, o historiador Sérgio Buarque de Holanda fala sobre a infância e parte da juventude de seu filho Chico. O depoimento é de 1968.
Futebol, política, literatura, comportamento e uma visão de Chico diferente da que as pessoas compartilham até hoje: "Meu filho não é tímido".
A imagem que o público fixou de meu filho não é correta. Para o
público, Chico é tímido (antes de tudo, tímido), bonzinho, retraído.
Nada disso. Pelo menos em família e com os amigos, é completamente
diferente, um rapaz brincalhão, extrovertido, bem para fora. Quando ele
aparece em público, torna-se diferente. Talvez seja o medo de parecer
ridículo. Mas podem crer, ele não é tímido, nem bonzinho. É, sem dúvida,
uma boa pessoa. Mas não bonzinho, no sentido em que esta palavra é
interpretada. Quando criança, jamais foi um rebelde. Posso assegurar que
se tratava de uma criança normal.
Procurava sempre ser
independente. E essa independência ele afirmava, procurando fazer tudo o
que faziam os irmãos mais velhos. Nem um "amor de criança", nem um
"enfant terrible". Normal. Não era nem ligado ao pai nem à mãe. Dava-se
bem com todos. Com as irmãs, tias e avós. Quando viajamos para a Itália
(nesse tempo tinha 8 anos), deixou para avó um bilhete: "Avó, vou para
Itália. Quando eu voltar, provavelmente a senhora estará morta. Mas não
se preocupe. Eu vou me tornar um cantor de rádio. É só a senhora ligar o
rádio do céu que vai me escutar".
Desde menino, sempre se
interessou por música e futebol. Jogo, não perdia uma irradiação. Seus
ídolos eram Telê, do Fluminense, e Pagão, do Santos. Na Itália, torcia
pelo Genoa. Da música popular, seus ídolos eram Ismael Silva, Caymmi e
Ataulfo Alves. Mas tarde, João Gilberto, de quem procurava imitar o
estilo. Não acredito que Noel exerça influência sobre Chico. A maior
semelhança entre os dois é a temática: urbana. Caymmi, Ataulfo e Ismael
marcaram mais que Noel. Chico também não é um compositor de classe
média, como afirmam por aí. Não há dúvida, Noel e Chico também se
assemelham um pouco, porque ambos enfocam temas urbanos. Nada mais.
Aliás, há no Brasil uma mania de Noel! Qualquer compositor que surge é
imediatamente comparado com o grande criador carioca. Creio que há um
pouco de exagero em tudo isso.
Quando surgiu a bossa-nova, Chico se
encontrou com ela. Apreciava muito João Gilberto e ouvia-o seguidas
vezes. Vinícius, muito amigo da família, aparecia sempre em festas e
Chico ficava a ouvi-lo, com grande admiração.
Desde cedo, Chico já
tinha namorada. Sempre foi muito vivo e alegre. Jogava futebol nas ruas,
como todos os garotos de sua idade. Quanto aos estudos, dedicava-se a
eles principalmente às vésperas de exame. Estudava duas ou três horas
seguidas, depois cansava e ia se divertir. Em 1962, quando terminou o
curso científico, foi orador da turma, provocando muitas risadas com seu
discurso cheio de humor.
O sucesso não o mudou essencialmente,
chateia-o um pouco, apenas. Hoje, não pode sair às ruas sem que lhe
venham pedir autógrafos. Para ir à praia, há dificuldades, só em São
Conrado. Bem longe. Continua fiel aos amigos, embora não tenha muito
tempo para se dedicar a eles. Assim que chega a são Paulo, telefona para
todos, organiza noitada com eles. Chico sempre viveu em bando, com
muitos amigos, uma verdadeira turma. Sua formação é, sem dúvida,
paulista. Nasceu no Rio, mas quando completou 2 anos, mudamos para São
Paulo. Aqui, passou toda sua infância. Preferiu fazer o científico
porque achava que o curso clássico era coisa de mulher. Dado momento,
escolheu um ramo bem aproximado do artístico: arquitetura. Ficava em
casa criando cidades imaginárias. Todas tinham uma fonte no meio da
praça: lembrança das fontes de Roma, onde moramos algum tempo. Chico, em
vez de começar a falar, cantou. Desde que tentou se expressar foi
através da música. Mas tarde, ficava com as irmãs aí pela sala,
inventando música. Dizia que já que não conhecia de cor música de outros
compositores, era obrigado a inventar as próprias. O sucesso veio de
repente, sem que ninguém esperasse. Recebi a notícia de que Chico tinha
ganho o Festival de Música Popular Brasileira com "A Banda", quando
estava em Nova York. Um jornal norte-americano publicou a notícia. Claro
que me senti muito orgulhoso. Cheguei à conclusão - o que uma revista
publicou na época - de que, antes, ele era meu filho. E depois do
festival eu passei a ser o pai dele. Não há posição melhor. Têm surgido
boatos por aí, de que eu componho as músicas para ele. Mas, meu Deus,
quem sou eu para ter tanto talento? Se eu soubesse escrever músicas como
ele, há muito tempo não seria eu mesmo, mas Chico Buarque de Holanda.
São boatos sem fundamentos, como muitos que vão por aí. Como essas
notícias que circulam, afirmando coisas que jamais afirmamos. Um jornal
carioca publicou que, após ver a peça "Roda Viva", eu tinha dito: "eu
sabia que havia tudo isso aí dentro do meu filho". A frase talvez
pudesse ter sido dita por mim, mas que não disse, não disse. Das suas
músicas todas, gosto mais de "A Banda", "Pedro Pedreiro", "Roda Viva" e
"Carolina". Nunca me esquecerei do dia em ouvi "A Banda" pela primeira
vez, em Nova York, na casa de um amigo. Foi uma grande emoção. Não
obstante todo o sucesso, o qual não lhe provoca muito prazer, é bem
capaz de Chico largar tudo isso e partir para uma outra coisa qualquer,
bem diferente. Ele é bem capaz disso. Muito inquieto. Muito inteligente.
Sempre gostou muito de ler. Guimarães Rosa é um de seus autores
preferidos. Quando fez "Pedro Pedreiro", inventou uma palavra: penseiro.
Talvez inspirado em Guimarães Rosa, que também era dado a inventar palavras.
Tolstoi e Dostoiévski também eram seus favoritos. Assim como Kafka. Em
geral, ele ia lendo tudo o que caía em suas mãos. A música é responsável
por ele ter abandonado o curso de arquitetura, decisão que tomou
sozinho. O sucesso abriu uma impossibilidade de estudar. Excesso de
compromissos, solicitações. Creio que, na música, ele se realiza mais,
se torna muito mais feliz. É preferível um compositor realizado, que um
arquiteto frustrado, como todo mundo sabe. Quando vai compor, geralmente
fica isolado, no quarto, sozinho. A música e a letra sempre nascem
juntas, uma ligada à outra, indissoluvelmente. Encontrou grande
dificuldade em musicar "Morte e Vida Severina", porque a letra não era
sua. Desde que aprendeu a tocar violão, com sua irmã Heloisa, hoje
casada com João Gilberto e morando em Nova York, nunca mais deixou de
compor. Sua adolescência foi normal, sem nenhum conflito especial. Posso
considerá-lo um rapaz feliz. Suas primeiras composições falavam de
amor. Mais tarde, quando ingressou na faculdade, passou a fazer música
de participação, sendo que a primeira foi "Pedro Pedreiro". A família
ficou um pouco tonta com o sucesso tão fulminante, tão rápido. Mas já
nos acostumamos. Chico é que não se habituou a ele. Ficou muito contente
de ter ido a Paris, porque ninguém o conhecia por lá. Talvez o sucesso
tenha provocado uma espécie de defesa, tornando-o um pouco retraído. De
fato, meu filho não é tímido. É bem diferente a imagem que temos dele.
Trata-se de uma pessoa normal, alegre, sem problemas graves de
personalidade. Eu sei o que eu estou falando. Sou seu pai há 23 anos.