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Em vez de tirar Bolsonaro da presidência CPI quer bani-lo das redes sociais
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TSE se acovarda e não cassa chapa Bolsonaro-Mourão, embora reconheça gravidade dos crimes
— O Cafezinho ☕️🇧🇷 (@ocafezinho) October 28, 2021
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Recomeça julgamento de Assange hoje no Reino Unido
Recomeça hoje o julgamento do pedido de extradição de Julian Assange aos Estados Unidos. Se for extraditado, Assange pode ser condenado a 175 anos de prisão e apodrecer numa prisão de segurança máxima dos EUA por ter revelado ao mundo os crimes de guerra cometidos por aquele país e aliados.
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Bolsonaro se ajoelha e entrega governo ao Centrão para não sofrer impeachment
Quando o rabo abana o cachorroNão é preciso mais do que uma conta tosca de padaria para desmontar a narrativa do governo de que o teto de gastos foi furado para beneficiar os pobres com um aumento maior do sucedâneo do Bolsa Família, o Auxílio Brasil. Não é verdade. Os pouco mais de R$ 30 bilhões da ampliação do auxílio poderiam, por exemplo, sair dos recursos destinados às emendas parlamentares – só este ano, foram R$ 37 bilhões, sendo R$ 16 bi sob o duvidoso mecanismo das emendas de relator.
Mas Jair Bolsonaro e Paulo Guedes, que agora parece ter se juntado de corpo e alma à equipe eleitoral do chefe, precisam dessa versão para não expor o que já está óbvio: sua escravidão total ao Centrão, inclusive e sobretudo na condução da política econômica. Alem de manter intactos seus recursos para emendas, os parlamentares governistas ainda terão muito mais, pois o espaço aberto no Orçamento com as gambiarras feitas vai ultrapassar os R$ 80 bilhões, turbinando emendas e obras em redutos eleitorais.
Será uma festa para a turma do Centrão. Daqui para frente, tudo será permitido para ganhar votos no ano que vem, mas não só isso.
Acima de tudo, o Planalto tenta esconder o fato de que, no estica-e-puxa que arrebentou o teto, que prevê um semi-calote nos precatórios e que quer fazer o país engolir uma reforma do Imposto de Renda considerada ruim por dez entre dez tributaristas, está a redução do presidente da República e de seu ex-czar da Economia à sua mínima expressão. Bolsonaro e Guedes são hoje pigmeus na terra de gigantes do Centrão.
O processo que vinha se desenvolvendo desde o acordo com esse grupo parlamentar que livrou Bolsonaro do impeachment, chefiado por Arthur Lira e Ciro Nogueira, acaba de se completar. O Executivo, que muitas vezes, em governos passados, cortou emendas parlamentares para tapar buracos mais importantes do orçamento, e manejou suas verbas para governar – como lhe garante a Constituição – perdeu a prerrogativa fundamental de comandar a execução orçamentária.
É simples assim: governo que não comanda a execução do orçamento – que vem aprovado do Congresso – não governa. É uma inversão no sistema presidencialista, uma mudança institucional provocada pela fraqueza política de um presidente da República que não tem liderança, projeto nem competência para administrar o país. No popular, é mais ou menos como se o cachorro deixasse de abanar o rabo e o rabo passasse a abanar o cachorro.
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Auxílio de R$400 de Bolsonaro fulmina Terceira Via e bota esquerda numa sinuca de bico
Por que o auxílio emergencial de R$400 do governo fulmina a Terceira Via eu já comentei aqui ontem. Se ele já está disparado na frente dos terceiraviistas, com o aumento de sua aprovação popular com o auxílio a Terceira Via é enterrada de vez, morre sem desabrochar.
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Bye bye Terceira Via. Mercado libera R$30 bi fora do teto pra Bolsonaro buscar reeleição
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Bilionários vão para o céu?
Os bilionários vão para o céuO americano Jeff Bezos tem 57 anos, US$ 193 bilhões e uns trocados (como o jornal Washington Post). Fundador e proprietário da Amazon, criou uma outra empresa – isso lá atrás, em 2000 –, à qual vem se dedicando cada vez mais. Essa empresa, chamada Blue Origin, é um empreendimento sideral. Seu objetivo é vender viagens turísticas ao espaço e, ao mesmo tempo, “colonizar” o Sistema Solar. Bezos planeja levar pessoas para a Lua em 2024, num veículo que ainda não foi construído, mas já foi batizado: Blue Moon.
Não se sabe se haverá fundo musical durante o pouso.
Nesse projeto nada acanhado, o verbo “colonizar” chama a atenção. Os anéis de Saturno serão “colonizados”. Em seu site, a Blue Origin afirma que, para proteger seu torrão natal, “a humanidade terá de expandir, explorar, encontrar novas energias e recursos materiais e mover as indústrias que estressam a Terra para o espaço”. Bezos fala em transferir “atividades de produção” para os corpos celestes à nossa volta. Em sua imaginação de futuro, talvez o nosso velho planetinha será um Jardim do Éden preservado, habitado por humanos ricos, cercado de sujeira industrial por todos os lados. Enquanto isso não se materializa, a empresa vai faturando com passeios a preços suportáveis para a massa ir virar cambalhotas longe da gravidade. A Disneylândia do amanhã fica a meio caminho entre os Estados Unidos e a Lua.
A publicidade, pelo menos ela, já começou. Na semana passada, no dia 13 (esse número de que os astronautas da Nasa não gostam nem um pouco), a Blue Origin carregou para além da estratosfera o ator William Shatner, de 90 anos de idade. O improvável leitor talvez não ligue o nome à pessoa, mas, décadas atrás, Shatner fez sucesso no uniforme de Capitão Kirk, o protagonista de uma série de televisão chamada Jornada nas Estrelas.
Agora, em 2021, ao subir a bordo de um foguete de Bezos, o ator atraiu a cobertura deslumbrada da imprensa mundial, que hoje é química e financeiramente dependente de celebridades. Envergando um macacão azul da Blue Origin, o exkirk apareceu em telejornais de todos os continentes terráqueos, num golpe de marketing cósmico como nunca se viu, ao menos desde o Big Bang.
Como este ramo de negócios é promissor – o céu é o limite –, outros dois bilionários disputam espaço, quer dizer, disputam o espaço com o ego amazônico de Jeff Bezos: Richard Branson, da Virgin Galactic, e Elon Musk, CEO da Tesla e criador da Spacex. São três, portanto, os endinheirados na briga interestelar, com seus telescópios apontados para um mercado que, na próxima década, deve chegar a US$ 1,4 trilhão.
Todos eles, e vários outros atrás deles, darão um jeito de ir para o céu. Vivos ou mortos. Não nos espantemos se, em breve, uma dessas empresas lançar uma funerária cosmonáutica para despachar cadáveres ilustres, devidamente congelados, rumo a fronteiras nunca dantes trespassadas. Lá irão o defunto, suas memórias digitalizadas e uma pontinha de esperança de que, em outras dobraduras do espaço-tempo, surja um anjo alienígena capaz de operar ressurreições.
No Egito antigo, os faraós erguiam pirâmides dentro das quais seus corpos dormiriam até que seres do além viessem resgatá-los. Agora, sarcófagos nucleares partirão daqui em busca dos deuses que nunca se dignaram a visitar os nossos cemitérios. Os faraós queriam que os céus descessem ao deserto. Os bilionários, batalhadores que são, não ficarão na expectativa – subirão eles mesmos aos céus.
Mas nem tudo é funéreo nesta vertiginosa vertente economia mais-que-global. Há muito mais do que féretros interestelares nas estratégias destes senhores. A nova ocupação capitalista do espaço – esta, sim, a nova fronteira – também se abre em cenários menos funestos. Ninguém precisa ser adivinho para perceber que se aproxima a chegada das estações orbitais particulares. A especulação imobiliária vai entrar em órbita. Os bilionários, estes que vestem paletós que valem o preço de um automóvel e pilotam automóveis que custam mais do que um avião, terão casas de fim de semana muito acima do andar de cima. A estética da coisa será meio Las Vegas. Os abastados passarão temporadas tomando banho de neutrinos, lendo mensagens pornográficas em telas holográficas e namorando seres sintéticos. Haverá vinhos, caríssimos, que só alcançarão o estado da arte quando conservados em câmaras de gravidade zero. Haverá cosméticos que só farão efeito quando aplicados em corpos que flutuam. A distância entre ricos e pobres terá aumentado ainda mais e uns e outros não mais se olharão, quando por acaso se cruzarem, como pertencentes à mesma espécie. Isso tudo na parte boa da história.
Ao que você pergunta: mas serão os bilionários astronautas? Ora, ora, sem a menor dúvida. Bezos e seus competidores, que hoje parecem aqueles moguls que a gente só via em filmes de James Bond, serão os senhores do céu azul. Em tempo: o céu só é azul para quem olha para ele aqui, da Terra; quando visto lá de cima, o céu é escuro, só a Terra é que fica azul. E pálida. Pálida origem.
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Bolsonaro faria tudo igualzinho numa outra pandemia, e ainda há quem apoie o criminoso
São mais de 600 mil vidas perdidas — na contagem oficial, porque com a incompetência do governo e o apoio de médicos negacionistas e ainda as mortes maquiadas (como na Prevent), quantos milhares morreram a mais sem notificação?
“Sabemos que não temos culpa de absolutamente nada. Sabemos que fizemos a coisa certa desde o primeiro momento", declarou o presidente em resposta aos indiciamento da CPI. [Fonte: Fórum]
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'Aceitamos a desigualdade social entre nós com a mesma naturalidade com que nossos antepassados conviviam com a escravidão' - Dr.Drauzio
Aumento da pobreza e da fome produz alto número de moradores de ruaAos domingos pela manhã, costumo correr pelas ruas centrais de São Paulo. Com a cidade vazia àquela hora, o trajeto é sempre o mesmo: sigo pela Maria Antônia, Consolação, praça da República, Barão de Itapetininga, Viaduto do Chá, rua Direita e praça da Sé.
Quem vê a praça da Sé de hoje, marco zero da cidade, não acredita que por ali circulavam homens de terno e gravata e mulheres com vestido e bolsa. Às 7h da manhã, a praça é um formigueiro de homens e até mulheres e crianças. Alguns dispõem do conforto de barracas do tipo iglu que garantem a eles um mínimo de proteção e privacidade, outros não têm alternativa senão acomodar-se em colchões de espuma esburacados e encardidos que alguém jogou fora ou em pedaços de papelão que um dia foram caixas. Enquanto começa a movimentação dos madrugadores, os notívagos dormem a sono solto empacotados em cobertores ordinários.
Como o hábito de passar por ali no mesmo horário é antigo, acompanho há anos o crescimento do número de moradores da praça. Posso lhes garantir, sem medo de exagerar, que pelo menos quadruplicou nos últimos dois ou três anos. Anos atrás, só havia homens, boa parte dos quais dependentes de álcool, crack ou com transtornos psiquiátricos; agora, são famílias inteiras.
Há uma semana, o jornalista Fernando Canzian comentou, nesta Folha, uma pesquisa realizada pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional, a Rede Penssar. Tomo a liberdade de ressaltar os seguintes dados citados no texto: “Quase 20 milhões de brasileiros, um Chile, declaram passar 24 horas ou mais sem ter o que comer, em alguns dias. Mais 24,5 milhões não têm certeza de como se alimentarão no dia a dia, e já reduziram a quantidade e a qualidade do que comem. Outros 74 milhões vivem com medo de passar por essa situação”.
Não é preciso pós-graduação em matemática para concluir que 112 milhões, pouco mais da metade dos brasileiros, vive em estado de insegurança alimentar —leve, moderada ou grave. Nesse contingente, de 2014 para cá, o rendimento real per capita proveniente do trabalho caiu cerca de 30%.
No século passado, quando as secas assolavam o Nordeste, o povo do interior resistia à fome até bater o desespero, juntar a família e meia dúzia de pertences e sair pelas estradas poeirentas para buscar auxilio no povoado mais próximo. Os velhos e as crianças eram os que mais penavam, muitos ficavam pelo caminho ao lado de uma cruz de madeira.
Os bem aventurados que conseguiam chegar a São Paulo construíam barracos com teto de zinco, na periferia inchada e despreparada para recebê-los.
No internato e na residência médica no Hospital das Clínicas, meus colegas e eu recebíamos crianças desidratadas que vinham com diarreia e vômitos, resultantes da miséria, da falta de higiene e de saneamento básico.
Nos plantões do pronto socorro de pediatria fazia parte da rotina perdermos dois ou três pacientes, num turno de 12 horas. Na enfermaria, tínhamos uma ala para desnutridos, crianças magrinhas, com as costelas à mostra, que eram internadas para tomar café da manhã, almoçar e jantar todos os dias. Em contraste com elas, os desnutridos farináceos, alimentados à base de farinha, gordinhos, com os cabelos ralos e descorados como os das espigas de milho.
Essa realidade parecia ter ficado 50 anos atrás, nenhum de nós imaginava revivê-la. Ninguém esperava ver a fome assolar as cidades mais ricas do país, em pleno século 21.
Aceitamos a desigualdade social entre nós com a mesma naturalidade com que nossos antepassados conviviam com a escravidão. Eles, também, achavam que o mundo era cruel e que a economia não teria como sobreviver sem a mão de obra escrava. Envergonhada de “tanto horror perante os céus”, um dia a sociedade decretou o fim da escravidão e liberou os negros para irem atrás da sobrevivência por conta própria.
Acabar com a desigualdade brasileira por decreto não será possível, mas com a fome, sim. Um país que deixa 20 milhões de cidadãos passarem um dia inteiro sem ter o que comer não pode ser considerado civilizado.
Não é possível ver uma sociedade no estágio de desenvolvimento que atingimos de braços cruzados diante dessa infâmia, à espera inútil de que governantes incompetentes como os nossos encontrem solução para uma tragédia dessas dimensões.
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'Bolsonaro e genocida viraram palavras grudadas, pão e manteiga'
Por que Bolsonaro é genocida
É curioso o debate sobre adequação vocabular da semana, com impacto direto no saldo da CPI da Covid e, imagina-se, no futuro do governo: está certo chamar Jair Bolsonaro de genocida?
À primeira vista, trata-se de um daqueles cismas vocabulares de fundo político-ideológico que, volta e meia, dividem a esfera pública em dois times inconciliáveis. Em 1964, houve golpe ou movimento? Em 2016, impeachment ou golpe?
Nesses casos, a tomada de posição costuma organizar toda uma visão de mundo, com sua justificação moral e suas estratégias de ataque e defesa.
O debate sobre o Bolsonaro genocida é um pouco diferente. Apenas apoiadores de crachá, muitos na folha de pagamento do governo, diriam que o presidente não pode ser chamado de genocida porque é um grande defensor da vida.
Nesse caso, só rindo. Mas faz tempo que bolsonaristas andam sem crédito para participar de conversas sérias.
Em geral, mesmo quem defende a impropriedade de aplicar a palavra genocida a Bolsonaro reconhece que sua conduta na pandemia produziu montanhas de cadáveres.
O que se busca então –por razões mais ou menos confessáveis, ligadas ao xadrez político que se joga de olho em 2022– é só uma atenuante para crimes incontestáveis.
O editorial do Globo de terça (19), sob o título “É um abuso acusar Bolsonaro de genocídio”, abusa até da lógica interna ao citar os crimes cometidos pelo governo contra os indígenas e acrescentar que “nenhum deles foi cometido especificamente contra os indígenas”.
Isso logo após reconhecer que, nas comunidades indígenas, “a omissão criminosa do governo (...) foi responsável por centenas de mortes, resultantes da falta de vacinas, da insistência em tratamentos ineficazes, da resistência a combater as invasões e o desmatamento que introduziram o vírus em suas comunidades”.
Argumentação ruim à parte, o que está declaradamente em debate é uma questão de sintonia fina, coisa de razoável sofisticação semântica, alimentada por discussões jurídicas cascudas.
Que perfil étnico-social precisam ter as vítimas de um assassinato em massa para que se caracterize genocídio? Matar aleatoriamente pode? O número de cadáveres –gigantesco, muito grande ou apenas grande– faz diferença? A partir de que número o alarme dispara? Qual é a jurisprudência internacional?
Deixo essas questões para quem entende delas. Me limito a apontar uma dimensão, a meu ver bastante relevante, em que tudo isso soa a pura desconversa. Estou falando da linguagem comum.
A linguagem comum merece todo o respeito, nem que seja só por ser aquela que as pessoas de fato falam –em outras palavras, a régua e o compasso que milhões usam para mapear o mundo.
Fascinados por seus sentidos restritos, manipulados em laboratório, nem sempre os especialistas se dão conta disto: é na linguagem comum que a vida pulsa, palavras prosperam ou definham, sentidos se reinventam.
Nesse âmbito, já era –Bolsonaro é genocida, ponto. A acepção de genocídio como assassinato em massa, sem mais qualificações, parece ter amadurecido junto com a consciência de que nunca, nem de longe, houve um brasileiro que carregasse tantas mortes nas costas.
Bolsonaro e genocida viraram palavras grudadas, pão e manteiga. Ah, o sentido é juridicamente controverso? E daí? Depois de uma vida vendo chefes de quadrilha serem chamados de próceres da República, o povo aprende a ser flexível com as palavras.
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'O bolsonarismo tenta retirar de Lula a capa de político 'paz e amor' para cobrir com ela o psicopata Bolsonaro'
A invenção do “Bolsonaro paz e amor” é uma zombaria grotesca à inteligência
Só um cínico pode acreditar que a confissão feita dias atrás pelo presidente Bolsonaro, de que “chora sozinho no banheiro” para que sua mulher não o veja, pode enganar os ingênuos, como se de repente o machista e homofóbico tivesse se transformado no personagem “paz e amor” da direita fascista.
Às vésperas de a CPI da Covid acusar o capitão reformado de uma dezena de crimes graves, o bolsonarismo tenta retirar de Lula a capa de político “paz e amor” para cobrir com ela o psicopata Bolsonaro, cuja essência é a violência, o ódio, a morte e a mentira. É algo que parece grotesco e se revela uma tentativa de amansar a fera para que não perca as eleições.
É algo que interessa não apenas ao mundo do dinheiro, que ainda continua acreditando ingenuamente na vocação liberal conservadora do capitão, que acaba de anunciar que pensa em privatizar a Petrobras. Trata-se, na verdade, de um disfarce para atrair o capitalismo raiz. O Bolsonaro real, com seu histórico de 30 anos de obscuro deputado do baixo clero, é o que só aparecia em cena para exalar suas grosserias de cunho sexista ou de instintos de morte e violência ou suas obsessões de defesa e fascinação pela tortura e as ditaduras.
Bolsonaro é tudo menos o cordeirinho paz e amor, já que evoca, mais propriamente, a dura passagem evangélica do lobo disfarçado com pele de ovelha. Acredito, por isso, na ingenuidade das formações políticas que estão usando Bolsonaro e seu poder para tirar dele o maior proveito possível e evitar a volta de Lula. A nova tática de rebatizá-lo com a nova versão do político paz e amor para que não perca as eleições e, ao mesmo tempo, desarmá-lo de seus instintos golpistas.
O que esses políticos querem é um Bolsonaro domesticado, de quem possam usar e abusar em seus projetos de permanência no poder. Só assim se explica que o Congresso tenha se negado a analisar os 120 pedidos de impeachment que dormem sonhos tranquilos.
As forças mais conservadoras das instituições, por mais estranho que possa parecer, preferem, contra 70% dos brasileiros, o Bolsonaro fascista e incapaz de governar a uma solução democrática e moderna, capaz de colocar o Brasil no lugar que lhe pertence no mundo e que o bolsonarismo desbaratou.
O sonho de que Bolsonaro tenha de repente se convertido aos valores da democracia – porque há mais de um mês que não ameaça com um golpe de Estado, poque já não ameaça fechar o Supremo e prender os magistrados, ou ainda fechar os meios de comunicação, significando que ele tenha tido uma revelação divina que o fez cair do cavalo, como Paulo a caminho de Damasco – é de uma ingenuidade que beira imbecilidade.
Hoje, nem os mais pobres, e menos ainda a nova massa de famintos, são capazes de acreditar no Bolsonaro convertido à paz e à concórdia, e que tenha dominado de repente seus instintos violentos e destruidores. Assim revelou profeticamente uma mulher simples do campo que, dia 12 passado, festa de Nossa Senhora da Aparecida, ao ver o presidente entrar no Santuário da Virgem para participar da cerimônia litúrgica, lançou um grito espontâneo: “Não, você aqui, não.”
Aquele santuário era um lugar de paz e amor, onde a diminuta estátua de Maria, negra, na qual milhões de pobres e marginalizados depositam suas esperanças, revela, como bem disse o arcebispo, que “o Brasil amado não é o Brasil armado.”
Talvez a mulher que considerava um sacrilégio ver entrar naquele lugar de paz e de encontro o político que encarna os piores instintos de morte fosse uma das 600.000 famílias que tiveram que sofrer a perda de um familiar na pandemia, da qual zombou o presidente, e cuja dor pelas vítimas nunca arrancaria dele uma lágrima de compaixão e dor. Por que chorará agora escondido no banheiro? Até agora ele se apressou em dizer, para não decepcionar seus seguidores mais aguerridos, que não tentou deixar de ser um machão. Apenas também sabe chorar, ainda que sejam lágrimas de crocodilo.
Quem então se interessa em espalhar a ideia de que o amigo e admirador de torturadores e golpistas esteja se transformando no novo pacificador do país?
Tudo por medo de que seja eleito alguém que acredita de verdade nos valores da democracia?
De qualquer modo, ter começado a lançar a ideia da repentina conversão de Bolsonaro, que teria trocado suas ameaças golpistas pelas lágrimas de arrependimento, mesmo que sejam no segredo do banheiro, parece mais um teatro do absurdo ou uma fantasia carnavalesca. A realidade, nua e crua, é que a cruel psicologia de morte e de ausência de compaixão e empatia diante da dor alheia o capitão frustrado levará consigo ao túmulo.
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