Acordou
com uma gritaria, pessoas batendo em sua porta pedindo para que abrisse. Um
deles com voz de gringo, argentino, que seja.
Mal
deu tempo de abrir os olhos, tal era o esporro que faziam. Olhou o relógio
despertador, que marcava seis da manhã. Que porra é essa?
Nu,
saltou a janela para a área interna do prédio, caso eles acabassem mesmo
arrombando a porta.
Ficou
nervoso: e se aparece algum vizinho, com aquela barulheira e ainda o vê nu?
Pensa no noticiário: cantor e compositor que fez sucesso na década passada é
flagrado nu em área interna de edifício.
Mora
no terceiro andar do prédio em Ipanema, mas os dois primeiros são ocupados por
comércio e é como se o prédio fosse erguido a partir dali, com uma pequena área
interna, um falso térreo, que separa seu apartamento de um outro, que fica a
uns10 metros, e que se encontra vazio, desde... sempre?
Mas,
repara agora, o apartamento está com a janela aberta, coisa que nunca tinha
visto. Resolve partir para se esconder lá, porque os homens continuam mandando
que abra, e o gringo chegou a pedir que arrombassem a mierda de la puerta,
cararro!
Mas
ao chegar ao batente da janela do apartamento vizinho percebe que há um sofá
colado à janela e, nele, uma linda morena coberta com um lençol e uma pistola
prateada apontando para sua cara.
Apavorado,
sussurra para que Ela não atire, aponta para seu apartamento, o barulho dos
invasores, diz (baixinho, baixinho) que não sabe quem são, nem o que querem,
pergunta se Ela não o está reconhecendo, é compositor, chegou a fazer sucesso
numa época com aquela música Querida-a-ah, não se recorda?
Ela
autoriza sua entrada, não sabe se por haver se recordado da canção ou se por considerá-lo
inofensivo.
Ele
pula e se sente constrangido, agachado, nu, com a morena apontando a arma para
sua cabeça e um olhar que lhe pareceu de desprezo por sua figura - ou foi pelo
tamanho do seu pau?
Encolheu-se
e continuou a falar baixinho, quando Ela encostou o cano da pistola em sua
boca, um cano gelado, mandando que ficasse com a boca fechada.
Ficaram
concentrados no que os visitantes da manhã queriam. Parece que descobriram que
não seria 103 (o número de seu apartamento) mas 105 (o número do que está
agora) o que constava do papel.
O
argentino (vamos supor que fosse), que parecia comandar o bando de pelo menos
três, ordenou que fossem ao 105.
Ele
e Ela se levantaram e correram para o corredor do prédio, abriram a porta da
escada e se esconderam ali, coladinhos.
Ela
estava coberta apenas com o lençol, mas, além da arma, tinha uma bolsa grande
grudada no corpo.
Não
sabe por que, lhe veio uma certeza de que Ela estava nua sob o lençol e, mesmo
diante da tensão que estavam vivendo, diante da proximidade entre os corpos, da
delícia do seu perfume, do ritmo de sua respiração, experimentou uma intensa e
absurda (para o momento) ereção.
Ela
apontou a arma para seu pau, sem alteração no olhar, sem ameaças, apenas como
quem diz Recolha a arma, e ele se sentiu constrangido. A ereção desabou como a
queda das Torres Gêmeas, numa implosão rápida.
Ficaram
ouvindo os homens invadirem o apartamento 105 e depois saírem de lá dizendo que
não havia ninguém, que estava vazio.
Ouviram
seus passos de volta para seu apartamento e novamente as batidas e ordens para
que abrisse a porta.
Ela
o chama de volta para seu apartamento. Abre uma pequena mala que estava sob o
sofá, com umas poucas peças de roupas, mais cargas para sua pistola e ainda um
outro revólver, que ele não soube identificar.
Ela
pega um vestido curto e dá a ele, enquanto se dirige ao banheiro.
Ouve
a porta ser arrombada. Alguém do prédio gritar que vai chamar a polícia, Olha a
bagunça a essa hora da manhã!
Escuta
um tiro. Dois. E o gritinho da mulher que disse que chamaria a polícia, seguido
pelo barulho de sua janela se fechando rapidamente.
Não
tem ninguém aqui também, disse um dos invasores. Mas tinha, porque tá uma zona
isso aqui, criticando a desarrumação de seu apartamento.
Deve
ter fugido, quando batemos na porta, ele deduziu, Vou ver se não está aqui na área
interna.
O
argentino (vá lá que seja, ou paraguaio) diz pra verificar, enquanto vai descer
com o outro para cercarem a saída do prédio.
O
invasor salta a janela, o que ele percebe pelo barulho dos sapatos no chão. Ele
se aproxima do apartamento onde está, nu, com um vestido curto na mão.
O
homem põe a cara na janela. Foi a última besteira que fez na vida. Um tiro
acertou o meio de sua testa. Morreu sem nem ver.
Quando
ele olhou para trás, ali estava Ela, com sua pistola na mão. E o tiro certeiro.
Estava
linda, com um vestido floral, os cabelos longos, castanhos, como se houvesse se
preparado há séculos para aquela cena.
Com
a tranquilidade que sempre mostrara até o momento, Ela mandou que ele vestisse
o vestido que lhe dera, também floral, mas em outro tom.
Ele
chegou a protestar, dizer que iria rapidinho ao seu apartamento. Mas Ela disse
Não temos tempo, vamos pela escada.
Enquanto
ele coloca o vestido, Ela pega o outro revólver, a munição e coloca tudo dentro
da bolsa, de que não se desgrudara um só momento.
Ele
coloca o vestido e fica ridículo, como era de se esperar, com as pernas
cabeludas, descalço, como quando esteve em Cabo Frio, no bloco da Rama, em que
os homens se vestiam de mulher, há muitos anos, quando era jovem, mas a
lembrança fugiu diante da pistola encostando em seu braço e mandando que
descesse a escada do prédio na frente dela, que seguia com a pistola numa das
mãos e a bolsa presa ao ombro do outro braço, uma bolsa grande, que parecia
cheia de coisas. Mais armas e munições?, ele pensa.
Chegam
à garagem do prédio e Ela fica observando os carros estacionados. Até que
escolhe um (o dela? Então por que observou outros?), abre a porta, senta-se no
assento do motorista e ordena com a arma que ele vá ao outro lado e se sente no
chamado banco do morto, o banco ao lado.
O
carro é seu? Ele pergunta, enquanto Ela dirige o carro em direção à saída do
prédio.
Ela
não responde nada, apenas sinaliza com um tchauzinho com o braço esquerdo para
fora, em direção à câmera que sabe ter ali, e aperta a buzina para que abram a
garagem.
Aberta
a garagem, Ela sai a toda velocidade.
Duas
quadras depois Ela estacionou o carro, limpou o volante e a marcha para tirar
as digitais, jogou a chave dentro da bolsa, guardou a pistola e disse a ele
Vamos pegar um táxi pra Rodoviária.
No
táxi, a caminho da Rodoviária.
Ele
está sentado atrás do motorista. Ela a seu lado, com a bolsa no colo.
Ele
está intrigado com Ela. Mais do que isso, está preocupado em como vai chegar à
Rodoviária descalço e com um vestido que fica no meio de suas coxas.
Ela
parece que também está pensando nisso e manda o motorista de táxi, de uns anos
pra cá chamado de taxista até no Rio, dar uma parada. Pergunta quanto ele
calça. Vai comprar uma Havaiana pra ele. 43.
Ela
na loja, o motorista de táxi, ou taxista, resolve fazer uma gracinha e dizer
que a menina tem pé grande. E lança um sorrisinho sacana pra ele.
Resolve
ficar calado. Mataram uma pessoa. Quer dizer, Ela matou. Mas ele estava junto,
o que o torna cúmplice. Ou não? É melhor não arranjar confusão.
Ela
chega e joga a sandália pra ele, que a veste. Pelo menos não vai chegar
descalço.
A
sandália combina com o vestidinho, ironiza o motorista de táxi, ou taxista.
Vamos
para a Rodoviária, Ela diz, cortando a conversa.
Durante
o trajeto, como não encontrou resposta, o motorista de táxi ficou mais atrevido
e teimou em olhar para ele pelo retrovisor com um olhar cínico e abusado.
Bem
que ele disse a Ela para pegar um táxi de empresas, tipo Táxi-Rio, ou mesmo um
Uber, porque os motoristas de táxi das ruas do Rio... mas Ela fez como sempre
vem agindo, como lhe deu na veneta, como fez com a roupa que o veste.
Ele
decidiu tentar parar de se aborrecer com o motorista de táxi, ou taxista, e
recapitulou mentalmente tudo o que acontecera desde que foi acordado pelos
gritos e a batida à sua porta.
Olhou
a morena a seu lado. Era linda. Mas muito séria. Pensa que nunca conheceu uma
mulher daquele tipo, tão decidida.
Pensa
em perguntar se o carro era dela. Por que não havia nada no apartamento dela,
apenas aquela mala sob o sofá? Por que tantas armas?
Mas
o taxista estava mesmo querendo provocá-lo, e perguntou se a mocinha não achava
melhor fazer a barba para dar um aspecto mais feminino, e emendou, enigmático,
Ou saíram apressadas?
Ele
falou com a voz mais grossa que pôde que era homem e que não estava gostando
dos modos do taxista, que ele não tem nada a ver com a vida dos dois, e que por
isso havia sugerido a Ela que pegassem um táxi pela rede, porque a praça está
cheia de motoristas ladrões, milicianos e policiais perigosos.
O
taxista aumentou o cinismo do olhar e disse Eu cravo triplo: sou ladrão,
miliciano e policial, e mostrou a carteira de policial e o revólver no
porta-luvas.
Foi
seu erro.
Na
Rodoviária, ainda vestido de mulher, ele espera por Ela.
Após
a ameaça velada do policial no táxi, Ela apontou a pistola para a cabeça dele e
o fez deixá-lo na Rodoviária, enquanto seguiu com o táxi e o policial motorista
não sabe para onde.
Pediu
que a aguardasse no segundo piso, setor de embarque, perto dos banheiros.
Ele
já estava ali há mais de uma hora quando começou a pensar que Ela não
apareceria. Afinal, nem o nome dela sabia. Nunca a tinha visto antes.
É
testemunha de um crime e pode ser de outro, caso Ela tenha executado também o
policial motorista do táxi, ou taxista, como começaram a chamar agora.
Esse
pensamento aumentou sua angústia. Não sabia se poderia voltar pra casa, porque
podia ser que a polícia estivesse atrás dele por causa do homem que Ela matou
com um tiro certeiro na testa.
O
que diria aos policiais? Que foi acordado com pessoas batendo na porta de seu
apartamento, pessoas que não sabe quem são e que queriam entrar de qualquer maneira,
e que por isso pulou nu para a área interna, tentou se refugiar no apartamento
vizinho, que sempre esteve vazio, desde que mora ali, e lá encontrou uma mulher
linda, morena, cabelos castanhos escuros, mais ou menos da altura dele, 1,75 m,
e que Ela atirou na testa de um dos invasores, que ele nunca vira mais gordo,
nem nunca mais gostosa, linda e instigante mulher em sua vida.
Não,
era melhor ficar calado, esperar mais um pouco, porque se nada tem sentido,
pois se parece mais um pesadelo, Ela tem que aparecer ou o pesadelo termina e
ele acorda.
Decidiu
ficar quieto, tentando chamar atenção o mínimo possível, embora fosse um pouco
difícil, vestido como estava, embora uma Rodoviária seja um espetáculo de tipos
exóticos.
Olhou
adiante, lá mais perto do banheiro, onde Ela pediu que ele ficasse, e resolveu
ir para lá. Será que Ela não está em outro local apenas aguardando que ele vá ao
ponto de encontro para aparecer?
Não
foi para lá logo que chegou porque ficaria muito exposto. Muita gente vai ao
banheiro, ele ficaria bem na passagem.
Resolveu
sentar-se ao lado de um casal de jovens. Ela, uma morena novinha, de uns 18
anos, mais ou menos, Ele, mais velho, 25, 26 anos, muito magro e cabeludo.
Ele
com uma mochila pequena e Ela com uma mala enorme, como costumam usar as
mulheres.
Mas,
ao sentar-se ao lado deles, que nem perceberam sua presença exótica, o casal se
levantou e saiu, Vamos descer que está na hora de pegar o ônibus, a menina
disse.
Ficou
de costas para o banheiro e de frente para os que se dirigiam para lá, e tratou
de abaixar a cabeça e procurar a posição mais neutra possível, que não
denunciasse seu estranho figurino.
Alguma
coisa incomodava seu pé direito. Olhou e viu um daqueles plásticos de lacre
ainda presos na sandália nova e se abaixou para retirá-lo, quando percebeu, bem
debaixo de sua cadeira, o que parecia ser um baseado de bom tamanho, maior que
um cigarro comum.
Olhou
para um lado e outro, ninguém estava olhando, e tratou de pegar o baseado o
mais rápido possível. Pensou, que sorte, imagina se a polícia passa por ali e o
vê vestido de mulher com um baseado sob o banco... “Cantor e compositor famoso
na década passada aparece na Rodoviária vestido de mulher com um baseado
debaixo do banco”.
Ficou
com o baseado na mão. Resolveu colocá-lo num bolso que descobriu no vestido.
Mas
havia algo no bolso. Era a carteira de identidade dela. Só que Ela estava com
os cabelos bem curtinhos e pretos, não castanhos e compridos como hoje.
Havia
também umas notas, uma quantidade razoável de dinheiro em notas de grande valor
e novas, que Ela devia ter esquecido ali, ou deixado de propósito.
Sorri
com a informação do nome dela, embora saiba que vai esquecê-lo logo, pois é
terrível para lembrar nomes e rostos.
Era
um nome agradável, e agora ele tinha como pensar nela com um nome e outro cabelo,
outra cor de cabelo. Já era mais alguma coisa.
Porque
já sabia que atira bem, tem um cheiro fresco e floral, de um perfume que ele
ainda não havia sentido igual e que achou excitante.
Mas
Ela não aparecia.
Meia
hora depois de estar sentado ali começou a achar que Ela não iria aparecer e decidiu
então relaxar. Resolveu aproveitar o dinheiro para ir até o banheiro e fumar um
pouco do baseado para dar uma relaxada.
Não
fumava desde a noite, quando chegara em casa meio bêbado e triste com a solidão
do apartamento vazio e fumara um baseado. Ficou uma ponta, que ele não pôde
pegar na fuga.
Agora
resolve dar pelo menos uns tapas na presença deixada pelo casalzinho abençoado,
que deus os proteja e façam boa viagem, ele pensa.
Paga
ao homem que toma conta do banheiro e que estranhamente nem o olhou diferente
vestido de mulher. Pensa que aquele homem dever ver vários tipos exóticos o dia
todo, ele seria apenas mais um, embora com um vestidinho curto e florido.
Mas,
antes de entrar no banheiro se lembra de que não tem fogo para acender o
baseado e seria atrevimento pedi-lo ao porteiro. Vai ao bar perto e pede
fósforos. É obrigado a comprar um isqueiro.
Finalmente
dentro do banheiro grande da Rodoviária, ele se dirige ao fundo do corredor.
Não
pensa em entrar em um dos boxes, como se fosse cagar, prefere usar o velho
truque dos mágicos, fazer às claras o que não quer que ninguém perceba.
Acende
o baseado e o gosto é bom, o cheiro ótimo. Dá uma tragada profunda, segura a
fumaça nos pulmões por um bom tempo e depois a exala pelo basculante.
Uau!
O fumo é forte e parece que misturado com haxixe, o que o está deixando bem
doidão. Está com a mão esquerda apoiada na parede e com a direita finge estar
segurando o pau para mijar, mas segura na verdade o baseado.
Percebe
que seu truque está certo quando o porteiro entra reclamando de quem está
fumando maconha aí, porra. E começa a bater em cada um dos boxes fechados.
Abre
aí!, ele diz num boxe trancado. O home diz Eu tô cagando. Você tá é fumando
maconha. Vou chamar a polícia.
Ao
ouvir a palavrinha mágica, polícia, ele percebe que é hora de parar com a
brincadeira, apaga o baseado e o coloca no bolso do vestido.
Começa
a sair do banheiro, quando percebe que está completamente doidão, com
distorções visuais e sonoras.
Lembra-se
do casalzinho e pensa que a molecada de hoje está pegando forte.
Anda
como se estivesse flutuando, e começa a rir ao ouvir o homem gritar eu tô
cagando porra!, e ri mais alto, mais alto, e sai.
Lá
fora não vê ninguém, quer dizer, vê muita gente, mas não quem procurava
encontrar, Ela. Há apenas, sentada no lugar onde estivera antes, uma mulher,
com um lenço colorido na cabeça e cercada por sacolas de compras, com uns
óculos escuros imensos no rosto, uma calça jeans, tênis e um casaco sobre o
ombro, num dia de calor...
Só
ao chegar mais perto percebe que é Ela, como é o nome mesmo? Esquecera. Lá está
Ela e ele se sente mais próximo a Ela, mais íntimo, ao descobrir seu nome.
Oi,
(mostra a carteira, lê o nome), fiquei pensando que você não viria.
Fica
sabendo que aquele não era o nome dela, mas de uma irmã gêmea que tem. Mas Ela
não se aprofunda no assunto, nem diz seu nome verdadeiro, e volta a ser Ela
mesma, quando dá a ordem Vamos rápido porque estamos atrasados.
Ele
não acreditou na história da irmã gêmea e não entendeu bem porque Ela estava escondendo
o nome dele. Mas, logo, pensou: e se Ela tiver uma irmã gêmea mesmo? E parou de
ficar pensando em besteira.
Mas,
antes, mostra uma sacola plástica grande. Vista essas roupas, comprei pra você
num brechó aqui.
Ele
pensa em voltar ao banheiro, mas não acha boa ideia, está chapadão, e veste a
calça no corredor mesmo, tira o vestido, coloca a camisa jeans de manga
comprida, tem até um tênis.
Sacode
o vestido e a sandália na sacola, mas, antes, retira o baseado e o isqueiro e os
coloca no bolso da camisa.
Sente
um desconforto no bolso de trás da calça, quando se senta para calçar o tênis.
Verifica o que é: uma carteira, com cartões de crédito, identidade.
Alguém
esqueceu de tirar no brechó, ele diz. Ela diz a ele para jogar a carteira no
cesto de lixo que há por perto, como se fosse a coisa mais natural a fazer. Sem
nenhum comentário, preocupada em retirar as passagens da bolsa e falar vamos ou
perdemos o ônibus.