negaram.

Mas não foram só os extremistas de Bolsonaro que votaram a favor da proposta de Kicis. O centrão e mesmo deputados de partidos com pretensão a "terceira via" (PSDB, PDT, Cidadania) também votaram a favor.

O objetivo é retaliar o STF pela suspensão do orçamento secreto, esquema de compra de votos que Arthur Lira opera em nome do governo Bolsonaro. Em 2021, os recursos destinados pelo orçamento secreto já somam R$16,8 bilhões.

Na última quinta-feira, os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, Arthur Lira e Rodrigo Pacheco, comunicaram que não pretendem, vamos lá, atenção, não pretendem cumprir a ordem do STF que determinou que os nomes dos deputados contemplados no orçamento secreto sejam revelados ao público.

Desde a matéria do jornalista Breno Pires que revelou o orçamento secreto, todos os analistas farejam um escândalo de grandes proporções. Por que os parlamentares prefeririam apresentar seus pedidos de verbas por um mecanismo secreto e não pelas emendas regulares? Os casos de superfaturamento de tratores, já identificados, permitem suspeitar que se trata de troca de dinheiro por votos, embrulhada de algum jeito que seria fácil de desembrulhar se os dados fossem abertos. Se Lira e Pacheco topam peitar o STF e bancar o autoritarismo de Kicis/Bolsonaro para não abrir os dados, a suspeita de roubalheira já passa a ter um jeitão de certeza.

Não se sabe se Lira e sua turma levarão a proposta de Kicis (já conhecida como "PEC da Vingança") até o fim. Pode ser blefe.

Mas a crise institucional dos últimos dias mostra como o autoritarismo de Bolsonaro e a corrupção do centrão anabolizaram um ao outro. Os corruptos ameaçam o STF com autoritarismo se seus crimes forem investigados. Os golpistas não foram impichados depois do 7 de Setembro porque compraram os corruptos. No Brasil de Bolsonaro, separar os fascistas dos ladrões é, cada vez mais, um exercício acadêmico.





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Solução não é isolar a África; é acolhê-la e vaciná-la


Quase dois anos de pandemia e não aprendemos nada. Com o surgimento de uma nova cepa do coronavírus na África do Sul, ômicron, o mundo reage como reagimos com os moradores de rua, os loucos, os deserdados — a solução é tirá-los de perto.
 
Até o Brasil bolsonaro, que aceita visitantes sem vacina de qualquer parte do mundo, declarou que vai fechar fronteiras para visitantes da África do Sul, Botsuana, Eswatini, Lesoto, Namíbia e Zimbábue.
 
Não vai resolver o problema, vai só adiá-lo, é claro. Porque o coronavírus que causa a COVID é um problema mundial. Enquanto o mundo não estiver pelo menos 80% vacinado, a ameaça de novas cepas, que podem tornar as vacinas atuais inúteis, vai prosseguir.
 
Números recentes, de há dois meses, indicam que apenas 3,5% da população do continente africano está com a vacinação completa [G1].
 
A solução, óbvia, é vaciná-los. Ou então seguir alimentando a corrupção de respiradores superfaturados, hospitais de emergência sem concorrência, ao redor do mundo.
 
E mortes. Centenas. Milhares. Centenas de milhares.
 
A solução é mundial ou não é solução.





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Após destruir o presente, Bolsonaro quer destruir o passado com nomeação de atirador para o Arquivo Nacional


Não há um único setor no país em que Bolsonaro não tenha colocado sua mão podre e destruído, ou quase. 
 
O próximo governo vai ter um trabalho enorme para reerguer o país após a nuvem de gafanhotos de Bolsonaro.
 
Agora, não satisfeito em arrasar o presente, Bolsonaro parte para destruir o passado, reescrevê-lo ou apagá-lo, nomeando para a direção-geral do Arquivo Nacional. um homem sem as mínimas qualificações para o cargo, o funcionário aposentado do Banco do Brasil Ricardo Borda D'Água de Almeida Braga.
 
"Ex-chefe de segurança do BB, ex-subsecretário de Segurança Pública do Distrito Federal, atirador esportivo e agraciado como “colaborador emérito” do Exército" [O Globo], isso é qualificação para o cargo?
 
Essa nomeação vem coroar medidas anteriores já tomadas com a função de detonar o setor [destaque em negrito é meu]:
Duas situações já causavam insegurança: a paralisação do projeto Memórias Reveladas, baseado nos arquivos da ditadura, e a edição de um decreto e de uma portaria que mudaram o sistema da gestão de documentos e arquivos. As repartições federais foram desobrigadas de pedir autorização do Arquivo antes de eliminar um documento. No caso do Memórias Reveladas, autores premiados em 2017 ainda não tiveram os projetos editados em livro, como previa o regulamento.

Arquivistas, historiadores e pesquisadores lançaram o abaixo-assinado “Queima de arquivo, não” para pedir a destituição de Borda D’Água e a nomeação de alguém com qualificação técnica e experiência, conforme o decreto que fixa os critérios e o perfil profissional para cargos de direção. “Não é razoável que o Arquivo Nacional seja dirigido por um indivíduo em cujo currículo não há qualquer menção de atuação com gestão de documentos”, diz o texto. [O Globo]


Inacreditável que a gente continue a escrever "inacreditável" à série de "inacreditáveis" destruições que Bolsonaro impõe ao país em todos os setores, até o momento impunemente. Como vamos explicar isso aos que virão?






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Toffoli não falou merda à toa. Vem aí nova onda golpista, o semipresidencialismo


Em Portugal, onde participa do 9º Fórum Jurídico de Lisboa, o ministro do STF Dias Toffoli pôs lenha na fogueira ao afirmar que o Brasil vive um semipresidencialismo com o STF atuando como partido moderador:
"Nós já temos um semipresidencialismo com um controle de poder moderador que hoje é exercido pelo Supremo Tribunal Federal. Basta verificar todo esse período da pandemia", disse Toffoli. [Fonte: Gazeta do Povo] 
Isso certamente vai excitar as hordas bolsonaristas que há muito acusam o STF de impedir Bolsonaro de governar como se ele soubesse ou quisesse fazer isso. Bolsonaro disse no início do governo que veio para destruir e não para construir.
 
Participando do mesmo Fórum, o golpista Temer aproveitou a deixa e retomou o tema e a defesa do semipresidencialismo:
Temer defendeu que o Brasil adote o semipresidencialismo, regime em que o presidente compartilha o poder com um primeiro-ministro, eleito pelo Congresso Nacional. O emedebista afirmou que parlamentares têm tempo hábil para aprovar o projeto até março do ano que vem. [Fonte]
Ou seja, que Terceira Via que nada! Nem Ciro, nem Dória, nem Moro, a Terceira Via deles é o golpe do semipresidencialismo (como já publiquei aqui) para tirar poderes de Lula, que ficaria mais ou menos como uma rainha da Inglaterra, enquanto um primeiro-ministro, eleito pelo Centrão provavelmente, comandaria o país.
 
É mais uma face do golpe. Já que não conseguem barrar a vitória de Lula, que cresce a cada nova sondagem, vão tentar lhe tirar o poder de governar.
 
Falta combinar com o povo., que por duas vezes já disse não ao parlamentarismo, que é o nome verdadeiro por trás de semipresidencialismo de araque do golpista Temer.





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'Moro é uma fraude. Ele e Bolsonaro se igualam na mesma inclinação totalitária'


A jornalista Cristina Serra é cirúrgica na sua análise sobre o farsante que quer se apresentar à plateia como um pavão de coloridas plumas, mas que é na verdade um marreco depenado e condenado pela pior pecha que se pode lançar sobre um juiz, a de ser um juiz suspeito, aquele juiz que o torcedor de futebol conhece bem como juiz ladrão.
Moro, a fraude

Eis que Sérgio Moro reaparece, com o messianismo e o discurso justiceiro de sempre, transbordantes no seu retorno aos holofotes. Moro exercitou as cordas vocais e estudou pausas teatrais, tentando dar alguma credibilidade ao estilo "corvo" moralista, atualizado para o século 21, só que sem a capacidade retórica do modelo original, o udenista Carlos Lacerda.

O erro de Moro é achar que o Brasil ainda está em 2018 e que vai votar em 2022 movido pelo ódio, por ele estimulado quando conduziu a Lava Jato. No processo que levou à condenação do ex-presidente Lula, o então juiz rasgou o devido processo legal e a Constituição. Isso não é versão nem narrativa. É o entendimento consagrado pelo STF, que o considerou um juiz suspeito.

Este é o fato mais importante da biografia do agora candidato e não pode ser naturalizado como página virada. Isso revela a essência de Moro. Ele grampeou advogados de Lula (tendo acesso, portanto, às estratégias de defesa do réu); determinou condução coercitiva espetacularizada; divulgou áudio ilegal e seletivo envolvendo a presidente Dilma, vazou delações.

O vale-tudo processual deu caráter de justiçamento à Lava Jato, feriu o Judiciário, a democracia e o país. Tudo com a complacência da mídia, a mesma que agora parece ver no ex-juiz o nome que procura para a terceira via como quem busca o Santo Graal.

Moro nunca demonstrou o menor constrangimento em servir a um presidente adepto da tortura e com notórias conexões criminosas. Tentou dar a policiais esdrúxula licença para matar sob forte emoção. Como quem fareja carniça, quando deixou o governo, foi ganhar dinheiro no processo de recuperação de uma das empresas que ajudou a esfolar.

Agora, Moro se apresenta como democrata. É uma fraude. Ele e Bolsonaro se igualam na mesma inclinação totalitária. As semelhanças, aliás, foram ressaltadas por pessoa insuspeita. Foi a senhora Moro quem disse, quando este ainda era ministro, que via o marido e o presidente como "uma coisa só".





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STJ adia encontro de Flávio Bolsonaro com a prisão no caso de corrupção das rachadinhas

O STJ desdisse o que havia dito, volta atrás em decisão anterior e resolve anular todo o processo contra Flávio Bolsonaro no caso das rachadinhas.
Os ministros voltaram atrás da decisão que negou, em março, pedidos para invalidar todas as medidas tomadas pelo juiz Flávio Itabaiana, da 27.ª Vara Criminal do Rio, que conduziu o inquérito por quase dois anos enquanto o caso tramitou na primeira instância. O julgamento foi retomado após um pedido de vista (mais tempo para análise) do ministro João Otávio de Noronha.
No julgamento de hoje, o colegiado bateu o martelo sobre a impossibilidade de aproveitamento das provas colhidas mediante autorização do juiz de primeira instância, o que na prática desidrata quase toda a denúncia. [Estadão]
Isso acaba com o caso e Flávio Bolsonaro foi declarado inocente? Não, o caso só vai trocar de instância. Mas as provas da prática das rachadinhas, desvio de salário de funcionários de gabinete para os bolsos de Bolsonaro, são abundantes.
 
A decisão de ontem apenas adiou o encontro de Flávio com a Papuda. Mais dia menos dia ele vai parar lá, acompanhado do pai.
 
Mas, Mello, o Temer, o Aécio...
 
Temer, Aécio, Jucá, esses nomes têm relações profundas com a política brasileira, o que não ocorre com a famiglia Bolsonaro, que não tem relações com ninguém, a não ser entre si e as milícias.
 
Acabado o mandato do Jair, os processos vão andar e as provas contra eles são irrefutáveis.





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STF barra Bolsolão e manda abrir caixa preta do orçamento secreto, bilionário esquema de corrupção do governo Bolsonaro

Com os votos de Rosa Weber, Barroso, Cármen Lúcia, Lewandowski e Alexandre de Moraes o STF barrou a farra do Bolsolão, apelido que o povo deu ao orçamento secreto, esquema bilionário de corrupção do governo Bolsonaro.

Mas não é só isso: Câmara e Senado terão que abrir a caixa-preta dos bilhões que foram distribuídos entre deputados e senadores para votarem medidas favoráveis a Bolsonaro e abafar os mais de 130 pedidos de impeachment contra ele, que Arthur Lira, como antes Rodrigo Maia, mantém engavetados. 
 
O Congresso vai ter que mostrar quem pegou o dinheiro, onde usou e para quê. Segundo informações, só para a votação da PEC dos Precatórios cada deputado levou R$15 milhões.





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